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Por dois mil anos, Mihail Sebastian

Recebi esse livro da @amarilyseditora e foi uma daquelas leituras que comecei totalmente no escuro. Nunca tinha ouvido falar desse livro, nem do autor. Também não tinha lido nenhum comentário a respeito da obra. Li a sinopse e fiquei bem interessado: logo na capa, a narrativa é resumida em “um estudante judeu na Romênia antissemita dos anos 1930”. Muito embora as minhas leituras recentes vêm sendo escolhidas após um certo filtro de recomendações, resolvi arriscar nesse caso. Confiei na escolha da editora e gostei muito do que encontrei. No entanto, diferente do que pode parecer, não se trata de uma história sobre o sofrimento de um jovem judeu, como muitas obras que tratam da crueldade no período nazista. Na verdade, Mihail Sebastian dá um passo para trás e apresenta um relato sobre a época entreguerras, na qual os sentimentos antissemitas ainda estavam se fortalecendo e que, anos depois, acarretariam na morte de mais de um terço dos judeus romenos. O livro traz a história de um jovem que, ao longo dos anos, tem contato com diversas posições ideológicas, mas que sofre com a dificuldade de se encaixar em alguma delas. Escrito em forma de diário, o autor conseguiu criar um verdadeiro panorama da sociedade romena no período entreguerras, sempre com base nas passagens da vida desse jovem. O nome do protagonista não é mencionado em qualquer momento, o que fortaleceria a ideia de que a obra tenha um cunho autobiográfico. O autor, que também era judeu, conseguiu sobreviver ao massacre nazista, tendo publicado suas recordações em um diário (ainda sem tradução para o português). Gostei bastante da leitura, a escrita é bem fluida e agradável, com tradução direto do romeno.
explicação.

 

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Os despossuídos, Ursula K. Le Guin

Dois mundos “vizinhos”, habitados por seres humanos, mas governados de formas extremamente opostas. Em Urrás temos o retrato de uma sociedade capitalista, caracterizada pela desigualdade social, consumismo e privilégios indevidos. Por outro lado, Anarres possui uma estrutura social anárquica, que se desfez de conceitos como profissão, família, casamento e comércio… Ao longo da narrativa, acompanhamos Shevek, a primeira pessoa a viajar de um planeta para o outro em muitas décadas. Shevek, físico e habitante de Anarres, consegue um convite para conhecer Urrás e apresentar seu trabalho aos colegas do planeta vizinho. Lá, o choque cultural é inevitável. São formas de governo – ou não governo – completamente polarizadas, mas ainda assim as duas com seus próprios problemas. Em paralelo à viagem de Shevek, também conhecemos a sua vida, desde pequeno, em uma sociedade anárquica. A escrita é intrigante e a narrativa é bem construída. No entanto, senti um pouco de falta de um aprofundamento mais psicológico dos personagens. Na minha opinião, a autora dá ênfase em algumas passagens que não acrescentam muito à história. Independente disso, trata-se de uma leitura interessante e prazerosa!

 

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O apocalipse dos trabalhadores, Valter Hugo Mãe

No início, o leitor pode sentir certa dificuldade e estranhar o estilo de escrita de Valter Hugo Mãe, marcado pela ausência de letras maiúsculas, travessões e por uma pontuação fora do comum. No entanto, depois que se adapta ao estilo de escrita, não tem como não se encantar pela poesia característica dos livros do autor. Em O apocalipse dos trabalhadores, o leitor é mergulhado na vida de Maria da Graça e Quitéria, duas empregadas domésticas que sofrem com uma rotina repetitiva, opressiva e pouco – para não dizer nada – prazerosa. Para conseguir juntar um pouco mais dinheiro, as duas amigas ainda fazem uns bicos como carpideiras, participando de velórios, em que choram pela morte de desconhecidos. Os diálogos entre as personagens, que muitas vezes acabam em discussões, são muito bem construídos e, na minha opinião, o ponto alto da obra. Apesar das diferenças de suas ideias, Maria da Graça e Quitéria têm um forte traço em comum: nunca deixaram de sonhar com uma vida melhor e com a busca da felicidade! E é assim, com essa esperança de dias novos, que as duas vivem ou, na verdade, lutam para sobreviver. Uma narrativa sofrida e impactante, que ainda aborda em diversos momentos o tema da morte, nos fazendo refletir sobre a efemeridade da vida.

 

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Barba ensopada de sangue, Daniel Galera

Narrado em primeira pessoa, por um protagonista cujo nome é desconhecido, a obra Daniel Galera é fluída e elaborada com uma linguagem coloquial e envolvente. Acompanhamos a fuga – existencial – do protagonista que, após a morte de seu pai, decide se mudar para Garopaba, um pequeno balneário de Santa Catarina. Lá, vivendo uma rotina pacata, o protagonista começa a busca pelo passado de sua família e, principalmente, pela verdadeira causa da morte de seu avô, assassinado anos antes nessa mesma cidade. Além disso, o livro nos faz refletir acerca de um sonho comum de muitos: morar em uma cidade litorânea tranquila e longe dos
problemas. No entanto, acabamos nos questionando se realmente conseguimos fugir das inquietações normais a todos seres humanos ou se elas, na verdade, moram dentro de nós.
Crítica: o autor não segue uma linha narrativa tão delineada, discorrendo em alguns momentos sobre histórias de personagens paralelos, o que, na minha opinião, deixou a leitura levemente massante.
Fora esse ponto, ótima opção de obra nacional!

 

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O homem que amava os cachorros, Leonardo Padura

Iván, Trotskie Mercader: o autor consegue entrelaçar, de uma forma muito habilidosa, a história do narrador, um personagem fictício, aspirante a escritor e veterinário na Havana do século XXI, a vida do revolucionário Leon Trotski e a trajetória de seu assassino, o catalão Ramón Mercader. Apesar da alternância entre essas três perspectivas ao longo de todo o livro, o leitor consegue mergulhar afundo na cabeça dos personagens, que, diga-se de passagem, são muito bem construídos. Também achei muito interessante como é abordado o contraste entre a Europa comunista da década de 40 e a Cuba moderna dos anos 2000. Além de uma narrativa extremamente envolvente, com um toque de romance policial ao discorrer acerca dos preparativos que antecederam a morte de Trotski, Padura nos dá uma verdadeira aula de história! Só não dei 10, porque em algumas partes achei o ritmo da leitura um pouco lento. Mas, independentemente disso, a obra é excelente e merece ser lida!

 

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A redoma de vidro, Sylvia Plath

Com um forte toque autobiográfico, Sylvia Plath nos apresenta um romance extremamente profundo e perturbador. A narrativa aborda a juventude de Esther e os acontecimentos que a levaram à internação em uma clínica psiquiátrica. Ao longo do livro, e do desenvolvimento da gravíssima depressão que acomete a protagonista, o leitor é sugado para dentro dos pensamentos e angústias da protagonista, acompanhando de perto a solidão de dentro da “redoma de vidro” em que passa a viver. Um livro que nos faz refletir muito, trazendo temas delicados como a depressão e o suicídio e, principalmente, sobre o doloroso processo que é crescer. Também fiquei impressionado com a escrita poética da autora. Escolhi esse livro para a categoria “roman à clef” do #desafiolivrada2017criado pelo Yuri do @bloglivrada ! Li a versão original, em inglês, mas sei que a @globolivros publica a obra pela #bibliotecaazul

 

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A espuma dos dias, Boris Vian

O romance tem como pano de fundo o cuidado de Colin por sua esposa, Chloé, que logo após o casamento é acometida por uma doença cujo tratamento se resume a flores! Sim, flores: Colin deve sempre cercá-la de flores para combater um nenúfar (um tipo de planta aquática) que cresce em seu pulmão. A partir disso, e por meio de uma narrativa fantasiosa e rica em detalhes, o autor nos apresenta a vida de Colin, Chloé e de mais quatro amigos na Paris da década de 50. Com o desenrolar da obra – e com o desenvolvimento da doença de Chloé – o que era colorido e alegre passa a ser trágico e melancólico.
A leitura é profunda e com um forte toque existencialista, abordando temas como o amor, a morte e a tristeza. Por se tratar de uma realidade surreal, a leitura inicia um pouco truncada, mas com o tempo o leitor se acostuma à linguagem e consegue aproveitar a riqueza da escrita de Boris.
Mais uma belíssima edição da finada Cosac!

 

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