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#DesafioBookster2018 – Setembro

Mês: Setembro – Categoria: Livro publicado na década de 1980 –  “Crônica de uma morte anunciada”, Gabriel García Márquez (1981)
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Para quem ainda não conhece, o Desafio Book.ster 2018 foi criado com o objetivo de, seguindo uma ordem temporal, incentivar a leitura de obras clássicas publicadas no século XX. A ideia é simples: 12 livros, 12 décadas. Por exemplo, em janeiro lemos um livro publicado entre 1900 e 1909. E por aí vai… Se você ainda não começou, ainda dá tempo de participar, é só escolher um livro para esse mês e que tenha sido publicado na década de 80…
Alguns dias antes de começar cada mês, posto para vocês o livro escolhido, assim como algumas sugestões para de obras publicadas na mesma década!
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Gabriel García Márquez, autor colombiano e vencedor do Prêmio Nobel da Literatura em 1982, é o mestre do realismo fantástico e um dos meus autores favoritos! Já li suas duas obras mais famosas – e talvez mais densas: “Cem anos de solidão” e  “O amor nos tempos de cólera”. Mas a produção de Gabo é muito extensa e ainda tem muitos livros dele na minha lista de desejados. “A crônica de uma morte anunciada” é um livro curto e que tem como ponto central o assassinato do jovem Santiago Nassar. Desde a primeira frase do livro, o leitor já sabe o destino de Santiago. E, assim como o leitor, todos que vivem ao redor de Santiago sabem de sua morte, mas aparentemente ninguém faz nada para evitá-la. Passados 30 anos do ocorrido e com uma escrita em tom jornalístico, o narrador pretende investigar os detalhes desse crime.

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“No dia em que o matariam, Santiago Nassar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo.”

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Além do escolhido, indico os seguintes livros publicados na década de 1980:

“A pedra do reino”, Ariano Suassuna (1970); “A casa dos espíritos”, Isabel Allende (1982); “O nome da rosa”, Umberto Eco (1980); “O centauro no jardim”, Moacyr Scliar (1980); “A lista de Schindler” (1982); “A cor púrpura”, Alice Walker (1982); “O livro do desassossego”, Fernando Pessoa (1982); e “A trilogia de Nova York”, Paul Auster (1987).
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E você, já escolheu sua leitura de setembro?
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#bookster

A hora da estrela, Clarice Lispector

“A hora da estrela” foi um daqueles livros que comecei a ler com uma expectativa alta – o que costuma ser arriscado – e que, ao final, se superou. É, antes de mais nada, uma obra que transborda humanidade. O enredo é simples: Macabéa é uma jovem nascida em Alagoas, órfã, pobre e que se muda para a cidade grande para trabalhar como datilógrafa. Logo no início, Rodrigo SM, o narrador e alter-ego da própria Clarice, já afirma não “ser complexo o que escreverei”. Mas apesar de uma história simples, a autora constrói uma riquíssima, cheia de reflexões.
Já a personagem é mesmo simples, não só no sentido material, por ser pobre, mas também como ser humano. Macabéa é pura, ingênua, sem grandes ambições. Macabéa almeja apenas ser feliz, ainda que não saiba muito bem em que consista a felicidade. E é por meio dessa obra que Clarice – ou melhor, Rodrigo SM – dá voz ao cidadão “comum”. Dá o direito ao grito às “milhares de moças espalhadas pelos crotiçoes, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa”. A escrita de Clarice é muito impactante, sendo, na minha opinião, uma das características responsáveis por elevar essa obra à categoria dos grandes clássicos da literatura nacional – e, até mesmo, mundial. É uma obra carregada de metalinguagem, isto é, o narrador se vale do próprio livro para explicar e refletir com o leitor sobre a tarefa de escrever uma história. Com esse método, Clarice consegue aproximar o leitor da narrativa e, por consequência, da vida de Macabéa. No início, a extrema ingenuidade da personagem pode despertar um certo incomodo em quem lê a obra. Mas essa sensação é logo substituída por uma compaixão, criando um forte laço entre o leitor e Macabéa. Na minha opinião, é uma leitura obrigatória!
Também recomendo muito essa edição que comprei da @editorarocco, com reproduções do manuscrito original e textos de apoio que enriquecem ainda mais a leitura.
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“O que escrevo é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. E dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida. Porque há o direito ao grito. Então eu grito.” #bookster

A insustentável leveza do ser, Milan Kundera

Escrever sobre um clássico da literatura como “A insustentável leveza do ser” não é nada fácil! E isso se dá, principalmente, pelo fato de a obra de Kundera ir muito além de uma simples história sobre dois casais, amor e traição. E isso já é facilmente percebido pelo leitor que, logo no início do livro, se depara com diversas reflexões. E é isso mesmo: se valendo do papel de um narrador ativo, Kundera vai preenchendo o enredo com questionamentos filosóficos e reflexões sobre o ser humano e seus relacionamento. E como pano de fundo para essa obra, Kundera apresenta a vida de quatro personagens, Tomas, Tereza, Sabina e Franz, na Praga, ocupada pelos soviéticos, da década de 60. São dois casais que vivenciam conflitos constantes entre sexo e amor e que têm como ponto em comum a busca pelo sucesso em suas relações afetivas. No entanto, o que é esse sucesso? Aí que está a genialidade do autor, que mostra como cada indivíduo, com suas próprias angústias e anseios, possui diferentes formas de enxergar a leveza (e o peso) do ser. E é essa oposição peso e leveza que influencia de forma distinta as escolhas dos personagens e como cada um deles vai reagir aos acontecimentos de sua vida. Também me chamou a atenção a capacidade que o autor tem de entrelaçar os aspectos históricos da República Tcheca com a vida dos personagens, dando uma forte sensação de perda de identidade de um povo.
Um livro profundo e reflexivo, daqueles que fica inteirinho marcado ao final e que ainda vai precisar de novas leituras…Ah, recomendo muita atenção na leitura, já que, apesar de usar uma escrita simples, a narrativa construída por Kundera não é linear, com um intenso vai e volta. Leitura recomendadíssima!
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. “Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é.
Em compensação, ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semirreal, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.
O que escolher, então? O peso ou a leveza?”.

Ritmo de leitura

Uma das principais dicas que costumo dar para alguém que quer melhorar o ritmo de leitura é ler mais de um livro ao mesmo tempo. Isso porque, ao alternar leituras, você dificilmente vai cansar ou emperrar em alguma obra – e, assim, a chance de você abandonar um livro diminui. Esse método também incentiva o leitor a sair um pouco da “zona de conforto” e se aventurar em gêneros que não costuma ler, já que o ideal é escolher obras bem diferentes. O problema é que sempre que dou essa dica, recebo várias mensagens de pessoas falando que é muito difícil e que não conseguiriam (mesmo sem ter tentado). Mas isso não é verdade! Pode até parecer complicado no começo, mas basta seguir as dicas aqui embaixo que não tem erro!
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1º: escolha livros de gêneros diferentes! Não recomendo que você escolha dois romances históricos, por exemplo. Tente combinar um livro em que não há um enredo a ser seguido por um longo tempo (como no caso de biografias, contos, poesia…), com um livro mais denso, tipo um clássico ou romance contemporâneo. Além disso, é importante que as obras tenham temáticas diferentes. Se você escolher uma biografia de Stálin e ler um romance ambientado nessa época, as chances de criar alguma confusão são grandes.
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2º: não há uma regra para como alternar as leituras. Você decide se em um dia você vai ler os dois livros ou se prefere ler um dia um pouco de um livro e no dia seguinte um pouco do outro. O segredo é não deixar uma das obras de lado! Ainda que você esteja gostando mais de alguma delas, tente manter o ritmo das duas leituras, lendo ao menos algumas páginas do livro “menos preferido”. Para evitar o abandono de um dos livros, você também pode se organizar para apenas começar uma nova leitura quando as duas anteriores tiverem encerrado (faço assim)!
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3º: mesmo que no começo você sinta um pouco de dificuldade, você vai se acostumar rápido e, com o tempo, não vai mais querer largar essa “técnica”. Ah, e aos poucos, você pode adicionar uma terceira ou quarta leitura (só não vai querer começar 6 livros de uma vez, porque as chances de não terminar nenhum são altas)! .
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E vocês, também gostam de ler mais de um livro ao mesmo tempo? #bookster

O mestre e Margarida, Mikhail Bulgákov

Já inicio essa resenha com a certeza de que “O mestre e Margarida” entrou para a lista dos preferidos! E o engraçado é que eu tinha um certo receio de ler esse livro, pois já tinha ouvido falar que se tratava de uma “leitura difícil”! Mas essa experiência serve para confirmar o que venho tentando mostrar aqui para vocês: vamos perder o medo de ler grandes clássicos…
Bom, chega de introdução e vamos ao que interessa. A obra de Bulgákov narra a visita do diabo – sim, em pessoa – à Moscou soviética da década de 30. E o diabo, conhecido como professor Woland, não vem sozinho, mas acompanhado de um séquito pouco convencional: um gato preto com traços humanos (um dos melhores personagens), um demônio brincalhão, uma feiticeira nua e um assistente caricato.
A partir dessa visita, vários acontecimentos estranhos começam a se espalhar por Moscou. Prof. Woland se diverte com os cidadãos, mostrando – em nítida crítica ao regime de Stálin – como ideais tidos como verdades e amplamente disseminados são, em grande maioria, pura invenção e facilmente desconstruídos. Mas não espere encontrar uma crítica profunda ao regime comunista ou uma análise da época. Na verdade, o autor consegue apresentar essas críticas nas entrelinhas de um obra de literatura fantástica, carregada de humor e ironia.

Além dessa visita à Moscou, a narrativa vai alternando com a Jerusalém dos anos 30 D.C., época da crucificação de Jesus. Embora não pareça fazer sentido uma narrativa que misture duas épocas tão diferentes, Bulgákov consegue fazer desse paralelo mais uma das grandes sacadas de seu livro.
Escrito em cerca de 11 anos, “O mestre e Margarida” é, na minha opinião, uma obra completa! Traz uma história extremamente cativante, com personagens fortes, crítica social e escrita digna de elogios. É um livro de certa forma “estranho”, sim, então leia com calma e aproveite a genialidade do autor. A título de curiosidade, a obra foi alvo de muita censura e só foi integralmente publicada após 20 anos da morte de Bulgákov.
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Dica: recomendo ler nessa edição nova da Editora 34, pois a tradução parece estar bem mais acessível! #bookster

Desonra, J. M. Coetzee

Vencedor do Man Booker Prize, Desonra narra a história de David Lurie, um professor universitário cinquentão e divorciado. O protagonista tem dificuldades em se envolver afetivamente e sua relação mais profunda é com uma prostituta. No entanto, após iniciar um romance com uma de suas alunas, é acusado de estupro e expulso da universidade em que dá aula. Diante disso, resplve passar um tempo na casa de sua filha, Lucy, na África do Sul pós-apartheid.
Lá, Lurie entra em contato com um país ressentido e ainda sofrendo pelos conflitos raciais. É uma completa mudança de cenário: da grande cidade para o campo em um país ainda em desenvolvimento. E também uma mudança do cenário mais interior: do individual para o coletivo. O que aparenta ser um romance sobre uma relação perturbada entre um homem mais velho e uma jovem, se mostra, na verdade, uma análise de uma sociedade brutalizada e oprimida.
Apesar de Coetzee criar uma narrativa com personagens comuns, aborda inúmeros temas sensíveis e polêmicos, como abuso sexual, racismo, violência, submissão, maus-tratos contra animais… A escrita é econômica, o autor não se vale de descrições minuciosas ou frases longas.
Com um final perturbador, “Desonra” é um livro real, seco, com cenas fortes e que prende muito o leitor! .
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“A história percorre o distrito como uma mancha. Não é a história dela que se espalha, mas a deles: eles são os donos. Como eles a puseram em seu lugar, como lhe mostraram para que ser e uma mulher.”
#bookster #jmcoetzee #desonra#bookstagram

Homens imprudentemente poéticos, Valter Hugo Mãe

Mais uma obra prima de um dos meus autores contemporâneos j (se não, o favorito de todos). Em “Homens imprudentemente poéticos”, o autor constrói sua narrativa a partir de um cenário do Japão antigo, campesino e artesão.A narrativa gira em orno de dois homens extremamente simples, Itaro e Saburo, um artesão e um oleiro. Enquanto Itaro não acredita e não se deixa enganar pelo amor, vivendo apenas de seu ofício de artesão, Saburo se recusa a deixar de amar a sua falecida esposa. O enredo pode aparentar ser simples, mas é extremamente profundo e desperta reflexões no leitor.

A morte também rodeia a história. O vilarejo em que vivem Itaro e Saburo fica ao pé da Floresta dos Suicidas, local em que as pessoas buscam um refúgio para acabar com o próprio sofrimento.

O que torna “Homens imprudentemente poéticos” uma obra ainda mais sensacional é a forma que Valter Hugo Mãe escreve. É realmente IMPRESSIONANTE…. Cada palavra é pensada e traz consigo um forte tom poético!

Mas se você nunca leu nada do autor, não recomendaria começar por esse título. Isso porque a história é mais parada e muito reflexiva, o que pode deixar o leitor que não está acostumado com o estilo de Valter Hugo Mãe um pouco cansado, com dificuldades de avançar na leitura. Para começar, sugiro “O filho de mil homens” ou “A máquina de fazer espanhóis”. Apesar de nessas duas obras a escrita ser diferente, já que o autor não utiliza letras maiúsculas, nem interrogações ou travessão, você se acostuma depois das primeiras páginas e o enredo flui bem mais!
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“A menina, habitante sobretudo dos sonhos, disse: havíamos de ter um jardim seco. Um de pedras que fizesse o ondulado do mar. Tão bem alinhado que fosse um desenho perfeito por onde poderíamos percorrer os dedos. A criada perguntou: seco. A cega respondeu: teríamos sempre lágrimas para o molhar. E sorriu.” #bookster #livrada #leituradodia#leituradavez #literatura #ler #book#books #lido #livro #livros #literatura#amoler #valterhugomae #bibliotecaazul#bibliotecaazuleditora#homensimprudentementepoeticos

 

 

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