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Dias de abandono, Elena Ferrante | Resenha

Elena Ferrante é uma das autoras mais vendidas atualmente e é conhecida pelos seus romances que cativam e prendem o leitor. Não comecei por sua obra mais famosa, a Tetralogia Napolitana (série com 4 livros), porque queria uma obra que estivesse menos no “hype”! A escolha de “Dias de abandono” também foi influenciada por outra obra que li esse ano: “Laços”, de Domenico Starnone (já tem resenha aqui). Isso porque há um inegável diálogo entre os dois livros. Na verdade, como Elena Ferrante é um pseudônimo e sua identidade verdadeira nunca foi confirmada, há suspeitas de que a autora seja esposa de Starnone ou, até mesmo, o próprio autor de “Laços”.

Independente disso, fato é que o meu primeiro contato com a autora italiana começou muito bem, mas não terminou da forma que esperava. O enredo gira em torno de Olga, uma mulher que depois de 15 anos casada com Mario, recebe a notícia de que está sendo abandonada. Olga perde o chão. A partir daí têm início os seus dias de abandono, ou melhor, de sofrimento, em um apartamento onde vive com seus dois filhos e um cão. Com uma narrativa em primeira pessoa, o leitor passa a acompanhar os pensamentos de Olga, que a paralisam e são encobertos pelo desespero, medo e angústia. Sim, é um livro perturbador (!!) e, no começo, a personagem de Olga descrita e desenvolvida como alguém que perde o suporte emocional é extremamente interessante. É o retrato da dificuldade de aceitação de uma perda, misturada com o sentimento de tentar se reconstruir e conviver com essa nova realidade. Em algumas passagens, tive a sensação de que a personagem estava delirando e que os seus pensamentos não condiziam com a realidade.

Apesar da inegável qualidade de escrita da autora, que se vale de uma linguagem fluída, crua e econômica, ao final da leitura senti que Ferrante se perdeu um pouco e passou a recorrer a lugares-comuns, terminando com uma personagem exagerada e de certa forma previsível. É um livro curto, mas que traz várias reflexões sobre relações humanas e sofrimento.

Trecho: “Tornara-me uma esposa obsoleta, um corpo negligenciado, minha doença é só a vida feminina que ficou fora de uso.”
Editora: Biblioteca Azul
Ano de publicação: 2016
Número de páginas: 184
Link de compra: https://amzn.to/2yNLId5

 

A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana Aleksiévitch | Resenha

Vencedora do Prêmio Nobel de literatura de 2015, Svetlana expõe nesta obra uma visão completamente esquecida da guerra: o sofrimento vivido pelas milhares de mulheres que já lutaram pelo seu país. É inegável que os livros e filmes retratam a guerra como um evento masculino, deixando para a mulher um papel secundário, de quem fica em casa aguardando o retorno – ou não! – dos homens da família. Mas Svetlana quebra esse silêncio e, por meio de diversas entrevistas com mulheres soviéticas que lutaram na 2 Guerra Mundial, traz para o público essa tão necessária versão da guerra.
São, em sua maioria, histórias de jovens que tinham vontade de defender e ser útil ao seu país. Entraram com uma imagem idealizada da guerra, mas saíram – se saíam – com marcas profundas e eternas, não só no corpo, mas nas memórias que não podem ser apagadas. Os relatos mostram as mais diversas dificuldades enfrentadas por essas mulheres que, independente do papel que desempenharam na guerra, deixaram suas famílias e cidades e foram para o campo de batalha. E o chocante é que os problemas não foram vivenciados apenas no período da guerra, como o machismo no ambiente do exército, a ausência de estrutura e equipamentos próprios para uma soldada mulher, a intensa presença da morte e a perda da própria feminilidade. Na verdade, o sofrimento foi agravado quando, apesar de vitoriosas ao final da guerra, encontraram uma sociedade repleta de preconceitos.
“Quem iria se casar com uma dessas mulheres? O que elas faziam no meio de tantos homens no campo de batalhas?” Essa mentalidade passou a ser o novo inimigo dessas corajosas mulheres.
Ou seja, a obra de Svetlana é uma leitura essencial e perturbadora, com a inegável capacidade de mudar a visão do leitor sobre a guerra. Não há como terminar a leitura sem se solidarizar por esses relatos que por tanto tempo foram reprimidos.
Uma dica: recomendo que essa leitura seja feita aos poucos e em paralelo com algum romance mais linear. Isso porque o livro traz um grande número de relatos, todos com uma mesma temática e que, ao final, podem cansar o leitor.

Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2016
Número de páginas: 392
Link de compra: https://amzn.to/2OMNQfp

#DesafioBookster2018 – Outubro

Mês: Outubro – Livro publicado na década de 1990 – “Trilogia suja de Havana”, Pedro Juan Gutiérrez (1998)
Para quem ainda não conhece, criei Desafio Book.ster 2018 com o objetivo de, incentivar a leitura de obras clássicas publicadas no século XX, seguindo uma ordem cronológica. A ideia é simples: 12 livros, 12 décadas. Por exemplo, em janeiro lemos um livro publicado entre 1900 e 1909, em fevereiro da década de 1910… e por aí vai!
Se você não começou, ainda dá tempo de participar: é só escolher um livro para esse mês e que tenha sido publicado na década de 90.
Alguns dias antes de começar cada mês, posto para vocês o livro escolhido, assim como algumas sugestões de obras publicadas na mesma década!

O escolhido dessa vez foi um clássico da literatura latino americana. Gutiérrez é considerado um dos principais autores cubanos e meu primeiro contato com a sua obra foi no ano passado, quando li o incrível “O rei de Havana”. Tem resenha aqui já (não deixe de ler)! Gostei tanto do livro que no final do ano fiz um post e classifiquei o livro como um dos 5 melhores lidos em 2017. E o mais legal é que não conhecia o autor, que foi indicação por acaso de um vendedor em uma livraria. Depois dessa grande surpresa, fiquei com muita vontade de ler mais de sua produção literário e, por isso, logo inclui a sua obra mais famosa no Desafio de 2018.
Em “Trilogia suja de Havana”, o autor traz o cotidiano de Cuba em meio à crise econômica vivida nos anos 90, abordando temas como a fome, sexo, pobreza, álcool e drogas. A escrita do autor é extremamente explícita, direta e, como senti lendo o “O rei de Havana”, flui muito bem! .

Além do escolhido, indico os seguintes livros publicados na década de 1990: “O evangelho segundo Jesus Cristo”, José Saramago (1991); “O mundo de Sofia”, Jostein Gaarder (1991); “Rota 66”, Caco Barcellos (1992); “Harry Potter e a pedra filosofal”, J. K. Rowling (1997); e “Os detetives selvagens”, Roberto Bolaño (1998) .

E você, já escolheu sua leitura de outubro? .

Crônica de uma morte anunciada, Gabriel García Márquez | Resenha

Como conseguir prender a atenção do leitor quando você já conta o final da história logo na primeira frase? É com essa habilidade que Gabriel García Márquez, ou Gabo para os mais íntimos, constrói “Crônica de uma morte anunciada”. O destino infeliz de Santiago Nasar, protagonista da obra e vítima de um crime, é revelado desde o momento inicial da leitura.
Depois de anos do evento, o narrador personagem, amigo de Santiago, passa a investigar como foi o último dia do protagonista. Ele conversa com as pessoas que se encontraram com Santiago no dia de seu assassinato para tentar refazer os seus passos e compreender as circunstâncias de sua morte.
Nesses relatos, o leitor vai percebendo que o destino de Santiago era sabido por todos que estavam a sua volta, mas que nada fizeram para tentar evitá-lo. Esse cenário desperta uma sensação de revolta e impotência no leitor, que não consegue acreditar na omissão e negligência dos demais habitantes dessa pacata cidade. E nas entrelinhas da obra, o autor faz uma crítica implícita a uma sociedade marcado por pessoas que fingem não ver os problemas que passam em sua frente, como se eles não fossem de “sua conta”. Também é muito interessante perceber como são diferentes as versões contadas por cada um e como esses personagens tentam utilizam essa conversa com o relator para justificar – ou tentar aliviar – a sua atitude omissa com o crime. Essa gama de versões ainda contribui para que o leitor possa construir uma visão mais completa do ocorrido, criando a sensação de que está se deparando uma história real.
Com menos de 200 páginas, a obra traz uma escrita rápida e muito cativante… um livro que provavelmente será lido em pouquíssimos dias! Acho que é uma ótima opção para quem quer conhecer a obra de Gabo, sem ir direto para os incríveis – e densos – “Cem anos de solidão” e “O amor nos tempos do cólera”. Mais uma excelente leitura concluída para o #desafiobookster2018!
Editora: Record
Ano de publicação: 1981
Número de páginas: 160
Link de compra: https://amzn.to/2Ri4Mcc
Trecho: “No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo.

Contos de assombro

Eu confesso que não sou um leitor tão aficionado pelo gênero do terror e da literatura fantástica. Não é que não gosto, mas não costuma ser a minha primeira escolha…

Quando vi a proposta da @carambaia com a publicação do “Contos de assombro”, fiquei muito animado para ler! O que mais me interessou foi a ideia de trazer contos não só de autores conhecidos pelo gênero, como Edgar Allan Poe, mas também de autores clássicos cuja produção literária está ligada a outras temáticas: Virgina Woolf, Turguêniev, Pirandello, entre outros.Além disso, diferente do que o título pode dar a entender, os contos não versam somente sobre histórias de terror e suspense típicas, mas foram escolhidos com base em um conceito mais amplo de assombro. São obras que envolvem a reação do ser humano frente a situações sobrenaturais ou de uma realidade conturbada. O período em que os contos foram escritos também serviu como parâmetro para a edição, já que todos os trabalhos foram publicados entre o início do século XIX e primeiras décadas do século XX. Todo o processo de escolha dos 18 contos (e 1 ensaio) está descrito no posfácio de Alcebíades Diniz, especialista em teoria e história literária.
Ah, importante falar que resenhar uma coletânea não é fácil, já que é comum que o leitor se identifique mais com alguns textos. Por isso, busco sempre dar uma nota com base em critérios mais amplos, considerando a escolha dos contos, a temática, a edição e também uma opinião geral sobre a minha experiencia com as histórias. Nessa obra, consigo mencionar três contos que chamaram mais minha atenção: “O sopro”, Luigi Pirandello; “Janet, a troncha”, Robert Louis Stevenson; e “Pavor”, João do Rio.
Por fim, não dá para deixar de mencionar a qualidade das edições da @carambaia . Os preços são mais salgados sim, mas não são apenas edições “de luxo”. Há uma preocupação com a qualidade das traduções e com a inclusão textos de apoio para enriquecer ainda mais a leitura!

Editora: Carambaia
Ano de publicação: 2018
Número de páginas: 224
Link de compra: https://amzn.to/2P1x4WB
Trecho: “Mas, se admitíssemos a possibilidade do sobrenatural, a possibilidade de sua interferência na vida real, caberia, então, perguntar que papel desempenharia, depois disso, o bom senso (…).

Abandonar ou não um livro?

E ai, você abandona um livro quando não está gostando? Para mim, a resposta é muito fácil. Mas sinto que há um receio geral de abandonar um livro de forma consciente. E digo consciente, porque não estou falando de deixar aos poucos uma leitura de lado, o que acontece principalmente quando você não tem o hábito da leitura. Esse post é sobre tomar a decisão de simplesmente não continuar um livro, colocá-lo na estante com o marcador no meio, e partir para o próximo.

Tem quem não consiga desistir de uma obra, como se isso significasse que não conseguiu ler o livro ou como se a leitura fosse melhorar a qualquer momento.
Eu já superei essa sensação de “culpa” por abandonar uma livro. Na verdade, tem TANTA coisa boa que eu quero ler, que a culpa é justamente por ficar perdendo tempo com uma obra que não está me agradando. E não estou dizendo para você sempre abandonar uma leitura depois de algumas páginas mais paradas! Acho que um livro pode ter momentos melhores e piores, então para poder tomar essa escolha você tem que dar uma ou duas chances antes! Eu costumo colocar um critério objetivo de ler ao menos 100 páginas do livro. Na minha opinião, a partir desse ponto você já consegue ter uma ideia melhor da proposta do autor.

Antes de abandonar, também costumo procurar na internet comentários de outras pessoas sobre a obra. É bem provável que alguém tenha tido a mesma opinião que você e, assim, pode confirmar se esse “problema” melhora ao longo do livro.
Ah, e acho que um dos aspectos mais interessantes da leitura é justamente como cada livro vai despertar uma sensação diferente em cada leitor. Por isso, não sinta culpa se você quer abandonar um livro que todo mundo amou ou vice-versa. A experiência com a obra é muito pessoal.

Atualmente acabo abandonando cada vez menos livros. A resposta é simples: a escolha da próxima leitura é mais criteriosa, então as chances de “dar errado” são menores (mas existem)!

Os últimos livros que abandonei foram “120 dias de sodomia”, Marquês de Sade; “Caixa-preta”, Amós Oz; e “O pintassilgo”, Donna Tart (tem um post com resenha de cada, explicando minha experiência)!
E vocês, já abandonaram um livro? Qual?

Pais e filhos, Ivan Turgueniev | Resenha

Russos: cada nova leitura, uma surpresa boa! Não foi diferente com Turgueniev. “Pais e filhos” está na minha lista de livros favoritos! A leitura fluiu muito bem para mim e achei a temática muito interessante! O livro traz a história do jovem Arkádi Nikolaitch que, depois de um tempo estudando na cidade, decide voltar ao interior, para a propriedade em que seu pai e seu tio vivem. Nessa visita, Arkádi leva um amigo, Bazárov, que na minha opinião é um dos personagens mais marcantes da obra. A partir desse encontro, Turguêniev retrata um verdadeiro choque entre gerações e ideologias distintas. Enquanto o pai e tio de Arkádi representam os valores de uma geração conservadora, pautada em uma moral aristocrática militar, em que a servidão era defendida, Bazárov é a alegoria de “revolta” contra o pensamento tradicional. É, inclusive, nessa obra que surge de forma mais direta o termo niilismo, movimento que nega qualquer tipo de instituição e autoridade. Bazárov é um personagem que desperta sentimentos conflitantes no leitor, pois acaba sendo exagerado na defesa de seus ideais e, ao mesmo tempo que se intitula um niilista, não se incomoda de viver em condições aristocráticas.

Também vale mencionar que esse contraste de gerações é construído com diálogos extremamente inteligentes e sarcásticos, e retrata características da sociedade e da época em que foi escrito (década de 1860).
Achei interessante o fato de o autor tecer críticas, diluídas ao longo do texto, aos pensamentos de ambas as gerações. Ou seja, o próprio leitor não consegue tirar uma conclusão do que Turguêniev entendia como correto. Isso rendeu ao autor críticas tanto por parte de conservadores, como dos que defendiam o rompimento com os pensamentos tradicionais.
Por fim, a escrita de Turgeniêv não é complexa ou densa, mas econômica, com um ótimo toque de ironia e humor (principalmente nas falas de Bazárov). Ele foi o primeiro autor moderno russo a publicar as suas obras e ficar conhecido no ocidente.

Ah, essa edição é da finada Cosac Naify e está esgotada (editoras, repliquem esse livro!!!)! Mas já me falaram que é possível encontrar na internet uma versão digital.
Editora: Cosac & Naify
Ano de publicação: 1982
Número de páginas: 352
Link de compra: https://amzn.to/2QBvJXL