Aos prantos no mercado, de Michelle Zauner | Resenha

No que você pensa que te faz pensar das pessoas amadas que já partiram? Para Michelle Zauner, a culinária coreana desperta suas memórias com sua mãe. Ao entrar em um supermercado especializado em comida asiática, a autora desaba. Olha ao seu redor e pensa: minha mãe poderia estar aqui. E junto com as lágrimas, vem a saudades.

E foi esse o sentimento que deu início ao #DesafioBookster2024. A lembrança dos momentos que passamos com aqueles que nos deixaram. No caso de Michelle, não há apenas memórias felizes. A relação com sua mãe foi conturbada e com muitas distâncias, talvez a principal delas a cultural. Sua mãe migrou de Seul em destino os EUA para casar com um norte-americano. A autora nasceu e foi criada na cultura ocidental, apesar da lembrança diária dentro de casa de suas raízes. E apesar da fronteira linguística, suas visitas a Seul eram a prova mais evidente de sua origem.

E para nos levar nesse encontro com o passado, Michelle tempera seu texto com muitas comidas (sendo a maioria impronunciáveis por mim). O ponto mais intenso da leitura inicia quando a autora descobre que sua mãe está com uma doença grave, que acaba a vitimando um tempo depois. Assim como uma receita que leva tempo e exige dedicação, o processo de luta da mãe contra a doença demandou muito das duas. E, para piorar, como é possível viver sem a figura materna? Para mim, um dos meus maiores medos. Para Michelle, uma realidade sem saída, uma sala sem portas, como ela bem descreve.

Confesso que as inúmeras referências à culinária me cansaram, o que prejudicou a minha aproximação com os personagens.
Mas ainda assim, o tema da perda e a relação que ela descreve com a mãe permitiram que eu aproveitasse a leitura! Para terminar, tivemos uma conversa maravilhosa sobre o livro com a @anaclaudiaquintanaarantes, que você encontra no meu canal do Youtube.

Ratos e homens, de John Steinbeck | Resenha

Escolhi “Ratos e homens” para representar a época da Grande Depressão, o tema do mês de outubro do Desafio Bookster 2023. No livro publicado em 1937, do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, o contexto histórico é apresentado de forma sutil, em um ambiente de uma fazenda da Califórnia durante o período de recessão e em uma narrativa com poucos personagens. Os protagonistas são uma dupla de amigos, George e Lennie, que acabam migrando de um trabalho – em condições escassas – para outro na luta pela sobrevivência.

O livro é curto, com menos de 150 páginas, e a leitura é marcante. O ponto alto é a peculiaridade da relação entre os dois amigos, que acaba oscilando entre desentendimentos e uma necessidade de proteção e afeto. George acaba sendo o guia da dupla e quem se preocupa com as dificuldades de Lennie, um personagem com um porte físico forte e grande, mas que contrasta com seus problemas de relacionamento. A humanização daqueles personagens, que vivem em um cenário de tanta falta, é cativante.

Ao longo da leitura, vamos percebendo a falta de perspectivas daqueles personagens. Não há uma saída daquela situação, não há um plano B, mas apenas a necessidade de se apegar a um futuro imaginário. Caso contrário, a falta de esperança consome aqueles homens que estão condenados a uma situação de miséria. A injusta relação entre os donos de terra e os explorados também é abordada por Steinbeck.

Não é à toa que o livro se tornou um clássico da literatura norte-americana do século passado, junto com outra obra incrível do autor, “Vinhas da ira”. Os diálogos também são criados para refletir a simplicidade e o modo “caipira” dos trabalhadores da fazenda. Acho interessante como o processo de tradução em situações como essa deve ser desafiador. Nessa edição, a tradutora Ana Ban conseguiu fazer um ótimo trabalho. Recomendo muito, adorei a leitura!

PS: tem vídeo sobre a leitura, com especialistas no tema, em meu canal do YouTube.

#DesafioBookster2023 | Dezembro

#DesafioBookster2023

Mês: Dezembro
Acontecimento histórico: Pandemia COVID
Livro: Último olhar, de Miguel Sousa Tavares

Chegamos ao último mês do Desafio Bookster 2023 e amei conhecer tantos romances históricos de autores de diferentes nacionalidades. Para terminar, resolvi escolher um acontecimento recente, que impactou a todos nós nos últimos anos e mudou a forma como nos comportamos.

Ainda há poucos livros sobre o tema, talvez porque a sociedade ainda está digerindo a paralisação total, as perdas e a sensação de falta de controle. Fiquei interessado quando vi que um autor que gosto muito, o português Miguel Sousa Tavares, que escreveu “Equador”, iria publicar um livro que abordava a pandemia do COVID. Como esse momento tão devastador que vivemos será reportado nas páginas de autoras e autores que admiramos?

Sinopse:
“Pablo tem 93 anos e uma vida imensa. Lutou na Guerra Civil Espanhola, fugiu da morte na França, sobreviveu a um campo de extermínio nazista na Áustria e depois viveu 75 anos tão feliz quanto possível — até que uma pandemia de proporções imagináveis se alastrou pelo mundo e ele se viu abandonado abandonado em um lar de idosos na Espanha. É nesse mesmo local que trabalha Inez, uma médica espanhola que deixa seu marido e sua casa para trás para enfrentar a nova realidade que confronta não apenas sua profissão, mas tudo o que está à sua volta. Ao conhecer Paolo, um médico intensivista italiano que está na linha de frente do combate à covid-19, ela pouco a pouco toma dimensão de que essa nova doença é sinônimo de solidão e vai virar a vida de todos eles de cabeça para baixo. É um vírus desconhecido, que convoca cada indivíduo a enfrentar dilemas éticos a que se julgavam imunes.”

#DesafioBookster2023 | Novembro

#DesafioBookster2023
Mês: Novembro
Acontecimento histórico: Ditadura argentina
Livro: A casa dos coelhos, de Laura Alcoba

Os países da América Latina são fortemente marcados por ditaduras, sendo a Argentina um desses países que sofreu a opressão de governos totalitários. No mês de novembro, vamos conhecer uma narrativa ágil, breve e delicada sobre clandestinidade, família e resistência focando num breve período que antecedeu o golpe militar da última ditadura argentina de 1976.

Sinopse:
“Na Argentina dos anos 1970, uma menina é arrastada para a vida clandestina pela mãe, militante dos Montoneros, grupo de resistência à ditadura. Elas vivem escondidas, se afastam da vida que conheciam, e são obrigadas a conviver com outros militantes, entre segredos e o medo constante. Delicado e preciso, este é um romance arrebatador, impossível de ser deixado de lado até a última página.”

@editoraparisdehistorias
128 páginas

Como tigres na neve, de Juhea Kim | Resenha

O livro foi o escolhido para o mês de agosto do Desafio Bookster 2023 para o tema Independência da Coréia. É um romance histórico daqueles que tem todos os elementos para agradar o leitor: um bom contexto histórico, enredo ficcional bem desenvolvido, escrita fácil e um conhecimento adicional dos costumes da sociedade.

A autora nos transporta para as primeiras décadas do século passado, quando a Coréia ainda não era dividida e sofria com a ocupação japonesa. A narrativa é conduzida em torno de Jade, uma jovem que é vendida pelos seus pais a uma escola de formação de cortesãs. A decisão acaba surgindo como uma forma de conseguir garantir à garota um futuro longe da miséria e com mais oportunidades.

Há, ainda, a história de um garoto, JungHo, filho de um simples caçador, que se vê tentando sobreviver nas ruas de uma cidade grande. A trajetória dos dois personagens se cruza em diferentes momentos e, a partir disso, surge uma relação de amizade. Suas vidas encontram obstáculos na violência do exército japonês, na pobreza, no machismo e na forte desigualdade social.

A autora conseguiu mesclar bem a parte histórica com a parte ficcional. Há referências a momentos específicos e reais, de revolta da população coreana à ocupação japonesa. Esse período marcou muito a Coréia, deixando cicatrizes em uma sociedade usada e violentada.

É uma leitura envolvente, mas confesso que eu esperava mais do desenvolvimento da narrativa, que em alguns momentos ficou mais lenta. Gostei muito da abordagem sobre a parte mais cultural, das tradições e costumes sociais. Senti como se estivesse lendo uma novela interessante. Vai agradar quem, assim como eu, gostou de “Herdeiras do mar” ou “Pachinko”, por envolver o mesmo cenário e contexto histórico.

Desafio Bookster 2023 | Outubro

Mês: Outubro
Acontecimento histórico: Genocídio de Ruanda
Livro: Baratas, de Scholastique Mukasonga

Viajei à Ruanda em 2020. Me encantei pelo país e pela história de um povo que conseguiu se unificar e se reerguer depois de um dos períodos mais tristes e brutais da História recente.

Pertencente à etnia tutsi, Scholastique sofreu intensamente com o genocídio de Ruanda, em 1994, enquanto grande parte de sua família era assassinada, sendo ela uma das únicas sobreviventes. Apesar de viver na França quando o genocídio aconteceu, a escritora carrega esse duro passado que é um de seus motes para a escrita, onde busca relatar o extermínio dos tutsis, o luto e a perseguição e morte de 800 mil pessoas. Entre romances e autoficção, Mukasonga tornou-se uma escritora conhecida e aclamada, uma referência quando falamos sobre resistência e história. Li dois livros da autora e gostei bastante, por isso resolvi escolher Scholastique para esse desafio.

Sinopse:
“Baratas compõe o ciclo testemunhal de sua obra, junto com os romances A mulher de pés descalços e Nossa Senhora do Nilo, ambos publicados pela Editora Nós em 2017. Neste relato autobiográfico em que se associam memória coletiva e individual, Scholastique Mukasonga descreve, de maneira pungente e sem concessões, a emergência, a implementação e as consequências catastróficas da máquina genocidária. Verdadeira arqueologia do terror, Baratas evoca o longo e doloroso processo de aniquilamento do indivíduo: as pequenas humilhações cotidianas, o medo e a política segregacionista de erradicação de uma população submetida à condição de animal a ser destruído. Em suma, a longa agonia dos tutsis em Ruanda sob o olhar indiferente da comunidade internacional. Entre o desejo de preservar os vestígios de um passado em ruínas e a promessa implícita de conservar a história familiar, Baratas se quer escrita de um memória e denúncia da engrenagem de uma barbárie formidável e tristemente moderna.”

Gostaram da escolha? Alguém já leu?

@editoranosbr
192 páginas

As pipas, de Romain Gary | Resenha

Eu fiquei encantando com a leitura de “A vida pela frente”, do autor francês Romain Gary. Desde então, foram publicados outras obras do autor no Brasil, sendo uma delas “As pipas”. O livro foi escolhido para o Desafio Bookster desse ano no mês em que o tema era a 2ª Guerra Mundial.

E o que me fez escolher o livro, além do interesse por Gary, foi o fato de a narrativa mostrar a guerra – e o período que a antecedeu – a partir de uma perspectiva não tão vista nos livros: a vida de uma criança, de alguém que não estava no front das batalhas. Nos deparamos com a realidade de quem foi afetado pela guerra no cotidiano de uma vida aparentemente comum e que é mantida pela esperança do fim do conflito.

O cenário é a Normandia, no norte da França. O protagonista é Ludo, um menino que vive com seu tio, Ambroise, um personagem peculiar e famoso pela fabricação de pipas (e daí vem a origem do título do livro). As pipas, inclusive, acabam se tornando como um personagem da história, que confere um tom meio mágico ao ambiente criado.

Além da interessante relação com o tio, grande parte da obra aborda a obsessão de Ludo com uma jovem de família polonesa, Lily. Os dois se conhecem no período que antecedeu a guerra e a amizade – ou talvez uma possível relação amorosa – acaba sendo tumultuada pelo caos e a insegurança que tomam conta da atmosfera da Europa.

A narrativa tem um ritmo mais lento, mas isso não me incomodou. Li com calma, apreciando a escrita do autor e a forma como o cenário era construído. Recomendo para quem gosta de um romance histórico, mas não espere grandes acontecimentos.