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Sr. Loverman, de Bernardine Evaristo | Resenha

Barry, o protagonista deste romance, é um personagem peculiar e que tem tudo para ser um anti-herói. Nascido em uma ilha caribenha, Barry vive há muitos anos em Londres, onde leva uma vida boêmia e aparentemente comum. Aos 74 anos, o personagem é casado, bem sucedido, tem duas filhas e um neto. No entanto, esconde um segredo há décadas: tem um relacionamento com Morris, o seu melhor amigo de infância.

Mas apesar da sensibilidade do tema, por viver um amor escondido e mascarar a sua sexualidade, Barry tem comportamentos e opiniões polêmicas, que podem gerar uma certa antipatia do leitor. O protagonista é machista, deixa a esposa de lado e destila preconceitos – o que, para mim, soa como até mesmo uma defesa por não se aceitar como um homem gay.

E além de misturar temas e personagens pouco convencionais, o sucesso Bernardine Evaristo coloca um forte tom bem humorado e sarcástico ao seu texto. Na minha opinião, o resultado deu muito certo. A autora nos mostra que podemos falar de assuntos delicados, mas sem necessariamente mergulhar em um tom melancólico e de difícil digestão.

Ao longo dos capítulos, vamos conhecendo um pouco do passado dos principais personagens que fazem parte da vida de Barry. E é muito interessante perceber como as escolhas do protagonista acabam impactando a vida de sua família e de Morris, a sua verdadeira paixão. O seu egoísmo deixa marcas.

O livro foi escolhido para o sentimento CULPA do #DesafioBookster2024 e tem vídeo com o querido @fcustodio sobre essa leitura no meu canal do YouTube. Entre no Telegram do Desafio Bookster para ficar por dentro (link na bio).

Cinzas na boca, de Brenda Navarro | Resenha

Um livro sobre perdas, abandono, solidão e não pertencimento. A temática pesada que envolve a trama criada pela autora mexicana me levou a escolher “Cinzas na boca” como a leitura para o mês sobre tristeza do #DesafioBookster2024

Uma protagonista sem nome deixa o México e vai para a Espanha em busca de sua mãe, que havia abandonado seus filhos na sua terra natal. E a protagonista leva consigo o seu irmão, Diego, de quem sempre tentou cuidar e suprir a falta que o papel materno causava. A ida para aquele novo país parecia ser uma solução para seus problemas.

E a partir disso, são diversos os temas abordados pela autora, que transmite ao leitor uma interminável sensação de desamparo. A protagonista sofre com o preconceito contra os imigrantes e precisa se submeter a trabalhos em más condições para sobreviver. Por outro lado, seu irmão parece não encontrar na mãe a falta que sentia dentro dele. E aos poucos a autora vai nos revelando um doloroso cenário que culmina na morte do irmão, ao tirar a própria vida (não há spoiler, já que esse acontecimento está na primeira página do livro).

Também encontramos a falta que o México causa nos personagens. A dificuldade de aceitar que a busca por uma vida melhor não tenha dado certo e que a realidade anterior talvez fosse mais acolhedora. Quando a protagonista volta para o seu país natal com as cinzas do irmão, esse contraste se torna ainda mais evidente.

E não há como negar que a tristeza está presente em diversas partes da narrativa. No entanto, confesso que, apesar de tantos obstáculos vividos pelos personagens, não consegui me conectar tanto com eles. Não sei se foi a escrita em fluxo de consciência, que pode confundir um pouco o leitor no início da leitura, ou a falta de aprofundamento nas relações, com um ritmo bem urgente, mas senti um impacto menor do que esperava.

Uma leitura difícil, que pode despertar gatilhos, mas que apresenta uma autora potente e sem receio de tocar em temas sensíveis.

PS: Para quem quiser saber mais, tem conversa sobre a leitura com a @nataliatimerman no meu canal do Youtube.

#DesafioBookster2024 | Julho

Mês: Julho
Sentimento: Solidão
Livro: Nem sinal de asas, de Marcela Dantés

Compre o livro físico na @estantevirtual_oficial com frete grátis e cupom de desconto DESAFIOBOOKSTER, link nos stories ou Bio)

A solidão até na morte: o corpo da protagonista é encontrado depois de anos de sua morte. O primeiro livro nacional do Desafio Bookster 2024 é da talentosa Marcela Dantés (@marceladantes), publicado por uma editora independente. A obra escolhida foi finalista do Prêmio Jabuti 21 e do Prêmio São Paulo 21. Eu tô animadíssimo para ler esse livro com vocês! Vamos juntos?

Sinopse:
“Da porta de seu apartamento, por entre as faixas de uma escandalosa fita zebrada, é possível ver: o pó, o vazio, o carpete azul desbotado e inocente. E ninguém. Não há ninguém. Quanto tempo até que se encontre o corpo de uma mulher que viveu e morreu sozinha? Quanta correspondência cabe na caixa de correio de alguém que já não é? Nem sinal de asas narra os dias de uma mulher que viveu na ponta dos pés. Sua morte, cheia de dor, silêncios e devaneios, é o justo resumo do resto de sua vida, a solidão esmagadora de alguém que não gosta muito de gente, ela incluída. E seu corpo, seco-múmia, no meio da sala escura onde o ar-condicionado insiste em funcionar, é só espera: quem vai chamar por ela? E quando?”

E vocês já sabem, né? No final do mês teremos uma live no YouTube com um convidado super especial para conversar sobre essa obra.

Quem vem com a gente? Acompanhe tudo no grupo do Telegram (link na bio).

@editorapatua
232 páginas

O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, de Haruki Murakami | Resenha

Há alguns anos, quando conheci Murakami, confesso que li um livro atrás do outro do autor. E apesar – ou talvez, por conta – desse momento intenso de Murakami, passei os últimos anos sem ler nenhuma das suas obras. Eu colocava algum livro nas próximas leituras, mas outros acabavam passando na frente.

No mês passado, tive a sorte de começar a ler “O incolor”. E digo sorte porque isso me lembrou dos motivos da minha fase Murakami. Já nas primeiras páginas fiquei empolgado com a forma que o autor descreve a relação de Tazaki, o protagonista, e seu grupo de amigos – sobretudo a presença das cores nesse universo.

O romance é atual e reflete a solidão que recai sobre as novas gerações, principalmente os jovens orientais. O protagonista, um construtor de estações de trens, vive em Tóquio. Apesar de tantas pessoas a sua volta, Tazaki passa a maioria dos seus dias sozinho. Na verdade, ele é acompanhado por um trauma do passado: de um dia para o outro, o seu grupo de amigos inseparáveis corta as relação com Tazaki.

O problema é que o protagonista nunca os questionou sobre os motivos daquela decisão. E essa dúvida passou a ser tão dolorida que o personagem flertava com o fim de sua vida. No entanto, quando uma mulher acaba ganhando espaço na sua vida, Tazaki passa a encontrar uma certa coragem para enfrentar esse passado e, finalmente, conseguir se livrar desse fantasma.

Murakami consegue construir um personagem contemporâneo e descrever as suas angústias de uma forma simples, mas muito consistente. Não há uma dualidade entre certo e errado, mas sim a busca das versões de cada um daqueles envolvidos na história. A nostalgia e melancolia características do autor também estão presentes na obra.

Apesar do clima mais lento, a narrativa me prendeu e a evolução dos acontecimentos deu um ótimo ritmo para a leitura. Fica minha baita recomendação, inclusive se você nunca leu nada do autor.

Caderno Proibido, de Alba de Céspedes | Resenha

Comprar um caderno para usar de diário é um ato de liberdade. Ao menos para uma mulher na Itália da década de 50. Valeria, uma mulher de cerca de 40 anos, se coloca sempre em último plano. Seu marido, que a chama de “mamãe”, e seus filhos são a prioridade. Talvez por isso ela enxergue o ato de escrever e de refletir como uma transgressão. Teria ela direito de tirar um tempo para si, para seus próprios conflitos internos?

A leitura é feita a partir do próprio diário, em um período de cerca de 6 meses. Lemos as descobertas que a protagonista vai fazendo sobre a sua própria situação. São reflexões sobre a maternidade, o casamento, o trabalho e as dificuldades de lidar com as diferenças geracionais entre a sua educação e de seus filhos.

É muito interessante – e ao mesmo tempo incômodo – de perceber como o processo de consciência que Valeria vai tendo sobre a sua realidade e suas insatisfações assusta a protagonista. Seria melhor deixar esses pensamentos de lado e apenas seguir a vida no automático?

E a atualidade da história de Valeria impressiona. Publicado em 1952, há mais de 70 anos, a obra da autora italiana ainda revela muitos dos anseios e sentimento de culpa que assombra as mulheres. A dificuldade de conciliar o trabalho com a criação dos filhos e o cuidado da casa. A necessidade de sempre precisar se mostrar capaz. O medo de dar uma chance aos próprios desejos. E a lista não caberia aqui nesse pequeno espaço.

Aos poucos, uma nova figura acaba tomando um papel maior nos seus sentimentos e Valeria acaba se vendo em um impasse. Uma leitura muito fácil, envolvente e que desperta inúmeras reflexões no leitor. A autora influenciou Elena Ferrante e, sem dúvidas, continuará impactando inúmeras novas histórias.

E o livro foi o escolhido para o tema LIBERDADE do #DesafioBookster2024.

Os afegãos, de Åsne Seierstad | Resenha

20 anos após a queda do Talibã no Afeganistão, época em que Åsne esteve no local e escreveu o fenômeno “O livreiro de Cabul”, a jornalista norueguesa volta para o país em uma corajosa missão para tentar compreender os motivos que permitiram a retomada do poder pelo grupo extremista. E para conseguir analisar o cenário político e social atual, Åsne acompanhou três personagens com realidades e de gerações diferentes.

A primeira delas é Jamila, hoje uma figura importante no ativismo pelo direito à educação das mulheres afegãs – proibido pelo regime do Talibã. E a autora retorna às primeiras memórias da personagem, que cresceu em uma sociedade muito hostil às mulheres, para mostrar a sua coragem e determinação.

Bashir é a segunda figura da obra. Sua atuação, no entanto, é completamente distinta: ele faz parte do Talibã e atua como um soldado e uma peça importante na ascensão do regime. A autora passa a frequentar a sua casa, conviver com suas esposas e nos apresenta um retrato incômodo de quem luta pelo poder nas mãos de um grupo extremista e violento.

A mais jovem a formar as páginas de “Os afegãos” é Ariana, que nasce já no novo século e cresce em um país livre do Talibã. Sua vida como mulher e estudante de Direito, contudo, sofre drasticamente com a volta do grupo extremista. A ida à universidade – que funciona precariamente – passa a ser um risco à sua vida.

A história dessas três figuras permitem que o leitor compreenda o momento atual do país a partir de seus últimos 50 anos e dos principais acontecimentos que envolveram os afegãos. Sofri com as dificuldades e falta de perspectivas de Ariana e Jamila, sobretudo por refletirem a realidade que vivem as mulheres no país.

A forma de construir a narrativa torna a leitura muito fácil e interessante, quase como se estivéssemos lendo um romance. Um livro real e, por enquanto, sem finais felizes. Fica no leitor a curiosidade pelos capítulos que ainda estão para acontecer.

E vocês ainda tem desconto na AMAZON com o cupom OSAFEGAOS20 (tem que ser o vendido pela Amazon)

Oração para desaparecer, de Socorro Acioli | Resenha

Oração para desaparecer, de Socorro Acioli

Nascida em Fortaleza, Ceará, Socorro Acioli saiu do nosso país para participar de um curso presencial com Gabriel García Márquez. Um privilégio para poucos e que foi fruto de muita dedicação da autora. E para nossa sorte, Socorro volta ao Brasil com narrativas que nos lembram o estilo do Gabo, mas sem perder sua voz única. Temos realismo mágico e uma incrível capacidade de nos contar histórias, junto com um cenário e um forte toque brasileiro.

Em seu último romance, publicado depois do sucesso “A cabeça do santo”, Socorro também parte de um fato real e extremamente curioso para escrever a sua obra. Uma igreja, situada em município cearense, ressurge após ficar 45 anos soterrada pela areia. Em “Oração para desaparecer”, a autora vai além e, logo no início, nos apresenta com uma personagem que nasce da terra, literalmente.

Ela não lembra o seu nome. Não tem memórias de seu passado. Apesar do sotaque nitidamente brasileiro, a mulher é encontrada – e precisa ser desenterrada – em uma pequena cidade de Portugal. Quem a resgata parece entender um pouco do que aconteceu com a mulher, mas os mistérios são revelados aos poucos. E logo a batizam de Cida.

E nesse ambiente de tantas redescobertas e dúvidas, a protagonista acaba encontrando uma paixão. É o medo de abrir mão de um passado desconhecido misturado com a vontade de criar uma nova história.

A leitura de Socorro é coringa e facilmente irá agradar o leitor: uma leitura fluida, personagens bem desenvolvidos, um bom mistério e o retrato dos sentimentos humanos.

Nota: Como considero a autora uma amiga, prefiro não dar nota.