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Jesus Cristo bebia cerveja, Afonso Cruz

Rosa, a protagonista, mora em uma vila do Alentejo, interior de Portugal, e vive para cuidar de sua avó, Antónia. Sua mãe abandonou a família e o pai, deprimido, “pegou uma corda e pendurou-se numa figueira. Foi o mais estranho fruto daquela árvore”. Um dia, Rosa descobre o sonho de vida de sua avó, conhecer Jerusalém, a Terra Santa, mas as difíceis condições de vida das duas e a idade avançada de Antónia elevam esse sonho ao impossível. O professor Borja se apaixona pela garota e não consegue aguentar a tristeza que a acomete por não poder realizar o sonho da avó. Assim, sugere transformar a aldeia em que vivem na própria Jerusalém, como em um cenário de teatro. Borja “acha que todas as geografias se sobrepõem. O sagrado está em todo o lado. Não tanto pelo valor intrínseco, mas pelo valor que lhe damos. Se uma aldeia o Alentejo pode ser Jerusalém, é porque é Jerusalém”. Apesar de ter inicialmente me interessado pelo enredo, o que me agradou mais na obra foi a escrita de Afonso Cruz – o que explica as passagens da obra citadas nessa resenha. Os personagens apresentados ao longo da narrativa também são muito bem construídos e todos, cada um de seu jeito, ajudam Rosa na sua missão. Quando comecei a ler, esperava encontrar um enredo mais linear, ou seja, um romance propriamente dito. Mas, na verdade, a história fica em um segundo plano e o autor constrói uma obra com um carga filosófica maior. Talvez seja por isso que o livro não tenha me prendido tanto. Além disso, é uma obra difícil e reflexiva, que exige mais do leitor, mas que vale a pena ser lida, até para sair um pouco da zona de conforto. Apesar disso, foi bom ter esse primeiro contato com Afonso Cruz, um autor português contemporâneo muito bem conceituado e cujo trabalho pretendo conhecer mais.

 

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A resistência, Julián Fuks

Há sim passagens sobre a ditadura argentina, mas esse é apenas um assunto secundário. A obra é considerada uma auto-ficção, isto é, uma autobiografia ficcional, quando o autor reinventa sua própria existência. Tudo começa com um certo desabafo do narrador, Sebastián: “Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado”. E é a partir desse fato de seu passado que o narrador tenta reconstituir a origem do irmão adotado para compreender os motivos que o levaram a se recolher em suas próprias emoções. No entanto, a partir dessa visita às memórias, Sebastián acaba esbarrando na história de seus pais, casal de militantes argentinos que se vê obrigado a se exiliar de seu país e viajar para o Brasil, e, mais que isso, na sua própria história. Vencedor do prêmio Jabuti de 2016, principal prêmio da literatura nacional, A resistência é extremamente bem escrito e, na minha opinião, conseguiu aproximar muito o leitor de Sebastián e das reflexões sobre seu passado. A escrita de Fuks me surpreendeu muito, principalmente pela sua carga poética. Além disso, apesar de abordar temas mais densos, o livro é formado por capítulos curtos, o que dá uma maior fluidez ao texto. Julian Fuks é, com certeza, um dos destaques da literatura contemporânea nacional.

 

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A desumanização, Valter Hugo Mãe

É como sempre falo: parece que cada palavra foi escolhida a dedo. Em A desumanização, essa fórmula se repete. Acompanhamos uma história contada por uma garota de 11 anos, logo após a morte de sua irmã gêmea. É a morte e o luto a partir da perspectiva de uma criança. Acostumada a compartilhar tudo com sua irmã, desde o nascimento, a dificuldade encontrada é em como viver como uma só. Halla passa ser a metade de um inteiro, a “irmã menos morta”. Diante desse episódio tão marcante, a protagonista passa a descobrir os segredos da família e do vilarejo em que vive. Não é uma leitura fácil, até mesmo pela sua alta carga poética. Alguns trechos exigem mais de uma leitura, mas aos poucos você se acostuma e acaba engrenando no ritmo e estilo do autor. O cenário melancólico de uma Islândia congelante consegue dar ainda mais profundidade à obra. “A máquina de fazer espanhóis” e “Homens imprudentemente poéticos” ainda são os meus livros favoritos do autor. Mas, como disse, todos os livros do autor merecem ser lidos! 

 

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O conto da aia, Margaret Atwood

No entanto, depois de terminada a leitura, posso afirmar que a obra é excelente. Atwood conseguiu criar um romance distópico muito interessante, trazendo questionamentos atuais e polêmicos. A narrativa se passa em Gilead, um estado teocrático, machista e totalitário, em que a religião dita as regras de forma extremamente rígida e as mulheres são transformadas em “objetos”, com funções previamente designadas. Offred, a protagonista, é uma “aia” e, portanto, sua existência está atrelada à mera função de procriação. As “aias” são um verdadeiro útero para as elites ou, como a própria protagonista diz, “somos úteros de duas pernas, isso é tudo: receptáculos sagrados, cálices ambulantes”. A autora conseguiu explorar o psicológico da protagonista de uma forma muito inteligente, criando um verdadeiro contraste com o conservadorismo caraterístico dessa nova sociedade. São as emoções e pensamentos de alguém que vivia em uma sociedade livre como a nossa, mas que passou a se submeter a novos ideais e a uma nova forma de comportamento, constantemente controlado. A escrita também é bem fácil, rápida e instigante, com ótimas descrições dos locais em que se passa a história. Apesar da curiosidade por mais informações, Atwood consegue prender o leitor ao longo do livro, revelando os detalhes aos poucos. A título de curiosidade, o retorno da obra para a lista de mais vendidos se deu em grande parte pelo governo Trump, uma vez que muitos consideram essa sociedade distópica como uma possível previsão para o futuro dos EUA. Um livro chocante e, ao mesmo tempo, atual!

 

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Por dois mil anos, Mihail Sebastian

Recebi esse livro da @amarilyseditora e foi uma daquelas leituras que comecei totalmente no escuro. Nunca tinha ouvido falar desse livro, nem do autor. Também não tinha lido nenhum comentário a respeito da obra. Li a sinopse e fiquei bem interessado: logo na capa, a narrativa é resumida em “um estudante judeu na Romênia antissemita dos anos 1930”. Muito embora as minhas leituras recentes vêm sendo escolhidas após um certo filtro de recomendações, resolvi arriscar nesse caso. Confiei na escolha da editora e gostei muito do que encontrei. No entanto, diferente do que pode parecer, não se trata de uma história sobre o sofrimento de um jovem judeu, como muitas obras que tratam da crueldade no período nazista. Na verdade, Mihail Sebastian dá um passo para trás e apresenta um relato sobre a época entreguerras, na qual os sentimentos antissemitas ainda estavam se fortalecendo e que, anos depois, acarretariam na morte de mais de um terço dos judeus romenos. O livro traz a história de um jovem que, ao longo dos anos, tem contato com diversas posições ideológicas, mas que sofre com a dificuldade de se encaixar em alguma delas. Escrito em forma de diário, o autor conseguiu criar um verdadeiro panorama da sociedade romena no período entreguerras, sempre com base nas passagens da vida desse jovem. O nome do protagonista não é mencionado em qualquer momento, o que fortaleceria a ideia de que a obra tenha um cunho autobiográfico. O autor, que também era judeu, conseguiu sobreviver ao massacre nazista, tendo publicado suas recordações em um diário (ainda sem tradução para o português). Gostei bastante da leitura, a escrita é bem fluida e agradável, com tradução direto do romeno.
explicação.

 

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Os despossuídos, Ursula K. Le Guin

Dois mundos “vizinhos”, habitados por seres humanos, mas governados de formas extremamente opostas. Em Urrás temos o retrato de uma sociedade capitalista, caracterizada pela desigualdade social, consumismo e privilégios indevidos. Por outro lado, Anarres possui uma estrutura social anárquica, que se desfez de conceitos como profissão, família, casamento e comércio… Ao longo da narrativa, acompanhamos Shevek, a primeira pessoa a viajar de um planeta para o outro em muitas décadas. Shevek, físico e habitante de Anarres, consegue um convite para conhecer Urrás e apresentar seu trabalho aos colegas do planeta vizinho. Lá, o choque cultural é inevitável. São formas de governo – ou não governo – completamente polarizadas, mas ainda assim as duas com seus próprios problemas. Em paralelo à viagem de Shevek, também conhecemos a sua vida, desde pequeno, em uma sociedade anárquica. A escrita é intrigante e a narrativa é bem construída. No entanto, senti um pouco de falta de um aprofundamento mais psicológico dos personagens. Na minha opinião, a autora dá ênfase em algumas passagens que não acrescentam muito à história. Independente disso, trata-se de uma leitura interessante e prazerosa!

 

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O apocalipse dos trabalhadores, Valter Hugo Mãe

No início, o leitor pode sentir certa dificuldade e estranhar o estilo de escrita de Valter Hugo Mãe, marcado pela ausência de letras maiúsculas, travessões e por uma pontuação fora do comum. No entanto, depois que se adapta ao estilo de escrita, não tem como não se encantar pela poesia característica dos livros do autor. Em O apocalipse dos trabalhadores, o leitor é mergulhado na vida de Maria da Graça e Quitéria, duas empregadas domésticas que sofrem com uma rotina repetitiva, opressiva e pouco – para não dizer nada – prazerosa. Para conseguir juntar um pouco mais dinheiro, as duas amigas ainda fazem uns bicos como carpideiras, participando de velórios, em que choram pela morte de desconhecidos. Os diálogos entre as personagens, que muitas vezes acabam em discussões, são muito bem construídos e, na minha opinião, o ponto alto da obra. Apesar das diferenças de suas ideias, Maria da Graça e Quitéria têm um forte traço em comum: nunca deixaram de sonhar com uma vida melhor e com a busca da felicidade! E é assim, com essa esperança de dias novos, que as duas vivem ou, na verdade, lutam para sobreviver. Uma narrativa sofrida e impactante, que ainda aborda em diversos momentos o tema da morte, nos fazendo refletir sobre a efemeridade da vida.

 

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