Meu irmão, eu mesmo, de João Silvério Trevisan | Resenha

Uma leitura impactante de um dos grandes nomes da luta pelos direitos da comunidade LGBTQIA+. Em seu último livro, Trevisan constrói um relato autobiográfico que vai além de temas ligados à sexualidade. A sua relação com seu irmão mais novo, Claudio, é o enfoque da obra, que ainda atravessa as dores da perda e a consciência da proximidade da morte.

Era Trevisan que deveria ter deixado suas lembranças na memória do irmão, já que o autor tinha sido surpreendido com a descoberta da infecção pelo vírus HIV. No início da década de 90, depois de ver tantas pessoas próximas partirem, Trevisan acreditava que aquela notícia seria uma sentença do fim dos seus dias. No entanto, seu irmão, por quem tinha uma linda relação de amizade e acolhimento, se torna vítima fatal de um câncer, antes mesmo de completar 50 anos.

Essa perda crava cicatrizes nunca esquecidas no autor, que compartilha em seu último lançamento todo o seu processo de luto e os últimos momentos com seu irmão. Mesmo quem nunca sentiu esse vazio causado por uma falta tão importante, vai compreender a angústia de Trevisan.

E as dificuldades de ser um homem gay nas décadas passadas, assim como todo o estigma – e ignorância – que recai sobre pessoas que vivem com o vírus HIV também são denunciados de forma muito aberta em “Meu irmão, eu mesmo”. Apesar se ser um livro voltado para a sua história com Claudio, o autor aborda muito de suas memórias e vivências na solidão de não se encaixar em uma sociedade preconceituosa.

Um livro importantíssimo pelas temáticas que aborda, de uma forma verdadeira e corajosa. Valorizar um autor nacional como João Trevisan é necessário quando pensamos em uma literatura mais diversa.

Não fossem as sílabas do sábado, de Mariana Salomão Carrara | Resenha

A segunda obra que leio da jovem autora paulistana me confirmou o que venho dizendo há um tempo: Mariana Salomão Carrara é uma das mais promissoras autoras contemporâneas que temos. Gosto muito de sua capacidade de mergulhar nas emoções e relações humanas, sempre caminhando pelo tema do luto.

Em seu último romance, nos deparamos com uma premissa trágica e fora do comum: um homem se joga da janela de seu apartamento e acaba caindo em cima de seu vizinho. Era o instante errado. E se o vizinho tivesse demorado mais dois segundos para sair de casa, o destino seria outro? E se o banho tivesse sido mais longo? Essa pergunta sem resposta não evita o triste fato de que o acontecimento foi fatal. Um instante trágico que mudou e terminou com vidas.

E é a partir dessa tragédia que a história passa a a ser construída, conduzindo o foco para as duas viúvas. Duas mulheres que se vêm sozinhas sem aviso prévio. Até então apenas vizinhas, começa a surgir algum tipo de relação entre elas, sobretudo por conta da insistência de um dos lados. Uma amizade improvável e que terá futuro? E para completar essas relações, há uma nova vida que faz parte desse cenário. Uma criança, que agora precisa ser criada por uma mãe solo.

Em uma série de tentativas de recomeço, a autora constrói um romance criativo e profundo, que acaba sendo coroado pela sua escrita poética. Gostei muito da leitura e fico curioso com o que Mariana ainda produzirá para a literatura nacional. Para quem ficou interessado, além de ler o livro, tem um papo muito legal com a autora no meu podcast @dariaumlivropodcast.

Dois irmãos, de Milton Hatoum | Resenha

Milton Hatoum é um dos mais importantes autores contemporâneos nacionais. No entanto, até pouco tempo, nunca havia lido uma obra sua. Recebia com frequência alguma indicação sua e Dois irmãos estava na minha lista há um bom tempo. E que bom que eu resolvi tirar ele da estante… Adorei a leitura!

Apesar do título, a obra vai muito além da relação entre os dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar. É um retrato profundo sobre os laços familiares – muitos deles desgastados – e a sua decadência ao longo dos anos. O cenário é a cidade de Manaus, no meio do passado, mas os principais acontecimentos se dão dentro da casa dessa família, de origem libanesa. E além de pais e filhos, moram na casa a empregada doméstica e seu filho que, inclusive, é o narrador da história.

E os desentendimentos que passam a marcar a família têm origem em um conflito físico entre os irmãos. Um deles é agredido e acaba ficando com uma marca definitiva em seu corpo. É a marca das diferenças entre Yaqub e Omar, sendo uma das principais a desigualdade de amor materno que cada um recebe. Omar é tido como mais frágil pela mãe e, por isso, é agraciado com uma atenção maior. Para Yaqub, resta a tentativa de equiparar esse amor.

Publicado em 2020, quando ganhou o Prêmio Jabuti de melhor romance, o livro continua fazendo sucesso e figura na lista de vários vestibulares pelo país, dentre eles a Fuvest. “Dois irmãos” já é um clássico e, acima de tudo, uma leitura deliciosa e impactante.

O Alienista, de Machado de Assis | Resenh

Publicada pela primeira vez em 1882, uma das principais obras de Machado de Assis surpreende pelo caráter atual dos temas nela tratados. Somos colocados diante da linha tênue que separa loucura e lucidez, onde uma epidemia de pessoas consideradas como impróprias para um convívio social saudável. E o abuso de quem tem o poder de decidir e separar aqueles que são considerados como sãos dos demais, sujeitos à segregação.

Na novela criada por Machado, essa autoridade é exercida por um médico, Dr. Simão Bacamarte, que tem uma formação e uma origem tidas como invejáveis e se interessa muito pela mente humana. Em seus estudos sobre a razão, pretende internar aqueles considerados como vítimas da loucura em um manicômio, a Casa Verde. Com a anuência do poder público, o protagonista inicia a sua jornada. No entanto, o que começa com intenções aparentemente razoáveis, passa a apresentar traços de uma obsessão.

Utilizando a ciência como justificativa para suas atitudes agressivas, o Dr. Bacamarte vai contra todos no seu objetivo de eliminar a loucura. Aos poucos, a pequena cidade que serve de palco para a narrativa começa a perceber que ninguém está a salvo do poder daquele médico. E a dúvida passa a atormentar a cabeça de todos: quem realmente são os loucos, e quem ainda é são? Seria possível fazer essa distinção?

E para coroar uma história com um tema tão interessante e atual, ainda temos a escrita impressionante de Machado de Assis. Em “O alienista”, o autor usa a sua tremenda habilidade com a língua portuguesa misturada a um intenso toque de humor e sarcasmo. O Bruxo do Cosme Velho é realmente genial!

PS: essa edição da @antofagica é maravilhosa, com ilustrações de Candido Portinari e textos de apoio!

Desafio Bookster 2023 | Julho

#DesafioBookster2023
Mês: Julho
Acontecimento histórico: Ditadura militar no Brasil
Livro: “Todos nós estaremos bem”, de Sérgio Tavares

Começamos a segunda metade do ano com um livro escrito por um autor nacional contemporâneo, que traz a perspectiva do período da Ditadura Militar no Brasil a partir de um personagem casado com uma mulher, mas que esconde as suas relações com homens a qualquer custo. Estou curioso com essa leitura, bora?

Sinopse:

“Roberto é um empresário que enriqueceu durante a ditadura e que vive imerso em obsessões sexuais por outros homens – e em mentiras para encobri-las. Lúcia, sua esposa, é uma ex-guerrilheira do MR-8 que atuou em sequestros e assaltos a bancos, até ser presa e torturada antes de ir para o exílio. E é no entrelaçar dessas trajetórias, que vão do final dos anos 60 ao alvorecer do novo milênio, que Sérgio Tavares retrata uma geração que lutou por liberdade, mas que não estava pronta para vivê-la quando a conquistou.”

Salvar o fogo, de Itamar Vieira Junior | Resenha

A expectativa do mercado literário estava grande, quase 40 mil exemplares vendidos na pré-venda, e não tinha como ser diferente. A obra antecessora do autor conseguiu um feito que não se via há décadas: um livro contemporâneo nacional furou a bolha para vender mais de 700 mil exemplares. Gostando ou não do livro, essa conquista deve ser muito celebrada por quem se importa com a leitura em nosso país.

E também não há como ignorar as recentes críticas acadêmicas negativas sobre a obra. No entanto, na minha opinião como leitor, o novo livro de Itamar já é um sucesso. É verdade que ele segue um estilo muito semelhante de “Torto arado”, mas em momento senti que a proposta do autor foi ser inovador. Há, inclusive, referência a personagem de seu primeiro romance.

“Salvar o fogo” nos leva a um cenário característico do nosso país. Tapera é uma comunidade na zona rural da Bahia e com moradores de origem afro-indígena. É o resultado de um país miscigenado, contando ainda com a presença do homem branco europeu a partir da figura da igreja católica.

O início da leitura já me prendeu. O mosteiro construído há alguns séculos se alterna como pano de fundo com a casa da família que será o centro da narrativa. As críticas à igreja e sua hipocrisia têm lugar relevante nessa primeira parte. Ao se deparar com os personagens que emprestarão sua voz para nos guiar na narrativa conseguimos compreender que, apesar de uma realidade de pobreza e faltas, a complexidade de suas vivências não os torna menores que os grandes donos das terras.

Luzia, a personagem mais fascinante da obra, é atacada pelos demais cidadãos de Tapera por seus supostos dons sobrenaturais. Sua deformidade física ainda a torna vítima de piadas. Mas é na força m de Luzia, e nos segredos que acompanham seu passado, que o autor consegue construir a sua personagem mais emblemática.

Senti que o ritmo diminuiu um pouco na segunda parte da obra, mas nada que tenha prejudicado a experiência da leitura. Com “Salvar o fogo”, Itamar se mantém como um dos principais nomes da literatura nacional e, o mais importante de tudo, atraindo novos leitores ao prazer da literatura.

Água de barrela, de Eliana Alves Cruz | Resenha

Escolhido para o mês de março do Desafio Bookster 2023, o livro traz um relato intenso sobre o brutal e centenário período de escravização que marcou o país. A narrativa é contada, sobretudo, a partir de personagens femininos, percorrendo várias gerações de uma família, desde a captura forçada de pessoas no continente africano, passando pela abolição da escravização, até os dias atuais.

E para escrever “Água de barrela”, a habilidosa escritora carioca foi atrás da história de sua própria família, utilizando da ficção para tapar os diversos buracos que o apagamento histórico da população escravizada sofreu. É uma impressionante mistura de aspectos históricos com a história de personagens que tiveram que enfrentar todos os tipos de violência para tentar sobreviver. São muitas mulheres fortes que sonham em ser tratadas da forma que merecem.

Há cenas bem explícitas que, apesar de terem respaldo em práticas recorrentes, são difíceis de ser lidas. É um retrato muito rico sobre um longo período da nossa história, que vai além da proibição legal da escravização. A autora consegue nos mostrar como tantos anos de sofrimento, que estão arraigados na estrutura social, não podem ser apagados de um dia para o outro.

A escrita é simples e fica difícil de largar a leitura. Um daqueles livros que merecem ser lidos. Recomendo muito! Para quem se interessar, ainda tem um bate-papo muito legal no canal do YouTube, que contou com a participação da autora e da historiadora Luciana Brito.