Santo de casa, de Stefano Volp | Resenha

A perda de um pai é, normalmente, um momento de tristeza e muita dor. Mas o que acontece quando as memórias do passado são carregadas de mágoa e conflitos? É isso que descobrimos ao acompanhar os rastros que a morte trágica de Zé Maria deixa para sua esposa, Rute, e seus três filhos. Todos retornam à cidade natal, onde ainda moravam os pais, para viver o luto e organizar o velório. Esse encontro, no entanto, vai reabrir feridas, permitir descobertas e despertar uma confusão de sentimentos. É possível amar e sofrer pela perda de quem nos fez mal?

Zé Maria foi por muito tempo uma presença que assombrava a família, exercida por um comportamento patriarcal e autoritário. A violência sofrida por Rute, e testemunhada pelos filhos, foi destruindo o amor heróico que se espera sentir pelo pai. A diferença dos tratamentos e a carência de afetos foi afastando os filhos daquela realidade, que deveria ser conhecida como lar. A mãe sofre com a falta, mas os filhos precisam viver suas vidas, cada um guiado por suas próprias motivações. E todos esse abismo criado nas relações envolve muito o leitor ao longo das páginas.

E apesar de tudo isso, a perda de Zé Maria representa a morte do pai. Isso mexe com os quatro que ainda escavam as memórias, e encontram poucas boas, enquanto preparam o velório. Por outro lado, os moradores da cidade, que conhecem um Zé Maria diferente, prestam homenagens diante de uma morte tão trágica, cometida por um assassino feroz. Porque o santo fora de casa não passava pela porta de entrada?

E todo esse enredado familiar é construído por Volp em uma estrutura peculiar, com múltiplas vozes.

Os capítulos alternam entre as visões dos filhos e da viúva, mas sempre a partir da voz do Alan, o caçula, que dialoga com os demais personagens. E apesar poder causar um certo estranhamento nos leitores, é um estilo interessantíssimo. Com uma escrita mais madura e carregada de um teor poético, o jovem autor toca em temas sensíveis e que são extremamente comuns: relacionamentos violentos, a falta do afeto, a fuga do seio familiar, o necessidade de guardar segredos e a dificuldade de lidar com o diferente. Recomendo!

De onde eles vêm, de Jeferson Tenório | Resenha

Radicado em Porto Alegra, Jeferson Tenório é, hoje, um dos exemplos do alcance que a literatura nacional contemporânea vem atingindo. O sucesso “O avesso da pele”, vencedor do Prêmio Jabuti, vendeu milhares de cópias no Brasil – e fora dele -, confirmando a importância de valorizamos o que vem sendo produzido pelos nossos autores.

Por outro lado, o seu livro também é exemplo de como o conservadorismo e a polarização podem ser uma ameaça para a cultura e diversidade. No início desse ano, “O avesso da pele” foi vítima de uma triste tentativa de censura, com o seu banimento em escolas estaduais. O medo do diferente é real e os temas tratados por Jeferson, ao contrário de serem uma ameaça, apenas revelam a necessidade de incluirmos as mais diversas formas discriminação – tão recorrentes – no centro do debate.

Em seu mais novo romance, “De onde eles vêm”, o autor toca mais uma vez em um tema sensível e de extrema relevância: as cotas raciais em universidades. Jeferson insere a discussão a partir da perspectiva o jovem Joaquim, por volta dos anos 2000, quando ingressaram os primeiros estudantes nas instituições brasileiras. É a denúncia de que se um primeiro obstáculo foi superado, muitos outros ainda teriam que ser enfrentados.

Joaquim é órfão, de família pobre e precisa cuidar de sua avó, uma senhora doente e que demanda muita atenção. Desempregado, e com pouquíssimos recursos, o protagonista precisa dividir seu tempo entre os estudos, a sua avó e a juventude. Ele tem direito ao amor, às amizades e à diversão, apesar de a sociedade tentar tirar isso dele. Não bastassem as dificuldades no seu dia a dia, Joaquim também enfrenta o preconceito no ambiente universitário por ser um aluno cotista. As diferenças que tentam impor ao estudante escancaram a desigualdade e o racismo em nosso país.

A escrita é muito acessível e o desenvolvimento da história acontece de uma maneira muito fluida. Ao mesmo tempo que Jeferson enfrenta temas importantes, constrói uma narrativa que provavelmente vai agradar os mais diferentes leitores.

Narciso e Goldmund, de Hermann Hesse | Resenha

O vencedor do Nobel de 1946 tem uma extensa produção literária e, em seus romances, abordar questões filosóficas e existenciais. “Sidarta”, “O lobo da estepe” e “Demian” são alguns dos que li e que me despertaram o interesse no autor. Com “Narciso e Goldmund”, que estava esgotada há anos no Brasil, o autor repete a sua forma de escrever e cria uma narrativa sobre dois amigos, repleta de boas reflexões. É um romance sobre opostos.

De um lado, o jovem e belo Goldmund, que chega a um convento na Alemanha medieval a pedido do pai, com o objetivo de se tornar um homem da religião. De outro lado, Narciso é um monge, vive no convento e leva uma vida dedicada à fé e aos estudos. Com o tempo, surge uma relação de mestre e pupilo entre os dois, regada de um sentimento de admiração recíproco. As diferenças entre os dois amigos não é um impeditivo para essa forte união.

Incomodado pelos conflitos internos que o afligem, Goldmund resolve deixar o convento e seguir um caminho de busca pela felicidade e pela memória de sua mãe. É uma vida de andarilho, sem planos traçados e sem um destino certo. E o interessante é perceber como o prazer sentido pelo personagem acaba se desprendendo de objetos ou de sentimentos que, para muitos de nós, estão atrelados à felicidade. Ainda que o tema seja atualmente clichê, já em 1930 Hesse se debruçava sobre a importância de fruir o momento e de não se conformar com os valores estabelecidos. Mas será que Goldmund consegue se manter fiel a esse desprendimento?

O início do livro é lento, como se o autor quisesse nos mostrar o ritmo daquele convento, em que a dedicação pela fé e o estudo são a regra principal. A leitura ganha força com a saída de Goldmund e com as dificuldades e paixões que o andarilho encontra. Não foi o livro que mais gostei do autor e, na verdade, depois de já ter lido algumas de suas obras, comecei a sentir que os temas se repetem, como se seguisse uma fórmula. De todo modo, terminei envolvido com os personagens e satisfeito com a leitura. Se você vencer o começo mais parado, provavelmente vai gostar!

Cupim, de Layla Martinez | Resenha

Um terror feminista. Perturbador e Misterioso. A jovem autora espanhola vem sendo estaque na Espanha com seu romance de estreia. Uma avó e sua neta habitam uma casa mal assombrada. Mas não pense em monstros ou bruxas. A casa também é lar para a sombra dos antepassados, sobretudo os homens da família – responsáveis por anos de violência contra quem ousou nascer mulher.

Nesse romance, a casa é um dos principais personagens. Ela reage aos acontecimentos e, em seu interior, coisas estranhas acontecem. As sombras se confundem com a mobília. E, acostumadas com aqueles que não conseguem deixar aquela casa, a avó e a neta parecem não se incomodar. O que realmente é motivo de medo para uma mulher?

A relação entre as duas é marcada por um rancor, sobretudo em virtude de um acontecimento envolvendo uma família rica para quem a neta trabalhava naquele vilarejo do interior da Espanha. A desigualdade social é, portanto, outro tema que surge no ambiente e que desperta a raiva em quem sequer consegue garantir o mínimo.

Os capítulos intercalam a perspectiva de cada uma das duas personagens e, aos poucos, o leitor vai conhecendo um pouco mais sobre o passado daquela casa – e de quem já a habitou -, assim como da verdadeira história por trás do episódio fez com que avó e neta se tornassem figuras indesejadas naquele vilarejo.

Enfim, apesar de fluido e curto, “Cupim” é uma leitura diferente, perturbadora e que pode não agradar todo leitor. O início causa certa estranheza, mas aos poucos o leitor vai se acostumando com a escrita de Layla Martinez. Para mim, uma das melhores leituras do ano!

A obra foi escolhida para o #DesafioBookster2024 no mês de setembro para o sentimento Raiva. No meu canal do YouTube você encontra o bate-papo sobre o livro com Andréa del Fuego.

Hospício é Deus, de Maura Lopes Cançado | Resenha

Se a questão de saúde mental e o conceito de “loucura” ainda estão acompanhados de muito preconceito e falta de informação, é difícil imaginar como o tema era tratado na década de 60. Por meio de seus diários, publicados originalmente em 1965, a escritora mineira compartilha o dia a dia internada em um hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro. Muito embora Maura fosse muito jovem naquele momento, essa já era sua terceira internação.

Ao longo de sua escrita, conhecemos um pouco de sua origem, de uma infância rica em Minas Gerais, até começar a enfrentar desafios relacionados à família e à forma como a sociedade a julgava. Em sua vida, Maura foi internada diferentes vezes e, em “Hospício é Deus”, o leitor consegue entender um pouco da angústia que cercava o local e do tratamento desumano que muitos dos pacientes recebiam, com claras situações de abusos físicos e psicológicos.

E ao analisar esse ambiente que estava inserida, em conjunto com outros personagens, como enfermeiras e médicos, Maura consegue construir um cenário completo, que transporta o leitor para uma realidade tão distante. Os aspectos subjetivos da autora ficam, em alguns momentos, mais em segundo plano. No entanto, quando Maura nos conta sobre a sua relação com um médico específico do hospital em que estava internada, é possível mergulhar um pouco mais em seu interior.

É impressionante como Maura conseguia não transparecer os problemas psiquiátricas em sua escrita. O texto é muito claro, fácil de ler e bem construído. Também é interessante ver o interesse de Maura pela escrita e pela literatura. Em seu diário, há diversas referências a seus próprios textos e a outras obras literárias.

“Hospício é Deus” ficou esquecido por muitas décadas, tendo sido resgatado pelo mercado editorial apenas em 2015. A nova edição da @companhiadasletras traz dois textos de apoio, inclusive um deles escrito pela autora e psiquiatra Natália Timerman, que faz um exercício interessante de tentar “diagnosticar” Maura a partir de sua escrita e de seus relatos.

Mamãe & eu & Mamãe, de Maya Angelou | Resenha

A busca por uma efetiva reconciliação entre pais e filhos é tratada na literatura há séculos. Para a ativista e poeta norte-americana, Maya Angelou, esse processo teve início muito cedo, aos 13 anos. Depois de problemas no casamento, Maya e seu irmão mais velho foram abandonados pela mãe quando os dois ainda eram muito pequenos. A infância foi vivida na casa da avó paterna, em um estado racista no sul dos Estados Unidos.

Quando sua mãe, Lady Baxter, reaparece e resolve levar Maya para morar junto dela, o ressentimento e as cicatrizes do abandono ressurgem. Se a autora já tinha dificuldade de enxergar Vivian Baxter como sua mãe, a personalidade forte daquele mulher dificultava ainda mais uma aproximação entre as duas. Apesar disso, não há como deixar de se impressionar com a coragem e independência de Vivian em uma época em que o papel da mulher na sociedade esbarrava em diversas restrições.

E apesar de a relação com sua mãe ser o tema principal da obra, Maya narra momentos marcantes de sua infância, do seu casamento e da experiência com a maternidade. Exatamente: não há apenas um mergulho nos conflitos com Lady Bexter, mas há também um enfrentamento dos desafios da maternidade da própria autora.

Publicado quando Maya tinha 85 anos, senti que esse seu último livro foi como um acerto de contas e também uma homenagem a sua mãe, que acabou tendo um papel fundamental na formação da mulher determinada e independente que a História conheceu.

A leitura me emocionou em diferentes momentos e revelou a força de Maya, vítima de descaso, violência e preconceitos. Inclusive, ouvi o audiobook no original, com a narração da própria autora, e a experiência foi incrível.

A viagem inútil – Trans/escrita, de Camila Sosa Villada | Resenha

O encantamento com “O parque das irmãs magníficas” me despertou a vontade de ler tudo da autora argentina e de conhecer mais sobre a origem de tanta potência. O início de sua relação com os livros, assim como o mergulho irreversível na escrita, é contado por Camila Villada neste ensaio autobiográfico. “A primeira coisa que escrevo na vida é meu nome de homem. Aprendo uma pequena parte de mim”.

Se a presença de seus pais está interligada com suas primeiras memórias com as letras, a relação familiar acabou sendo um aspecto de muita angústia em sua vida. Criada na cidade de Córdoba, a autora estava rodeada por violência, tristeza e a certeza de um futuro que a tornaria vítima de muito preconceito. A coragem de ser travesti e não baixar a cabeça para a intolerância.

Quando criança, Camila se apaixona por seu professor de educação física. Ninguém pode descobrir o seu segredo e, para se proteger, adota um pseudônimo para assinar as cartas. Assinou como uma mulher, pela primeira vez.

A escrita é arrebatadora e precisa. Acompanhar o nascimento dessa escritora nos explica um pouco de onde vem tanta força, mas também revela a doçura por trás de uma criança e uma jovem sem um caminho certo. Como o próprio subtítulo da obra indica, ser uma travesti e uma escritora são elementos de um mesmo todo.

Também foi muito interessante conhecer mais das inspirações que nortearam Camila em sua trajetória pelas letras. Como me contou durante a nossa conversa para o podcast @dariaumlivropodcast, a autora gosta de ler mulheres. Sequer é uma escolha intencional, mas é o que a atrai na hora de escolher um livro.

Uma leitura curta, mas que acabou repleto de marcações (nas páginas e neste leitor).