Factótum, de Charles Bukowski | Resenha

Bukowski é conhecido por suas prosa polêmica e não é a toa que recebe o apelido de “velho safado”. Em seus romances, o leitor se deparar com personagens homens, machistas e mulherengos. Henry Chinaski é a sua principal criação e está presente em cinco de suas obras, incluindo Factótum. Nunca tinha lido nada do escritor norte-americano até agora.

Chinaski é um típico anti-herói. O personagem é um escritor que vive bebendo, em busca de mulheres e trocando de empregos – porque não para em nenhum. Em Factótum, o protagonista acaba de ser dispensado para combater na Segunda Guerra Mundial e, sem rumo, inicia uma perambulação sem muito propósito ou afeto a sua volta.

Chinaski não consegue atingir o sucesso no seu ofício com autor e, por isso, recorre as mais diversas funções para conseguir sobreviver (o que ele faz bem mal, diga-se de passagem). A displicência do personagem com suas mínimas responsabilidades e compromissos chegou até a me incomodar. É o extremo de quem não quer nada com a vida, a não ser beber e se relacionar com mulheres, sem se preocupar com o dia de amanhã.

A leitura é bem fácil e rápida, mas em alguns momentos senti que o enredo ficava um pouco repetitivo. Era Chinaski mudando de um trabalho para outro, de um quarto sujo para outro. É provável que essa tenha sido uma reação proposital que o autor queria causar no leitor!

A nova edição da @harpercollinsbrasil se destaca pela tradução, feita por Emanuela Siqueira, uma tradutora feminista (sim, isso mesmo), que contextualiza e traz um olhar crítico sobre as problemáticas existentes na obra de Bukowski, sem, no entanto, modificar o conteúdo. É a possibilidade de lermos autores e textos mais polêmicos, que refletem um pensamento de uma época, sem deixar de lado uma leitura atenta e consciente.

Uma autobiografia, de Rita Lee | Resenha

A experiência com a autobiografia de Rita Lee foi diferente: escutei no formato audiobook. E adorei! Acho que quando o assunto é audiobook, o que melhor funciona para mim são as biografias. Nesse caso, parecia que Rita Lee estava ao meu lado, contando suas histórias (ainda que a narração não fosse sua).

Ao terminar a leitura (apesar de ter escutado, vou manter a terminologia rotineira aqui), a sensação que fiquei sobre a vida da rainha do rock é coragem. Rita Lee foi corajosa em diferentes momentos da sua vida, não deixando que a opinião dos outros ou a moral da época em que cresceu atrapalhassem seus planos, e na própria escrita de sua autobiografia, ao contar suas histórias sem puder algum.

A artista – e também autora – percorre a sua história a partir de capítulos bem curtos, como se contasse pequenos acontecimentos enquanto fossem saindo do baú de suas memórias. Sua vida foi realmente digna de livro. Tanto isso é verdade que já temos duas autobiografias. E para quem é fã e conhece as suas músicas, a experiência fica ainda mais interessante, já que Rita Lee vai contando como muitas de suas letras foram criadas.

Apesar de esse estilo de capítulos curtos não ser dos meus favoritos, me diverti e me surpreendi muito. Muitas das histórias narradas são inimagináveis. Há muito dos bastidores da carreira de Rita, sua relação com as drogas, seu amor pelos animais, sua resistência política, o afeto que unia os membros de sua família, suas paixões…

A filha do capitão, de Aleksandr Púchkin | Resenha

Apesar de não tão conhecido no Brasil, como Dostoiévski e Tolstói, Púchkin é considerado o “fundador da literatura russa moderna”. Famoso pela sua poesia, o autor russo também escreveu romances, como é o caso de “A filha do capitão”, em que constrói sua narrativa no contexto de uma revolta camponesa ocorrida durante o Império Russo, em 1773.

Acompanhamos um jovem oficial que é transferido para um lugar isolado, em uma fortaleza no interior do país. Desesperançoso com o seu futuro naquele local, Piotr Ginióv estabelece amizades e cria um forte laço com uma jovem – a filha do capitão, que dá nome ao livro. Em paralelo, as notícias do avanço de rebeldes, liderados por alguém que se faz passar pelo Czar Pedro III, ameaça a calmaria da fortaleza.

Gostei mais da primeira parte da obra, em que o autor desenvolve os acontecimentos com uma melhor descrição daquele ambiente dos confins da Rússia. Com o decorrer dos últimos capítulos, a sensação que fiquei é que a história estava sendo finalizada com uma certa pressa.

O enredo e a escrita são simples (o mais difícil são os nomes dos personagens, rsrs). Isso pode ser explicado pelo fato de o gênero romance histórico ser algo incipiente para a época em que foi escrito. Ou seja, ao escrevê-lo, Púchkin já mostrava um lado experimental de seu trabalho. Inclusive, vale dizer que o autor fez uma profunda pesquisa histórica sobre os acontecimentos para conseguir construir sua obra.

PS: Tem conteúdo complementar muito legal no meu canal do YouTube com dois super especialistas em Púchkin e literatura russa.

Longa pétala de mar, de Isabel Allende | Resenha

Eu gosto muito do estilo característico de Isabel Allende: romances envolventes, com personagens bem construídos e um contexto histórico fruto de uma consistente pesquisa da autora. Em “Longa pétala de mar”, o cenário inicial é a Espanha, durante a guerra civil que marcou o país.

O personagem principal é Victor Dalmau, um estudante de medicina que ainda muito jovem é convocado a servir durante a guerra. Eu gosto muito de temática médica na literatura, então adorei essa parte. Sua amiga, a pianista Roser, também vai ganhando importância no decorrer das páginas.

Mas a narrativa não se limita aos acontecimentos da Espanha. Isso porque a guerra civil provocou uma forte onda de exílio. Dentre os afetados, Victor e Roser ingressam em um navio e atravessam o oceano atlântico para iniciar uma nova vida em um território por eles desconhecido: o Chile. O trajeto de navio também é um ponto importante do livro. A travessia no Winnipeg tem relação direta com um famoso personagem da obra: Pablo Neruda.

São muitos refugiados que chegam no continente. E a partir disso o enredo também passa a abordar a História do país latino-americano e sua ditadura – um tema recorrente nas obras de Allende. Acompanhamos décadas de acontecimentos durante o século XX.

Adorei a leitura, desde o mergulho na Guerra Civil Espanhola, até os anos dos refugiados em um novo país. O choque cultural e a necessidade de construir uma vida social do zero. A escrita de Allende é fluida e, sem dúvidas, consegue prender o leitor. Romance histórico dos bons!

Água fresca para as flores, de Valérie Perrin | Resenha

Esse foi um dos livros que virou prioridade de leitura de tantas recomendações que passei a receber de vocês! Depois de fazer muito sucesso ma Europa, o livro chegou no Brasil e conquistou muitos leitores. A premissa me deixou ainda mais interessado com a obra da autora francesa: mergulhar na história um pouco enigmática de uma zeladora de cemitério.

Comecei e logo fui fisgado pela vida de Violette. Chegando aos seus 50 anos, a zeladora começa a, aos poucos, relembrar o seu passado, como se fosse nos dando pistas dos capítulos de sua história que a levaram até aquele estilo de vida peculiar. A infância como órfã e um relacionamento conturbado parecem explicar um pouco das dificuldades de uma vida sofrida. Mas a impressão que fica no leitor é que há algo mais visceral, que demora a nos ser contado.

Em paralelo, Violette é supreendida pela visita de um policial no cemitério. Sem dar muitas explicações, ele insiste em deixar as cinzas da mãe sobre um túmulo desconhecido. Como faz com todos que aparecem em sua casa, a zeladora recebe o policial e o acolhe, dando espaço para ele compartilhar a sua história e suas angústias.

A partir desse momento, a leitura acaba mudando um pouco de estilo, passando de uma narrativa mais sobre as memórias de Violette para uma história de suspense, em que o leitor é convidado a tentar descobrir mais do que haveria acontecido com a vida da zeladora e do policial. Para mim, o ritmo diminuiu e, ao final, senti que a leitura estava ficando mais arrastada. Ou seja, comecei gostando muito e terminei gostando menos do que esperava!

Mas ainda assim, tem muito leitor que se encantou com a obra e a experiência foi bem interessante. Também tem muitas reflexões ao longo da leitura que nos fazem sair marcando… Se a sinopse te interesse, vai com tudo!

O Alienista, de Machado de Assis | Resenh

Publicada pela primeira vez em 1882, uma das principais obras de Machado de Assis surpreende pelo caráter atual dos temas nela tratados. Somos colocados diante da linha tênue que separa loucura e lucidez, onde uma epidemia de pessoas consideradas como impróprias para um convívio social saudável. E o abuso de quem tem o poder de decidir e separar aqueles que são considerados como sãos dos demais, sujeitos à segregação.

Na novela criada por Machado, essa autoridade é exercida por um médico, Dr. Simão Bacamarte, que tem uma formação e uma origem tidas como invejáveis e se interessa muito pela mente humana. Em seus estudos sobre a razão, pretende internar aqueles considerados como vítimas da loucura em um manicômio, a Casa Verde. Com a anuência do poder público, o protagonista inicia a sua jornada. No entanto, o que começa com intenções aparentemente razoáveis, passa a apresentar traços de uma obsessão.

Utilizando a ciência como justificativa para suas atitudes agressivas, o Dr. Bacamarte vai contra todos no seu objetivo de eliminar a loucura. Aos poucos, a pequena cidade que serve de palco para a narrativa começa a perceber que ninguém está a salvo do poder daquele médico. E a dúvida passa a atormentar a cabeça de todos: quem realmente são os loucos, e quem ainda é são? Seria possível fazer essa distinção?

E para coroar uma história com um tema tão interessante e atual, ainda temos a escrita impressionante de Machado de Assis. Em “O alienista”, o autor usa a sua tremenda habilidade com a língua portuguesa misturada a um intenso toque de humor e sarcasmo. O Bruxo do Cosme Velho é realmente genial!

PS: essa edição da @antofagica é maravilhosa, com ilustrações de Candido Portinari e textos de apoio!

O coração é um caçador solitário, Carson McCullers | Resenha

368 páginas. 2 meses de leitura. Parece muito tempo, né? E realmente foi um livro que me tomou mais dias do que o normal. E isso não significa que eu não gostei da leitura. Pelo contrário, foi uma experiência muito positiva. E isso é bom para pensarmos o quanto a preocupação em ler rápido pode atrapalhar uma leitura. Eu sempre falo: cada livro tem um ritmo, a depender do leitor.

Carson McCullers escreveu com apenas 23 anos um dos principais romances da literatura norte-americana do século passado. É incrível como a autora, ainda tão jovem, conseguiu construir personagens tão profundos e distintos entre si. Ao longo da leitura, acompanhamos a perspectiva de 5 personagens diferentes, em um cenário pobre e racista no sul dos Estados Unidos às vésperas da 2ª Guerra Mundial.

É até difícil escrever sobre a narrativa, já que não é um enredo com tantos acontecimentos. É mais uma observação da vida desses personagens tão distintos, que têm em comum uma relação com Singer, um homem mudo e que, apesar da ausência de seus diálogos, consegue nos transmitir uma humanidade imensa. Ele vive solitário e acaba, de uma forma muito simples, tocando a vida daqueles à sua volta. Fiquei com a sensação de estar diante de um personagem muito puro.

Ainda temos Mick, uma garota que vive uma vida de pequenas aventuras e que vivência situações que exigem uma maturidade maior daquela esperada para a sua idade. Brannon é dono de um bar e tem uma relação conturbada com sua esposa. Benedict é um médico negro que atende os pacientes por caridade e possui relações familiares complexas. Por fim, temos Jake Blount, um personagem com ideologias mais extremas.

Gostei bastante da leitura. Como disse, ela exige paciência, não há grandes acontecimentos, mas o mergulho na pequena cidade e nas relações entre personagens tão profundos me prendeu. O destaque fica para o personagem Singer e as reflexões sobre a natureza humana que suas atitudes despertam.