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#DesafioBookster2024 | Novembro

Mês: Novembro
Sentimento: Felicidade
Livro: Índice médio de felicidade, de David Machado

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Chegamos na penúltima leitura do ano e, depois de muitos livros duros e mais tristes, é a hora de um sentimento esperado por muitos: a felicidade. O próprio título já indica um pouco do que encontraremos nessas páginas. Um homem busca aumentar o índice médio de felicidade da sua vida, conforme situações difíceis vão aparecendo pelo seu caminho.

Sinopse:
“Numa escala de 0 a 10, o quão satisfeito você se sente com a sua vida? A vida de Daniel é nota 8, mas ele se vê obrigado a refazer esses cálculos estranhos e subjetivos quando uma grave crise atinge Portugal e começa a demolir seus planos. Desempregado, longe da mulher e dos filhos, vendo os amigos em situações difíceis e toda uma nova geração ameaçada, Daniel tem seu otimismo colocado à prova. A cada revés, à medida que seu índice médio de felicidade cai, uma força inexplicável dentro de si só parece aumentar. Na sua jornada para recuperar a esperança na felicidade, ele percebe que poderá desistir de tudo, menos de ajudar aqueles que ama. Livro vencedor do Prêmio da União Europeia para a Literatura 2015 e do Prêmio Salerno Libro d’Europa!”

E vocês já sabem, né? No final do mês teremos uma live no YouTube com um convidado super especial para conversar sobre essa obra.

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@dublinense
320 páginas

Mamãe & eu & Mamãe, de Maya Angelou | Resenha

A busca por uma efetiva reconciliação entre pais e filhos é tratada na literatura há séculos. Para a ativista e poeta norte-americana, Maya Angelou, esse processo teve início muito cedo, aos 13 anos. Depois de problemas no casamento, Maya e seu irmão mais velho foram abandonados pela mãe quando os dois ainda eram muito pequenos. A infância foi vivida na casa da avó paterna, em um estado racista no sul dos Estados Unidos.

Quando sua mãe, Lady Baxter, reaparece e resolve levar Maya para morar junto dela, o ressentimento e as cicatrizes do abandono ressurgem. Se a autora já tinha dificuldade de enxergar Vivian Baxter como sua mãe, a personalidade forte daquele mulher dificultava ainda mais uma aproximação entre as duas. Apesar disso, não há como deixar de se impressionar com a coragem e independência de Vivian em uma época em que o papel da mulher na sociedade esbarrava em diversas restrições.

E apesar de a relação com sua mãe ser o tema principal da obra, Maya narra momentos marcantes de sua infância, do seu casamento e da experiência com a maternidade. Exatamente: não há apenas um mergulho nos conflitos com Lady Bexter, mas há também um enfrentamento dos desafios da maternidade da própria autora.

Publicado quando Maya tinha 85 anos, senti que esse seu último livro foi como um acerto de contas e também uma homenagem a sua mãe, que acabou tendo um papel fundamental na formação da mulher determinada e independente que a História conheceu.

A leitura me emocionou em diferentes momentos e revelou a força de Maya, vítima de descaso, violência e preconceitos. Inclusive, ouvi o audiobook no original, com a narração da própria autora, e a experiência foi incrível.

A viagem inútil – Trans/escrita, de Camila Sosa Villada | Resenha

O encantamento com “O parque das irmãs magníficas” me despertou a vontade de ler tudo da autora argentina e de conhecer mais sobre a origem de tanta potência. O início de sua relação com os livros, assim como o mergulho irreversível na escrita, é contado por Camila Villada neste ensaio autobiográfico. “A primeira coisa que escrevo na vida é meu nome de homem. Aprendo uma pequena parte de mim”.

Se a presença de seus pais está interligada com suas primeiras memórias com as letras, a relação familiar acabou sendo um aspecto de muita angústia em sua vida. Criada na cidade de Córdoba, a autora estava rodeada por violência, tristeza e a certeza de um futuro que a tornaria vítima de muito preconceito. A coragem de ser travesti e não baixar a cabeça para a intolerância.

Quando criança, Camila se apaixona por seu professor de educação física. Ninguém pode descobrir o seu segredo e, para se proteger, adota um pseudônimo para assinar as cartas. Assinou como uma mulher, pela primeira vez.

A escrita é arrebatadora e precisa. Acompanhar o nascimento dessa escritora nos explica um pouco de onde vem tanta força, mas também revela a doçura por trás de uma criança e uma jovem sem um caminho certo. Como o próprio subtítulo da obra indica, ser uma travesti e uma escritora são elementos de um mesmo todo.

Também foi muito interessante conhecer mais das inspirações que nortearam Camila em sua trajetória pelas letras. Como me contou durante a nossa conversa para o podcast @dariaumlivropodcast, a autora gosta de ler mulheres. Sequer é uma escolha intencional, mas é o que a atrai na hora de escolher um livro.

Uma leitura curta, mas que acabou repleto de marcações (nas páginas e neste leitor).

A Lanterna das Memórias Perdidas, de Sanaka Hiiragi | Resenha

“Comfort books” ou “healing fiction” são termos que ganharam força no mercado editorial nos últimos anos e que têm forte origem em obras escritas por autores japoneses e sul-coreanos. No Brasil, os livros que prometem aquecer o coração do leitor podem ser definidos como “literatura de cura”. Sabe aquele livro que promete te receber como um abraço e te fazer ter uma visão mais otimista sobre a vida? Em alguns momentos eles são muito bem-vindos.

A curiosidade sobre esse novo gênero chegou na minha estante e a dica que recebi foi: “A lanterna das memórias perdidas”. Já gostei da premissa logo no início, por envolver um tema que me interessa na literatura, a morte. Na narrativa criada pela autora japonesa, o cenário principal é um estúdio fotográfico que não está situado em nosso plano. É um meio-termo entre a vida e a morte.

O responsável pelo local, Hirasaka, recebe pessoas que acabaram de falecer. E o procedimento é sempre o mesmo: as almas vêm acompanhadas de um envelope – ou muitos – com fotografias de cada dia de vida. Um verdadeiro álbum de memórias. Hirasaka dá ao visitante a difícil tarefa de escolher uma foto preferida para cada ano e, caso uma foto precise de reparos, a pessoa ganha a chance de revisitar aquele dia e tirar uma nova foto. Ao final, a alma estará diante de um caleidoscópio final de suas lembranças.

E é nessa difícil missão que acompanhamos três personagens com histórias muito diferentes. Realmente senti uma sensação boa no decorrer das páginas. Não é um livro que se aprofunda na construção dos personagens, mas acredito que essa nem seja a intenção da autora. O leitor se depara com uma boa narrativa, fácil de ler e com reflexões interessantes sobre a forma com que lidamos com nossas próprias memórias. E se estivéssemos no lugar desses visitantes?

O final do livro também é muito bonito e acabou me surpreendendo. Não sei se a “literatura de cura” é o gênero que mais combina comigo, mas não tenho dúvidas de que esse foi um livro prazeroso e que pode agradar muitos leitores. Uma leitura leve, rápida e cativante.

Nem sinal de asas, de Marcela Dantés | Resenha

O que leva alguém a chegar a um nível tão extremo de solidão que a sua falta não é sentida por ninguém? Foi a partir desse questionamento que a autora mineira decidiu escrever o seu primeiro romance após se deparar com uma notícia que a chocou: na Espanha, uma mulher foi descoberta sem vida em seu apartamento depois de 5 anos. Durante todo esse tempo, ninguém notou a sua ausência.

Em “Nem sinal de asas”, Anja é a protagonista inspirada nesse fato real. Desde a primeira página, sabemos do destino da personagem, mas a autora nos leva a conhecer o passado da Anja. Será que uma pessoa que se vê totalmente sozinha mesmo depois da morte sempre teve uma vida solitária?

Na infância, a protagonista sofre uma perda marcante e passa a viver apenas com sua mãe – com quem possui uma relação complicada. Anja é uma mulher negra, filha de uma mãe branca. E o racismo internalizado naquela que a gerou resulta em um acidente chocante, que deixa marcas físicas irreversíveis na protagonista.

Portanto, além da solidão, a história de Anja é marcada pela tristeza, tornando a experiência de leitura bem dolorida. Rinoceronte, seu gato, é um respiro em meio ao sofrimento. Outro personagem que alterna a narração na obra é o porteiro, que conta a sua perspectiva da notícia que surpreendeu os moradores daquele prédio: uma vizinha esquecida por anos. Um personagem que vai ganhando um espaço indesejável na vida de Anja.

O romance de estreia de Marcela Dantés é muito bom. Envolve o leitor, cria uma compaixão com a personagem e desperta reflexões interessantíssimas sobra morte, solidão, racismo e traumas. “Nem sinal de asas” é uma das grandes surpresas que tive recentemente e a promessa de uma autora que ainda tem muita obra história boa para criar.

#DesafioBookster2024 | Outubro

Mês: Outubro
Sentimento: Angústia
Livro: Angústia, de Graciliano Ramos

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Finalmente vou ler esse clássico da literatura brasileira que estava na minha lista há muito tempo. Graciliano Ramos é um autor que adoro e o título me desperta o interesse. Quem leu meu livro sabe o quanto lutei contra a angústia e, ainda que esse tema possa me gerar incômodo, também me faz querer compreender mais. Promete ser uma leitura mais densa e desafiadora, então vamos com calma e juntos!

Sinopse:
“Lançado originalmente em 1936 e apresentado aqui em novo projeto gráfico, Angústia tem como protagonista Luís Silva, funcionário público de Maceió que leva uma vida medíocre e sem grandes emoções até o dia em que se apaixona por Marina. De início, a jovem demonstra certo interesse no relacionamento e no conforto material que o casamento poderia lhe proporcionar, mas logo acaba trocando o noivo por Julião Tavares, mais rico e poderoso. Tomado por ciúmes e rancor, Silva fica perturbado com os acontecimentos que se desenrolam e passa a acompanhar a vida de Marina enquanto sonha em matar Julião. Escrito em primeira pessoa, o romance tem estrutura temporal não linear, seguindo o fluxo de consciência do narrador-personagem e aproximando o leitor dos sentimentos despertados pelos conflitos vividos por Luís Silva”

E vocês já sabem, né? No final do mês teremos uma live no YouTube com um convidado super especial para conversar sobre essa obra.

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Obs: A edição da @editorarecord é a única autorizada pelo Instituto Graciliano Ramos, onde parte dos direitos autorais são direcionados a ONG Inoccence Brasil.

368 páginas

Ioga, de Emmanuel Carrère | Resenha

Não se deixe enganar pelo título. Um dos mais importantes escritores contemporâneos da França pode até ter pretendido escrever sobre a sua experiência em um retiro de meditação e silêncio que duraria 10 dias. Aquela realmente parecia uma atitude corajosa e que poderia despertar reflexões interessantes. Mas os acontecimentos que sucederam esses dias e seu olhar atento à realidade a sua volta deram um rumo totalmente inesperado à obra.

E, na minha opinião, essa atipicidade do texto criado por Carrère me fascinou tanto. Acompanhamos o autor em reflexões que, de fato, iniciam sobre a relevância da ioga e meditação em sua vida, mas que acabam desembocando em temas espinhosos como saúde mental, terrorismo e crise dos refugiados.

A morte de um amigo no marcante atentado ao prédio do jornal satírico francês Charlie Hebdo é o ponto inicial da desestabilização que acomete o autor. Ele relata de forma muito crua e franca o seu transtorno bipolar, as crises que colocaram a sua vida em risco, as dificuldades amorosas, a estadia em uma ilha grega com refugiados e a descrença em um futuro minimamente tolerável.

Carrère não se esconde do leitor em momento algum e isso é fascinante. Fiquei preso na leitura sem saber por onde o autor me conduziria naquelas páginas. E considerando a diversidade dos temas tratados, não há como não se identificar em diferentes momentos – ou discordar veementemente do autor.

A escrita é simples, já que o objetivo do texto é outro. A criação estética literária fica em um segundo plano e isso não prejudica em nada a experiência da leitura. Gostei muito dessa surpresa, mas reconheço que essa leitura pode não ser para qualquer tipo de leitor.