FUP, de Jim Dodge  | Resenha

“Fup” é um livro nada convencional, daqueles que tem uma história que fica até difícil de explicar para outros leitores. Como um senhor, uma criança e uma pata de estimação – sim, você leu direito – podem, em pouco mais de 120 páginas, construir uma narrativa gostosa e, ao mesmo tempo, inteligente? Talvez seja essa peculiaridade que faz de “Fup” um queridinho de muitos, desde a sua publicação, em 1983.

Com o falecimento de sua filha, Jake assume, prestes a completar 100 anos, a tarefa de criar o seu neto. O personagem tem pensamentos excêntricos e acredita que descobriu o segredo para a imortalidade: um whisky fortíssimo que ele mesmo produz. Cabe ao leitor decidir se acredita naquele senhor ou se ignora a desculpa utilizada pelo personagem para justificar a sua paixão pela bebida.

E quando Fup, a pata, chega para participar das aventuras do neto e de seu avô, todos se mobilizam para caçar um porco selvagem gigante que destrói as cercas da propriedade onde moram. Aliás, Miúdo, o neto, é ficcionado por construir cercas. Toda essa descrição deixa claro que essa é uma fábula que precisa ser lida, já fica difícil convencer o leitor com a mera descrição dos acontecimentos.

E a impressão que fica é que a história tem um significado maior, ainda que essa compreensão não seja tão evidente ao leitor. Amizade, morte e paciência são temas abordados, de forma sútil e bem humorada, ao longo das páginas. Terminei a leitura com uma sensação boa, sem conseguir entender exatamente o que da narrativa mais me agradou. E, no final, é isso que mais importa ao leitor: os bons sentimentos que os livros deixam em nós. Uma fábula original e cheia de magia nos pequenos detalhes.

Nota 9/10

E vocês ainda tem desconto na AMAZON com o cupom FUPBOOKSTER (tem que ser o vendido e entregue pela Amazon)

O pacto da Água, de Abraham Verghese | Resenha

O pacto da Água, de Abraham Verghese

Compre o livro com 43% de desconto. O link está nos stories!

Romances que acompanham gerações de uma mesma família ao longo dos anos são, para mim, um dos meus estilos favoritos na ficção. Em o Pacto da Água, o autor nos leva por quase 80 anos na história de Grande Ammachi, uma mulher que nasceu no sul da Índia, em uma região católica, pobre e ainda muito rural, e aos 12 anos precisa deixar sua família para se casar com um homem muito mais velho.

Aos poucos, ela descobre que a família de seu futuro marido enfrenta um problema há gerações e cujas causas são desconhecidas: algumas pessoas se tornam vítimas fatais das águas. Na árvore genealógica, muitas são as marcas que indicam o afogamento de homens e mulheres. E ninguém entende os motivos.

No início dos anos 1900, a personagem se vê completamente perdida e desamparada, mas aos poucos começa a criar raízes na casa que será testemunha de tantos acontecimentos em sua vida. Perdas irreparáveis, momentos de alegria e muitas idas e vindas de pessoas que ama marcarão os capítulos construídos por Verghese.

E, aos poucos, o leitor é apresentado a um novo núcleo do romance, em que a medicina acaba se tornando um dos protagonistas (um tema que adoro). O autor é filho de pais indianos e também é médico, o que explica o cenário escolhido para a obra e também os detalhes sobre a rotina de um hospital e sobre procedimentos cirúrgicos que são descritos no livro.

Apesar de em alguns momentos os núcleos parecerem ser totalmente independentes, e o ritmo da leitura oscilar, os últimos capítulos acabam mostrando ao leitor um cruzamento peculiar e interessante das histórias. Verghese conseguiu, assim como em seu outro sucesso O 11º mandamento, desenvolver uma narrativa cativante, em um cenário pouco conhecido e com personagens que deixam suas marcas na memória do leitor – sobretudo, a inesquecível Grande Ammachi. Ou seja, a fórmula perfeita para uma ótima leitura!

Cinzas na boca, de Brenda Navarro | Resenha

Um livro sobre perdas, abandono, solidão e não pertencimento. A temática pesada que envolve a trama criada pela autora mexicana me levou a escolher “Cinzas na boca” como a leitura para o mês sobre tristeza do #DesafioBookster2024

Uma protagonista sem nome deixa o México e vai para a Espanha em busca de sua mãe, que havia abandonado seus filhos na sua terra natal. E a protagonista leva consigo o seu irmão, Diego, de quem sempre tentou cuidar e suprir a falta que o papel materno causava. A ida para aquele novo país parecia ser uma solução para seus problemas.

E a partir disso, são diversos os temas abordados pela autora, que transmite ao leitor uma interminável sensação de desamparo. A protagonista sofre com o preconceito contra os imigrantes e precisa se submeter a trabalhos em más condições para sobreviver. Por outro lado, seu irmão parece não encontrar na mãe a falta que sentia dentro dele. E aos poucos a autora vai nos revelando um doloroso cenário que culmina na morte do irmão, ao tirar a própria vida (não há spoiler, já que esse acontecimento está na primeira página do livro).

Também encontramos a falta que o México causa nos personagens. A dificuldade de aceitar que a busca por uma vida melhor não tenha dado certo e que a realidade anterior talvez fosse mais acolhedora. Quando a protagonista volta para o seu país natal com as cinzas do irmão, esse contraste se torna ainda mais evidente.

E não há como negar que a tristeza está presente em diversas partes da narrativa. No entanto, confesso que, apesar de tantos obstáculos vividos pelos personagens, não consegui me conectar tanto com eles. Não sei se foi a escrita em fluxo de consciência, que pode confundir um pouco o leitor no início da leitura, ou a falta de aprofundamento nas relações, com um ritmo bem urgente, mas senti um impacto menor do que esperava.

Uma leitura difícil, que pode despertar gatilhos, mas que apresenta uma autora potente e sem receio de tocar em temas sensíveis.

PS: Para quem quiser saber mais, tem conversa sobre a leitura com a @nataliatimerman no meu canal do Youtube.

O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, de Haruki Murakami | Resenha

Há alguns anos, quando conheci Murakami, confesso que li um livro atrás do outro do autor. E apesar – ou talvez, por conta – desse momento intenso de Murakami, passei os últimos anos sem ler nenhuma das suas obras. Eu colocava algum livro nas próximas leituras, mas outros acabavam passando na frente.

No mês passado, tive a sorte de começar a ler “O incolor”. E digo sorte porque isso me lembrou dos motivos da minha fase Murakami. Já nas primeiras páginas fiquei empolgado com a forma que o autor descreve a relação de Tazaki, o protagonista, e seu grupo de amigos – sobretudo a presença das cores nesse universo.

O romance é atual e reflete a solidão que recai sobre as novas gerações, principalmente os jovens orientais. O protagonista, um construtor de estações de trens, vive em Tóquio. Apesar de tantas pessoas a sua volta, Tazaki passa a maioria dos seus dias sozinho. Na verdade, ele é acompanhado por um trauma do passado: de um dia para o outro, o seu grupo de amigos inseparáveis corta as relação com Tazaki.

O problema é que o protagonista nunca os questionou sobre os motivos daquela decisão. E essa dúvida passou a ser tão dolorida que o personagem flertava com o fim de sua vida. No entanto, quando uma mulher acaba ganhando espaço na sua vida, Tazaki passa a encontrar uma certa coragem para enfrentar esse passado e, finalmente, conseguir se livrar desse fantasma.

Murakami consegue construir um personagem contemporâneo e descrever as suas angústias de uma forma simples, mas muito consistente. Não há uma dualidade entre certo e errado, mas sim a busca das versões de cada um daqueles envolvidos na história. A nostalgia e melancolia características do autor também estão presentes na obra.

Apesar do clima mais lento, a narrativa me prendeu e a evolução dos acontecimentos deu um ótimo ritmo para a leitura. Fica minha baita recomendação, inclusive se você nunca leu nada do autor.

Caderno Proibido, de Alba de Céspedes | Resenha

Comprar um caderno para usar de diário é um ato de liberdade. Ao menos para uma mulher na Itália da década de 50. Valeria, uma mulher de cerca de 40 anos, se coloca sempre em último plano. Seu marido, que a chama de “mamãe”, e seus filhos são a prioridade. Talvez por isso ela enxergue o ato de escrever e de refletir como uma transgressão. Teria ela direito de tirar um tempo para si, para seus próprios conflitos internos?

A leitura é feita a partir do próprio diário, em um período de cerca de 6 meses. Lemos as descobertas que a protagonista vai fazendo sobre a sua própria situação. São reflexões sobre a maternidade, o casamento, o trabalho e as dificuldades de lidar com as diferenças geracionais entre a sua educação e de seus filhos.

É muito interessante – e ao mesmo tempo incômodo – de perceber como o processo de consciência que Valeria vai tendo sobre a sua realidade e suas insatisfações assusta a protagonista. Seria melhor deixar esses pensamentos de lado e apenas seguir a vida no automático?

E a atualidade da história de Valeria impressiona. Publicado em 1952, há mais de 70 anos, a obra da autora italiana ainda revela muitos dos anseios e sentimento de culpa que assombra as mulheres. A dificuldade de conciliar o trabalho com a criação dos filhos e o cuidado da casa. A necessidade de sempre precisar se mostrar capaz. O medo de dar uma chance aos próprios desejos. E a lista não caberia aqui nesse pequeno espaço.

Aos poucos, uma nova figura acaba tomando um papel maior nos seus sentimentos e Valeria acaba se vendo em um impasse. Uma leitura muito fácil, envolvente e que desperta inúmeras reflexões no leitor. A autora influenciou Elena Ferrante e, sem dúvidas, continuará impactando inúmeras novas histórias.

E o livro foi o escolhido para o tema LIBERDADE do #DesafioBookster2024.

Felicidade conjugal, de Liev Tolstói | Resenha

Felicidade conjugal, de Liev Tolstói

Ler Tolstói é sempre uma experiência marcante, porque une uma narrativa envolvente com uma construção talentosíssima dos personagens. O autor russo sabe como poucos descrever as nuances das relações sociais e, em “Felicidade conjugal”, Tolstói coloca o seu conhecimento sobre o ser humano a partir de uma perspectiva feminina – o que não é comum em suas obras.

A jovem Mária Aleksandrôvna, orfã de mãe e pai e herdeira de muitas terras, se apaixona pela primeira vez. O destinatário desse sentimento perturbador é um amigo do seu pai, vinte anos mais velho e que até então nutria um afeto ingênua por Mária. Aos poucos, Sierguiéi Mikháilitch começa a perceber o interesse da jovem e, apesar de uma desistência inicial, passa a corresponder o sentimento. De filha do seu amigo, Mária passa a se tornar o seu mais novo interesse.

Na segunda parte da obra, acompanhamos o amadurecimento da relação entre os dois. É justamente essa transformação do sentimento da paixão para o amor, assim como a descrição das diferentes fases do amor, que torna esse livro tão bom. O que parecia ser uma relacionamento imune a tentações, acaba enfrentando desafios a partir do momento em que o casal não está mais a sós.

E para deixar a leitura ainda mais interessante, não se pode deixar de considerar que a obra foi publicada em 1859 e retrata os comportamentos e os sentimentos de uma mulher corajosa e que desafia os costumes mais tradicionais daquela época. O retrato da sociedade russa do século XIX e os contrastes entre a realidade rural e das grandes cidades também é um aspecto muito enriquecedor da obra.

São muitas as reflexões que o livro traz sobre a complexidade e a universalidade do sentimento. Apesar de ser um leitor nascido tantos anos depois, é impossível não se identificar com as descrições construídas pelo autor. Se você nunca leu nada do autor, essa pode ser uma ótima opção. Tolsói é genial!

Ps: escolha uma edição com tradução direta do russo, como essa da @editora34 que mostro no vídeo.

O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry | Resenha

O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry

Por que um livro aparentemente infantil, publicado há mais de 80 anos, ainda conquista leitores pelo mundo todo e – o mais impressionante – de todas as idades? Para mim, “O pequeno príncipe” é a típica obra que se encaixa no conceito de clássico: as mensagens transmitidas pelo autor francês são universais, próprias da condição humana.

E o que torna o livro ainda mais interessante é que ele consegue atrair uma criança pelo enredo, mas também tocar o adulto por meio das reflexões construídas de forma tão simples. Ler “O pequeno príncipe” em diferentes fases da vida é uma prova do nosso amadurecimento e da capacidade de nos conectar com as narrativas a depender daquilo que vivenciamos.

Um piloto de avião (assim como era o autor) cai em um deserto. Ele carrega frustrações desde sua infância, por fazer desenhos que ninguém conseguia compreender. Quando se imaginava sozinho, encontra uma figura peculiar: um jovem príncipe, que chega na Terra carregado por um asteroide e que diz ter saído de um pequeno planeta. O pequeno príncipe viaja por diferentes lugares, em busca de novas aventuras, experiências e de respostas.

E é contando o que já viveu que esse personagem inesquecível começa um diálogo com o piloto – que também é o narrador da história. A conversa vai por diferentes caminhos e convida o leitor a refletir sobre nossos valores, o sentido da vida e os sentimentos. Vivemos para chegar a algum lugar, sem aproveitar os momentos. Os desenhos, que traziam uma sensação de frustração ao narrador, também ganham relevância ao longo da obra, em conjunto com outros personagens que vão surgindo.