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Os afegãos, de Åsne Seierstad | Resenha

20 anos após a queda do Talibã no Afeganistão, época em que Åsne esteve no local e escreveu o fenômeno “O livreiro de Cabul”, a jornalista norueguesa volta para o país em uma corajosa missão para tentar compreender os motivos que permitiram a retomada do poder pelo grupo extremista. E para conseguir analisar o cenário político e social atual, Åsne acompanhou três personagens com realidades e de gerações diferentes.

A primeira delas é Jamila, hoje uma figura importante no ativismo pelo direito à educação das mulheres afegãs – proibido pelo regime do Talibã. E a autora retorna às primeiras memórias da personagem, que cresceu em uma sociedade muito hostil às mulheres, para mostrar a sua coragem e determinação.

Bashir é a segunda figura da obra. Sua atuação, no entanto, é completamente distinta: ele faz parte do Talibã e atua como um soldado e uma peça importante na ascensão do regime. A autora passa a frequentar a sua casa, conviver com suas esposas e nos apresenta um retrato incômodo de quem luta pelo poder nas mãos de um grupo extremista e violento.

A mais jovem a formar as páginas de “Os afegãos” é Ariana, que nasce já no novo século e cresce em um país livre do Talibã. Sua vida como mulher e estudante de Direito, contudo, sofre drasticamente com a volta do grupo extremista. A ida à universidade – que funciona precariamente – passa a ser um risco à sua vida.

A história dessas três figuras permitem que o leitor compreenda o momento atual do país a partir de seus últimos 50 anos e dos principais acontecimentos que envolveram os afegãos. Sofri com as dificuldades e falta de perspectivas de Ariana e Jamila, sobretudo por refletirem a realidade que vivem as mulheres no país.

A forma de construir a narrativa torna a leitura muito fácil e interessante, quase como se estivéssemos lendo um romance. Um livro real e, por enquanto, sem finais felizes. Fica no leitor a curiosidade pelos capítulos que ainda estão para acontecer.

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Oração para desaparecer, de Socorro Acioli | Resenha

Oração para desaparecer, de Socorro Acioli

Nascida em Fortaleza, Ceará, Socorro Acioli saiu do nosso país para participar de um curso presencial com Gabriel García Márquez. Um privilégio para poucos e que foi fruto de muita dedicação da autora. E para nossa sorte, Socorro volta ao Brasil com narrativas que nos lembram o estilo do Gabo, mas sem perder sua voz única. Temos realismo mágico e uma incrível capacidade de nos contar histórias, junto com um cenário e um forte toque brasileiro.

Em seu último romance, publicado depois do sucesso “A cabeça do santo”, Socorro também parte de um fato real e extremamente curioso para escrever a sua obra. Uma igreja, situada em município cearense, ressurge após ficar 45 anos soterrada pela areia. Em “Oração para desaparecer”, a autora vai além e, logo no início, nos apresenta com uma personagem que nasce da terra, literalmente.

Ela não lembra o seu nome. Não tem memórias de seu passado. Apesar do sotaque nitidamente brasileiro, a mulher é encontrada – e precisa ser desenterrada – em uma pequena cidade de Portugal. Quem a resgata parece entender um pouco do que aconteceu com a mulher, mas os mistérios são revelados aos poucos. E logo a batizam de Cida.

E nesse ambiente de tantas redescobertas e dúvidas, a protagonista acaba encontrando uma paixão. É o medo de abrir mão de um passado desconhecido misturado com a vontade de criar uma nova história.

A leitura de Socorro é coringa e facilmente irá agradar o leitor: uma leitura fluida, personagens bem desenvolvidos, um bom mistério e o retrato dos sentimentos humanos.

Nota: Como considero a autora uma amiga, prefiro não dar nota.

#DesafioBookster2024 | Junho

Mês: Junho
Sentimento: Afeto
Livro: Deus na escuridão, de Valter Hugo Mãe

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Booksters, vocês sabem que eu adoro esse autor! Esse é o livro mais recente do Valter Hugo Mãe e promete dar aquela aquecidinha no coração. Tô muito curioso pra mergulhar nessa história!

Sinopse:
“Como os pássaros, os irmãos Pouquinho e Felicíssimo vivem nas alturas, em casas incrustadas em uma rocha íngreme na pequena comunidade do Buraco da Caldeira, na Ilha da Madeira. É ali, entre a natureza indomável, uma paisagem mítica e a fé imensurável, que eles passam os seus dias em meio à labuta diária, movidos por um amor sublime, que corteja o divino. Desde o nascimento de Pouquinho, Felicíssimo soube que lhe caberia a função de cuidar do irmão caçula, que nasceu com uma condição física incomum e flanava em algum lugar entre o estranho e o santificado. Felicíssimo, porém, aceita desde o primeiro momento esse compromisso não como um dever, mas como um ato supremo de afeição.”

E vocês já sabem, né? No final do mês teremos uma live no YouTube com um convidado super especial para conversar sobre essa obra.

Quem vem com a gente? Acompanhe tudo no grupo do Telegram (link na bio).

@editorabibliotecaazul
240 páginas

Felicidade conjugal, de Liev Tolstói | Resenha

Felicidade conjugal, de Liev Tolstói

Ler Tolstói é sempre uma experiência marcante, porque une uma narrativa envolvente com uma construção talentosíssima dos personagens. O autor russo sabe como poucos descrever as nuances das relações sociais e, em “Felicidade conjugal”, Tolstói coloca o seu conhecimento sobre o ser humano a partir de uma perspectiva feminina – o que não é comum em suas obras.

A jovem Mária Aleksandrôvna, orfã de mãe e pai e herdeira de muitas terras, se apaixona pela primeira vez. O destinatário desse sentimento perturbador é um amigo do seu pai, vinte anos mais velho e que até então nutria um afeto ingênua por Mária. Aos poucos, Sierguiéi Mikháilitch começa a perceber o interesse da jovem e, apesar de uma desistência inicial, passa a corresponder o sentimento. De filha do seu amigo, Mária passa a se tornar o seu mais novo interesse.

Na segunda parte da obra, acompanhamos o amadurecimento da relação entre os dois. É justamente essa transformação do sentimento da paixão para o amor, assim como a descrição das diferentes fases do amor, que torna esse livro tão bom. O que parecia ser uma relacionamento imune a tentações, acaba enfrentando desafios a partir do momento em que o casal não está mais a sós.

E para deixar a leitura ainda mais interessante, não se pode deixar de considerar que a obra foi publicada em 1859 e retrata os comportamentos e os sentimentos de uma mulher corajosa e que desafia os costumes mais tradicionais daquela época. O retrato da sociedade russa do século XIX e os contrastes entre a realidade rural e das grandes cidades também é um aspecto muito enriquecedor da obra.

São muitas as reflexões que o livro traz sobre a complexidade e a universalidade do sentimento. Apesar de ser um leitor nascido tantos anos depois, é impossível não se identificar com as descrições construídas pelo autor. Se você nunca leu nada do autor, essa pode ser uma ótima opção. Tolsói é genial!

Ps: escolha uma edição com tradução direta do russo, como essa da @editora34 que mostro no vídeo.

Uma mulher, de Annie Ernaux | Resenha

Não costumo dizer isso, mas cada vez mais fico convencido de que Annie Ernaux é uma daquelas autoras que você precisa ter em sua estante. E o que me surpreende é que a ganhadora do Nobel de Literatura de 2022, utiliza uma escrita simples e seca para construir seus textos.

Apesar de ter mais de 20 livros publicados, a Ernaux mantém um padrão em seus textos: mergulhar nas suas memórias, de uma forma pouco pessoal e sem deixar de lado o contexto social em que ela e os personagens importantes de sua vida estão inseridos.

E é isso que vemos em “Uma Mulher”, o mais novo livro publicado pela @fosforoeditora no Brasil. Nele, a autora constrói em pouco mais de 60 páginas a história de sua mãe. Uma mulher que nasceu em uma pequena cidade da Normandia, na França, e que trabalhou desde cedo. Uma mulher que tentou sempre se diferenciar dos seus iguais, mas que também enfrentou dificuldades ao se enquadrar em uma nova realidade, de menos dificuldades e mais recursos. A forma como a autora mistura as memórias com esse aspecto social dos personagens é um dos pontos mais interessantes para mim.

E a relação entre as duas também é retratada nas páginas escritas nos meses seguintes à morte da mãe, em 7 de abril de 1986. Ernaux tenta equilibrar a emoção pelos momentos difíceis ou amorosos que teve, com os fatos da vida de uma mulher corajosa e dura. Os anos finais, quando sua mãe sofria com o Alzheimer, também é narrado pela autora. É dolorido ter que se tornar mãe daquela que sempre foi a responsável pelo nosso cuidado.

E é na universalidade dos temas tratados pela autora que a gente consegue se identificar e se aproximar do texto. Se Ernaux às vezes não sabe porque escreve o texto, para o leitor essa dúvida não tem importância, já que a experiência da leitura confirma a relevância da autora.

Leiam Annie Ernaux. E se você nunca leu nada da autora, essa pode ser uma boa primeira opção!

O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry | Resenha

O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry

Por que um livro aparentemente infantil, publicado há mais de 80 anos, ainda conquista leitores pelo mundo todo e – o mais impressionante – de todas as idades? Para mim, “O pequeno príncipe” é a típica obra que se encaixa no conceito de clássico: as mensagens transmitidas pelo autor francês são universais, próprias da condição humana.

E o que torna o livro ainda mais interessante é que ele consegue atrair uma criança pelo enredo, mas também tocar o adulto por meio das reflexões construídas de forma tão simples. Ler “O pequeno príncipe” em diferentes fases da vida é uma prova do nosso amadurecimento e da capacidade de nos conectar com as narrativas a depender daquilo que vivenciamos.

Um piloto de avião (assim como era o autor) cai em um deserto. Ele carrega frustrações desde sua infância, por fazer desenhos que ninguém conseguia compreender. Quando se imaginava sozinho, encontra uma figura peculiar: um jovem príncipe, que chega na Terra carregado por um asteroide e que diz ter saído de um pequeno planeta. O pequeno príncipe viaja por diferentes lugares, em busca de novas aventuras, experiências e de respostas.

E é contando o que já viveu que esse personagem inesquecível começa um diálogo com o piloto – que também é o narrador da história. A conversa vai por diferentes caminhos e convida o leitor a refletir sobre nossos valores, o sentido da vida e os sentimentos. Vivemos para chegar a algum lugar, sem aproveitar os momentos. Os desenhos, que traziam uma sensação de frustração ao narrador, também ganham relevância ao longo da obra, em conjunto com outros personagens que vão surgindo.

#DesafioBookster2024 | Maio

Mês: Maio
Sentimento: Culpa (mas prometo que o livro promete ser alto astral, hehe)
Livro: Sr. Loverman, de Bernardine Evaristo

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Eu sei que vocês estão me pedindo sentimentos mais para cima, mas prometo que esse livro será mais animado, hehe!

Desde que soube desse livro, eu já sabia que ele entraria para o #DesafioBookster2024! Recém publicado no Brasil, a obra da maravilhosa escritora anglo-nigeriana Bernardine Evaristo, autora de “Garotas, mulheres e outras”, que eu li recentemente e adorei (tem resenha aqui), me despertou muito interesse!

Sinopse:
“Barrington Jedidiah Walker é um homem que chegou longe. Nascido em Antígua, no Caribe, migrou para Londres depois de casar-se com Carmel. Juntos, formaram uma família e alcançaram um nível de conforto material que poucos conseguem ter. Inteligente e vaidoso, só usa ternos elegantes e nunca perde a oportunidade de citar Shakespeare em conversas casuais. O que ninguém sabe é que ele leva uma vida dupla: há décadas mantém um caso extraconjugal com Morris, seu amigo de infância. Aos 74 anos, Barry finalmente decide divorciar-se de Carmel para viver com seu verdadeiro grande amor ― mas isso significa colocar em risco tudo o que conquistou.”

E vocês já sabem, né? No final do mês teremos uma live no YouTube com um convidado super especial para conversar sobre essa obra.

Quem vem com a gente? Acompanhe tudo no grupo do Telegram (link na bio).

@companhiadasletras
329 páginas
Tradução: Camila von Holdefer