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Paixão simples, de Annie Ernaux | Resenha

Depois que li “Os anos”, Ernaux se tornou uma daquelas autoras que eu quero ler tudo! E foi só “Paixão simples” aterrisar no Brasil, que furou a fila das leituras. Com apenas 68 páginas, Ernaux compartilha conosco a experiência de se apaixonar. Aquela paixão que tira nosso chão, como um buraco negro que suga todos os nossos pensamentos e energias.

E, diferentemente do que vemos em livros sobre paixão, a autora não narra a sua primeira experiência, quando ainda era jovem. Em “Paixão simples”, vemos Ernaux mais velha, divorciada e mãe de dois filhos se apaixonou por um homem casado. O medo de não ser correspondida ou de perder aquele homem leva a autora para uma sensação de desespero. Um medo que persegue e que toma conta da razão.

Gostei muito pela forma precisa com que Ernaux descreveu o estado de paixão, que oscila entre sentimentos bons e o pavor da perda. Não vou falar mais, porque é um livro para ser sentido, em que a história por trás é simples – como fica claro no próprio título da obra.

Factótum, de Charles Bukowski | Resenha

Bukowski é conhecido por suas prosa polêmica e não é a toa que recebe o apelido de “velho safado”. Em seus romances, o leitor se deparar com personagens homens, machistas e mulherengos. Henry Chinaski é a sua principal criação e está presente em cinco de suas obras, incluindo Factótum. Nunca tinha lido nada do escritor norte-americano até agora.

Chinaski é um típico anti-herói. O personagem é um escritor que vive bebendo, em busca de mulheres e trocando de empregos – porque não para em nenhum. Em Factótum, o protagonista acaba de ser dispensado para combater na Segunda Guerra Mundial e, sem rumo, inicia uma perambulação sem muito propósito ou afeto a sua volta.

Chinaski não consegue atingir o sucesso no seu ofício com autor e, por isso, recorre as mais diversas funções para conseguir sobreviver (o que ele faz bem mal, diga-se de passagem). A displicência do personagem com suas mínimas responsabilidades e compromissos chegou até a me incomodar. É o extremo de quem não quer nada com a vida, a não ser beber e se relacionar com mulheres, sem se preocupar com o dia de amanhã.

A leitura é bem fácil e rápida, mas em alguns momentos senti que o enredo ficava um pouco repetitivo. Era Chinaski mudando de um trabalho para outro, de um quarto sujo para outro. É provável que essa tenha sido uma reação proposital que o autor queria causar no leitor!

A nova edição da @harpercollinsbrasil se destaca pela tradução, feita por Emanuela Siqueira, uma tradutora feminista (sim, isso mesmo), que contextualiza e traz um olhar crítico sobre as problemáticas existentes na obra de Bukowski, sem, no entanto, modificar o conteúdo. É a possibilidade de lermos autores e textos mais polêmicos, que refletem um pensamento de uma época, sem deixar de lado uma leitura atenta e consciente.

Desafio Bookster 2023 | Setembro

#DesafioBookster2023
Mês: Setembro
Acontecimento histórico: Grande Depressão/Crise de 1929
Livro: Ratos e Homens, de John Steinbeck

Os livros de Steinbeck buscam escancarar denuncias de trabalhadores rurais e a decadência do “sonho americano”. Nesse cenário focado nas dificuldades e imensa pobreza da época da Depressão norte-americana, o vencedor do Nobel de Literatura em 1962 revela muito sobre a complexidade humana. Ratos e Homens foi adaptado ao teatro e ao cinema diversas vezes.

Sinopse:
“Ratos e homens, publicado originalmente em 1937, é um dos mais belos textos de John Steinbeck (1902-1968) – um dos maiores romancistas do século XX – e até hoje um dos livros mais lidos do autor. George e Lennie são dois amigos bem diferentes entre si. George é baixo e franzino, porém astuto, e Lennie é grandalhão, uma verdadeira fortaleza humana, mas com a inteligência de uma criança. Só o que os une é a amizade e a posição de marginalizados pelo sistema, o fato de serem homens sem nada na vida, sequer família, que trabalham fazendo bicos em fazendas da Califórnia durante a recessão econômica americana da década de 30. Ganham pouco mais do que comida e moradia. No caminho, encontram outros sujeitos pobres e explorados, mas também situações que colocam em risco a sua miserável e humilde existência. Em Ratos e homens, Steinbeck levou à maestria sua capacidade de compor personagens tão cativantes quanto realistas e de, ao contar uma história específica, falar de sentimentos comuns a todos seres humanos, como a solidão e a ânsia por uma vida digna. Um clássico sobre o doloroso período da Grande Depressão americana. Uma peça de ficção para ser lida e relida.”

Gostaram da escolha? Alguém já leu?

Uma autobiografia, de Rita Lee | Resenha

A experiência com a autobiografia de Rita Lee foi diferente: escutei no formato audiobook. E adorei! Acho que quando o assunto é audiobook, o que melhor funciona para mim são as biografias. Nesse caso, parecia que Rita Lee estava ao meu lado, contando suas histórias (ainda que a narração não fosse sua).

Ao terminar a leitura (apesar de ter escutado, vou manter a terminologia rotineira aqui), a sensação que fiquei sobre a vida da rainha do rock é coragem. Rita Lee foi corajosa em diferentes momentos da sua vida, não deixando que a opinião dos outros ou a moral da época em que cresceu atrapalhassem seus planos, e na própria escrita de sua autobiografia, ao contar suas histórias sem puder algum.

A artista – e também autora – percorre a sua história a partir de capítulos bem curtos, como se contasse pequenos acontecimentos enquanto fossem saindo do baú de suas memórias. Sua vida foi realmente digna de livro. Tanto isso é verdade que já temos duas autobiografias. E para quem é fã e conhece as suas músicas, a experiência fica ainda mais interessante, já que Rita Lee vai contando como muitas de suas letras foram criadas.

Apesar de esse estilo de capítulos curtos não ser dos meus favoritos, me diverti e me surpreendi muito. Muitas das histórias narradas são inimagináveis. Há muito dos bastidores da carreira de Rita, sua relação com as drogas, seu amor pelos animais, sua resistência política, o afeto que unia os membros de sua família, suas paixões…

A filha do capitão, de Aleksandr Púchkin | Resenha

Apesar de não tão conhecido no Brasil, como Dostoiévski e Tolstói, Púchkin é considerado o “fundador da literatura russa moderna”. Famoso pela sua poesia, o autor russo também escreveu romances, como é o caso de “A filha do capitão”, em que constrói sua narrativa no contexto de uma revolta camponesa ocorrida durante o Império Russo, em 1773.

Acompanhamos um jovem oficial que é transferido para um lugar isolado, em uma fortaleza no interior do país. Desesperançoso com o seu futuro naquele local, Piotr Ginióv estabelece amizades e cria um forte laço com uma jovem – a filha do capitão, que dá nome ao livro. Em paralelo, as notícias do avanço de rebeldes, liderados por alguém que se faz passar pelo Czar Pedro III, ameaça a calmaria da fortaleza.

Gostei mais da primeira parte da obra, em que o autor desenvolve os acontecimentos com uma melhor descrição daquele ambiente dos confins da Rússia. Com o decorrer dos últimos capítulos, a sensação que fiquei é que a história estava sendo finalizada com uma certa pressa.

O enredo e a escrita são simples (o mais difícil são os nomes dos personagens, rsrs). Isso pode ser explicado pelo fato de o gênero romance histórico ser algo incipiente para a época em que foi escrito. Ou seja, ao escrevê-lo, Púchkin já mostrava um lado experimental de seu trabalho. Inclusive, vale dizer que o autor fez uma profunda pesquisa histórica sobre os acontecimentos para conseguir construir sua obra.

PS: Tem conteúdo complementar muito legal no meu canal do YouTube com dois super especialistas em Púchkin e literatura russa.

Longa pétala de mar, de Isabel Allende | Resenha

Eu gosto muito do estilo característico de Isabel Allende: romances envolventes, com personagens bem construídos e um contexto histórico fruto de uma consistente pesquisa da autora. Em “Longa pétala de mar”, o cenário inicial é a Espanha, durante a guerra civil que marcou o país.

O personagem principal é Victor Dalmau, um estudante de medicina que ainda muito jovem é convocado a servir durante a guerra. Eu gosto muito de temática médica na literatura, então adorei essa parte. Sua amiga, a pianista Roser, também vai ganhando importância no decorrer das páginas.

Mas a narrativa não se limita aos acontecimentos da Espanha. Isso porque a guerra civil provocou uma forte onda de exílio. Dentre os afetados, Victor e Roser ingressam em um navio e atravessam o oceano atlântico para iniciar uma nova vida em um território por eles desconhecido: o Chile. O trajeto de navio também é um ponto importante do livro. A travessia no Winnipeg tem relação direta com um famoso personagem da obra: Pablo Neruda.

São muitos refugiados que chegam no continente. E a partir disso o enredo também passa a abordar a História do país latino-americano e sua ditadura – um tema recorrente nas obras de Allende. Acompanhamos décadas de acontecimentos durante o século XX.

Adorei a leitura, desde o mergulho na Guerra Civil Espanhola, até os anos dos refugiados em um novo país. O choque cultural e a necessidade de construir uma vida social do zero. A escrita de Allende é fluida e, sem dúvidas, consegue prender o leitor. Romance histórico dos bons!

Desafio Bookster 2023 | Agosto

#DesafioBookster2023
Mês: Agosto
Acontecimento histórico: Independência da Coreia
Livro: Como tigres na neve, de Juhea Kim

Vamos viajar para a Ásia nesse mês? No desafio de agosto, teremos um romance histórico que passeia pelas várias fases e momentos da ocupação japonesa na Coreia e de seu processo de independência ao longo da segunda guerra mundial. Uma visão do oriente que acompanha a vida dos personagens entre encontros e desencontros.

Sinopse:
“Acompanha os destinos entrelaçados de uma jovem vendida para uma escola de cortesãs e o filho pobre de um caçador, em uma narrativa notável por sua força vigorosa e ainda mais impressionante por se tratar do romance de estreia de Juhea Kim. Ao adotar o conceito de inyeon – fio humano – para tecer uma bela história, na qual o acaso, a fortuna e o destino são costurados pela turbulência dos eventos históricos ocorridos na península coreana durante o século XX, Kim entrega um livro espetacular, imersivo e elegante, que nos revela um mundo onde amigos se tornam inimigos, inimigos se tornam heróis, heróis são perseguidos e feras podem assumir as mais diversas formas.”

Gostaram da escolha? Alguém já leu?