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Terra Sonâmbula, de Mia Couto | Resenha

Publicado em 1992, no mesmo ano em que teve fim a guerra civil moçambicana, o primeiro romance de Mia Couto é o relato da busca pela identidade de uma nação assolada pela guerra. Considerada uma das melhores obras da literatura africana do século XX, o cenário da narrativa é a terra árida e destruída, povoada por indivíduos sem memória ou perspectiva de vida. Com uma escrita extremamente poética e onírica, o autor consegue transmitir ao leitor a sensação de caos e abandono vivenciada por cada um dos personagens por ele construído. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A história tem início com as andanças – sem destino – de Muidinga, um jovem que esqueceu seu passado, e Tuahir, um velho sábio. Tentando fugir da guerra, os dois personagens se deparam com um ônibus queimado, repleto de corpos carbonizados. Próximo de um dos corpos, Muidinga descobre um diário e logo começa a lê-lo. O diário foi escrito por um jovem chamado Kindzu, que vivenciou por muitos anos a guerra civil que destruiu seu país. A partir disso, os capítulos vão se alternando entre, de um lado, a relação do garoto e do velho sábio, e, de outro, as aventuras de Kindzu.
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Ao longo de toda a obra, Mia Couto mistura de uma forma incrível a realidade com a fantasia. Na verdade, tanto para Muidinga e Tuahir, como para Kindzu, a fantasia e o sonho servem como uma fuga para a dura realidade em que vivem. Enquanto a leitura do diário pode levar o garoto e o velho para um outro cenário, em que a fome e a solidão não são nem mesmo sentidas, Kindzu sonha em ser um guerreiro lendário, como se isso pudesse dar um sentido à própria vida. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Nesse meio tempo, somos apresentados a novos personagens, alguns mais marcantes que outros, mas todos com uma mensagem a ser passada. A leitura não é fácil, com frases densas e repletas de figuras de linguagem, o que demanda uma atenção maior. O leitor deve se deixar levar pela imaginação poética de Mia Couto, sem se importar com o que é ou não real – se é que podemos fazer essa distinção. Só assim será possível perceber a excepcionalidade da obra que se tem nas mãos.

E aí, gostou?

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A mulher de pés descalços, de Scholastique Mukasonga | Resenha

Sobrevivente da guerra civil que assolou a Ruanda no começo da década de 90, Mukasonga escreveu alguns livros para relatar as atrocidades e sofrimentos que vivenciou. Em “A mulher de pés descalços”, a autora faz uma homenagem à sua mãe, Stefania, uma das vítimas do massacre do povo Tutsi. No entanto, apesar de tratar da violência sofrida pela etnia minoritária do país (em comparação com os Hutus, que correspondiam a mais de 90% da população), Mukasonga se concentra em reconstruir a figura de sua mãe a partir de suas memórias de infância relacionadas com as tradições do seu povo. Para isso, a autora transita entre temas como a figura da mulher nas relações familiares dos ruandeses, até detalhes culturais como moradia, alimentação e casamento.
A maior parte da narrativa se passa em Nyamata, uma cidade no sudeste da Ruanda, para onde a sua e outras famílias Tutsis foram deportadas na década de 60. O leitor aprende sobre a história do país e de seu povo por meio de uma escrita sensível e impactante.
Ao longo do livro também é possível identificar os impactos que a colonização trouxe para a vida dos ruandeses. Embora seja nítida a imposição dos costumes pelos colonizadores, uma parte das tradições consegue sobreviver e se adaptar à nova ideia de civilização. De fato, ao mesmo tempo que Stefania acreditava e conhecia “as plantas de bom augúrio”, não deixava de ir às missas católicas todos os domingos.
Ao se propor a refazer a memória de sua mãe, Mukasonga na verdade conseguiu refazer a memória de todo um povo e de milhares de mães da Ruanda, vítimas de um massacre assustador e que deixou suas marcas permanentes na história. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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“Mãezinha, eu não estava lá para cobrir o seu corpo, e tenho apenas palavras – palavras de uma língua que você não entendia – para realizar aquilo que você me pediu. E estou sozinha com minhas pobres palavras e com minhas frases, na página do caderno, tecendo e retecendo a mortalha do seu corpo ausente.”

#DesafioBookster2019 | Março

Março – Feminismo
Livro escolhido: “A cor púrpura”, de Alice Walker
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Março é o mês do Dia Internacional da Mulher e, não por acaso, o tema do desafio escolhido para esse mês foi feminismo. Como havia prometido, vou mostrar para vocês a minha escolha e dar indicações de outros livros com a temática a ser abordada. Se você só chegou aqui agora, não tem problema! Comece o desafio a partir desse mês e busque aqui na página o post oficial para entender como funciona.
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O escolhido foi “A cor púrpura”, uma das mais importantes obras da literatura norte-americana e mundial. Vencedor do Prêmio Pulitzer e já adaptado para o cinema, o livro é ambientado no sul dos EUA, começo do século XX, e retrata a vida de Celie, uma mulher negra e pobre. Além de sofrer em uma sociedade marcada por diferenças sociais, Celie também é mais uma vítima da desigualdade de gênero. Na infância, foi abusada pelo padrasto. Já adulta, vive presa a um relacionamento violento e abusivo. No entanto, como indica a sinopse, “apesar da dramaticidade de seu enredo, A cor púrpura se mostra muito atual e nos faz refletir sobre as relações de amor, ódio e poder”. É a leitura como meio de reflexão, como oportunidade de se colocar no papel do outro e aprender com a experiência. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Além do escolhido, indico os seguintes livros que abordam a temática: “O papel de parede amarelo”, de Charlotte Perkins; “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf, “Vox”, de Christina Dalcher; “O feminismo é para todo mundo”, Bell Hooks; “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë; “O conto da aia”, de Margaret Atwood; “Calibã e a bruxa”, Silva Federeci; e “Mulheres, raça e classe”, de Angela Davis.

A menina da montanha, de Tara Westover | Resenha

A partir de suas memórias, Tara narra a experiência de ter sido criada em uma família que se isolou do resto do mundo. Baseados em um fanatismo religioso e na crença de que o fim dos tempos estava próximo, seus pais decidiram criar Tara e seus irmãos nas montanhas do interior dos Estados Unidos, com o objetivo de depender o mínimo possível do sistema repressor que é o Estado. Assim, durante a sua infância, a autora nunca frequentou uma escola, nunca entrou em um hospital ou conviveu com crianças que não fossem seus irmãos. Os episódios relatados por Tara revelam situações de sofrimento físico e psicológico que iriam marcá-la pelos anos que estavam por vir. Seu pai, que claramente sofre de transtornos psicológicos, é apresentado como um homem obcecado pela religião, enquanto sua mãe, facilmente manipulada, acaba sendo arrastada pela loucura do ambiente em que vive. Na primeira parte da leitura, senti que o livro se limitaria aos episódios trágicos de sua infância.
A situação, no entanto, começa a mudar quando os irmãos mais velhos de Tara resolvem se livrar dessas crenças extremistas e saem de casa para tentar viver como um “jovem comum”. Com isso, a curiosidade por entender o que havia além daquele pedaço de terra em que vivia passou a atormentar a autora. E o mais interessante na obra é poder acompanhar justamente essa transformação vivida por Tara: um lento e sofrido processo de tomada de uma consciência própria, em que pode ser livre para ter opiniões e questionar a única visão de mundo que conhecia. Mas ao começar essa realidade até então desconhecida, Tara passou a enfrentar uma constante crise de identidade. Em qual versão acreditar? Como ter uma opinião diferente se isso podia colocar em risco os seus laços familiares – que apesar de conturbados, eram os únicos que tinha?
No final, terminei o livro com a sensação de ter lido não apenas um relato sobre uma infância fora do comum, mas de ter conhecido as memórias de uma identidade em formação, em que o novo e o aterrorizante podem estar nos pequenos detalhes.

Escolhas da vez!

Costumo escolher as minhas leituras com base em quatro categorias: (1) clássico; (2) até 200 páginas; (3) autor contemporâneo/ ficção científica; e (4) não ficção/ contos/poemas.
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Ou seja, escolho quatro livros e só vou começar um livro diferente depois que eu acabar a “leva” atual. Isso me tira da zona de conforto e me incentiva a ler obras de diferentes gêneros. Essa “técnica” também ajuda muito no ritmo da leitura, evitando que eu canse de alguma obra. E é importante dizer que eu não leio os 4 livros simultaneamente! Gosto de começar 2, e aí vou iniciando os próximos conforme finalizo as leituras, sem deixar nenhum de lado.
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Escolhas de vez:
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1 – Clássico: “Rúdin”, Ivan Turguêniev – Livro da #leituraconjuntabookster ! Turuêniev é um dos meus autores russos favoritos e é uma ótima porta de entrada para a literatura russa (+ detalhes no destaque dos stories chamado “Conjunta”). “O autor retrata aqui o ‘homem supérfluo’, motivo central da literatura russa de então”.
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2 – Até 200 páginas: “A mulher dos pés descalços”, Scholastique Mukasonga – Autora de Ruanda, Mukasonga traz as memórias de sua mãe, vítima do sangrento genocídio do povo Tutsi, ocorrido na década de 90. Escolha para o clube @viajonolivro ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
3 – Autor contemporâneo: “Terra sonâmbula”, Mia Couto – Escolha de fevereiro para o #desafiobookster2019, com a temática de Guerras/Violência. O autor moçambicano, conhecido por sua escrita poética, vai narrar por meio da história de dois personagens, Tuahir e Muidinga, a devastadora guerra civil que assolou o país, iniciada na década de 70. “Couto se vale também de recursos do realismo mágico e da arte narrativa tradicional africana para compor esta bela fábula, que nos ensina que sonhar, mesmo nas condições mais adversas, é um elemento indispensável para se continuar vivendo”.
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4 – Não ficção: “A menina da montanha”, Tara Westover – No topo da lista dos mais vendidos, o livro traz a autobiografia de uma garota criada nas montanhas, em uma família isolada, que vivia para se preparar para o fim do mundo, e em um ambiente extremamente machista e religioso.
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E vocês, estão lendo o que?

A queda, de Albert Camus | Resenha

Camus é autor de um dos meus livros preferidos: “O estrangeiro”. Apesar disso, ainda não havia lido nenhum outro livro seu – talvez pelo medo de ficar decepcionado por já ter lido o melhor! Mas para resolver isso, coloquei “A queda” na lista dos 10 livros que com certeza leria em 2019… E já foi logo o primeiro a ser lido!
Em “A queda”, Camus vai abordar aspectos da condição humana a partir de uma perspectiva individual, de autocrítica. A obra é construída na forma de um monólogo, em que o narrador, um advogado francês, passa a fazer uma análise da condição humana e da própria existência, tendo inclusive se autodenominado “juiz penitente”. Ele é um profissional bem-sucedido, mas que vê a sua vida mudar depois de testemunhar uma mulher se jogando no rio Sena, sem ter feito nada para tentar salvá-la. O enredo é bem simples e boa parte da leitura envolve os conflitos internos do personagem, tornando bem difícil a tarefa de fazer uma resenha sobre o livro.
Logo no início da obra, o narrador conhece um indivíduo em um bar em Amsterdam e inicia um diálogo. Contudo, em nenhum momento temos contato com as falas do interlocutor. Escutamos apenas as falas e pensamentos do “juiz penitente”, que acusa, ao mesmo tempo que confessa. Julga a natureza do ser humano, mas acaba denunciando a si próprio. E o desenrolar da obra segue com os diálogos entre os dois personagens em diferentes locais e momentos.
Camus, que além de escritor era filósofo, fez de “A queda” uma obra densa e extremamente reflexiva. O leitor se depara constantemente com os pensamentos sarcásticos e amargurados do narrador. É uma forte carga psicológica, que me fez lembrar bastante de alguns romances de Dostoiévski.
Não recomendaria como uma obra para conhecer seu trabalho, mas é um excelente livro e que confirma a genialidade de Camus! O próximo que pretendo ler do autor é “A peste”… e você, já leu algum livro de Camus?

Trecho:  “Quando deixava um cego sobre a calçada onde eu o tinha ajudado a aterrisar, saudava-o. Evidentemente, esse cumprimento não lhe era destinado, ele não o podia ver. A quem, pois, se dirigia? Ao público.”

Editora: Record

Ano de publicação: 2018

Número de páginas:  160

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A civilização do espetáculo, de Mario Vargas Llosa | | Resenha

Gosto bastante da escrita de Llosa (com destaque para “A festa do bode” e “Travessuras da menina má”), mas ainda não havia tido contato com algum trabalho de não ficção.
Nesse ensaio publicado em 2012, o vencedor do Prêmio Nobel traz ao leitor a sua visão sobre a transformação que o conceito de cultura vem sofrendo nas últimas décadas. Para o autor, o senso de cultura que existia no começo de século XX, em que a ideia e o conteúdo eram a força motriz da vida cultural, foi esvaziado por um movimento de banalização das artes e veículos de informação. Nos dias atuais, denominados por Llosa como “civilização do espetáculo”, a cultura passou a servir como simples ferramenta de entretenimento. É a geração da informação pronta e rápida, em que o esforço intelectual é evitado e os meios audiovisuais (como cinema e internet) foram adquirindo um espaço cada vez maior. Na “civilização do espetáculo”, a preocupação em se mostrar como alguém culto é muito maior do que realmente absorver e conseguir apreciar um conteúdo artístico.
Mas é importante saber que não se trata de um ensaio teórico sobre os conceitos da cultura ao longo da história. Llosa deixou claro que esse não é o seu objetivo. O que o autor faz nessa obra é compartilhar sua opinião – muitas vezes em tom crítico, bem crítico! – sobre diversos temas englobados no universo da cultura. São análises sobre comportamento humano, religião, mídia, erotismo, democracia, literatura e temas polêmicos dos mais variados.
É um ensaio inteligente, gostoso de ler e que me fez refletir bastante, seja porque me identifiquei com alguns pensamentos, seja porque, apesar de não concordar com algumas posições do autor, fui apresentado a um ponto de vista diferente sobre temas de inegável relevância. A escrita é simples e fluida, mas recheada de referências a obras e autores, que só contribuíram para aumentar ainda mais a minha lista de livros a serem lidos. “Porque ninguém será culto se todos acreditarem que o são ou se o conteúdo do que chamamos de cultura tiver sido degradado de tal modo que todos possam justificadamente acreditar que são cultos.”

Editora: Objetiva

Ano de publicação: 2013

Número de páginas: 208

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