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Desafio Bookster 2023 | Abril

Depois de três leituras mais intensas e doloridas, resolvi escolher uma autora que consegue nos envolver com emocionantes romances históricos. Isabel Allende escreveu um dos meus livros favoritos, “A casa dos espíritos”, e gosto muito da forma que ela consegue mesclar a ficção com acontecimentos históricos.

Para nos aprofundarmos no tema da Guerra Civil Espanhola por meio da literatura, escolhi uma obra em que Isabel constrói uma narrativa que tem início na Espanha, no final da Guerra Civil, que durou apenas 3 anos, de 1936 a 1939, mas que foi muito sangrenta, trazendo Neruda como um dos personagens. O livro, publicado em 2019, foi muito recebido pelos leitores. Estou bastante animado!

Sinopse:
“Em plena Guerra Civil Espanhola, o jovem médico Víctor Dalmau e sua amiga, a pianista Roser Bruguera, são obrigados a abandonar Barcelona, exilar-se e atravessar os Pirineus rumo à França. A bordo do Winnipeg, navio fretado pelo poeta Pablo Neruda, que levou mais de dois mil espanhóis para Valparaíso, eles embarcaram em busca da paz e da Liberdade que não tiveram em seu país. Recebidos como heróis no Chile – essa “longa pétala de mar e neve”, nas palavras do poeta chileno -, os dois se integrarão na vida social do país durante várias décadas, até o golpe de Estado que derrubou Salvador Allende, com quem Víctor estava ligado por laços de amizade, graças à paixão pelo xadrez. Víctor e Roser se verão novamente desterrados, mas, como diz a autora: “quando se vive o suficiente, todos os círculos se fecham. Longa Pétala de Mar é uma viagem pela história do século XX, de mãos dadas com alguns personagens inesquecíveis que descobriram que numa única vida cabem muitas outras, e às vezes o difícil não é fugir, mas voltar.”

Quem vem com a gente nessa? Tem link para compra do livro com desconto nos meus stories e, para entrar no grupo de discussão do Desafio no Telegram, é só entrar no link da bio.

@bertrandbrasil
280 pgs

Nêmesis, de Philip Roth | Resenha

19 de março, Philip Roth completaria 90 anos. Publicado em 2010, Nêmesis foi o último romance escrito pelo autor norte-americano e o escolhido para o mês de fevereiro do #DesafioBookster2023, em que a proposta era buscar um livro relacionado com o tema das epidemias/pandemias.

Em “Nêmesis”, Roth narra a epidemia de poliomielite que fez inúmeras vítimas na década de 40 e 50 nos Estados Unidos. O cenário para o romance é um bairro judeu periférico, mais especificamente o pátio de sua escola. Bucky Cantor, um jovem professor de educação física, é o responsável por tomar conta dos estudantes que brincam no pátio.

A vida de Bucky toma rumos desafiadores quando adolescentes cospem no chão do pátio para tentar disseminar a doença contra os judeus daquele bairro. A partir disso, o medo de contrair a doença, que naquela época podia ser fatal, e a falta de informação acabam tornando a vida dos cidadãos um pesadelo. Em um verão muito quente, as crianças se veem presas em casa. As mortes de crianças começam a surgir e a impotência diante de uma doença incontrolável toma conta do protagonista.

Ao longo da leitura, foi impossível não se identificar com a narrativa diante do que vivenciamos com a pandemia do Coronavirus nos últimos anos. A doença invisível toma conta da vida daquela cidade e, quando não faz uma vítima fatal, acaba deixando graves sequelas irreversíveis. O que torna ainda pior a situação é o desconhecimento sobre a doença, quando os avanços da medicina ainda eram mais limitados.

O livro, que venceu o International Booker Prize de 2011, é denso e para alguns leitores pode parecer arrastado. Um dos temas mais presentes no livro é a sensação de culpa que passa a acometer Bucky e o persegue no decorrer da história. Eu gostei do desenvolvimento da narrativa e, para mim, o ritmo mais lento serviu para mostrar a própria impotência do personagem principal. Um destaque para a parte final, que mostra o lado mais subjetivo de quem não consegue superar os fantasmas interiores.

O Lugar, de Annie Ernaux | Resenha

Esse foi o primeiro livro que li da vencedora do Prêmio Nobel de 2022. A leitura foi feita ano passado, antes mesmo do anúncio do Prêmio. Ou seja, fui sem conhecer muito o trabalho de Annie e também sem saber o que iria encontrar. E, no final, confesso que a leitura não me conquistou tanto. Foi uma experiência boa, mas não marcante, principalmente quando comparo com as duas outras leituras que acabei fazendo esse ano (Os anos e O acontecimento).

Em O lugar, encontramos o mesmo estilo da autora, que a deixou conhecida no mundo literário: a capacidade de escrever histórias envolventes a partir de suas memórias, mas com uma visão menos pessoal. Ela se distancia do que viveu, como se contasse as memórias de um outro.

Nessa leitura, inclusive, Annie faz isso de forma mais nítida, já que ela utiliza a figura do pai para refletir sobre a relação entre os dois e fazer uma análise de sua realidade social. Seu pai era um trabalhador simples, que passou pelas duas grandes guerras e viveu as transformações da França do século passado. Por outro lado, Annie teve uma ascensão social por ter tido a oportunidade de uma boa educação e de ingressar na Universidade. Seu livro é uma autossociobiografia.

A temática e a escrita são os pontos altos do livro, que conta com menos de 80 páginas. A forma como Annie relata a sua relação com o pai é muito objetiva e distante, o que, nessa caso, não me cativou tanto. Talvez isso tenha feito com que eu demorasse muito tempo para escrever essa resenha, como se eu precisasse entender o que aquelas poucas páginas deixaram em mim. Hoje, sei que o mais importante foi a vontade de conhecer outras obras da autora – o que, confesso, valeu muito à pena!

“Talvez eu escreva porquê não tínhamos mais nada para escrever um ao outro.”

Desafio Bookster 2023 | Março

#DesafioBookster2023
Mês: Março
Tema: Escravidão
Livro: Água de Barrela, de Eliana Alves Cruz

Quando falamos de momentos históricos marcantes, não podemos deixar de lado um capítulo brutal da nossa História: a escravidão, que no nosso país fez milhões de vítimas, deixando marcas tão profundas na sociedade que são sentidas até hoje.

Para nos aprofundarmos nesse tema por meio da literatura, escolhi a obra de um dos grandes nomes da literatura nacional: Eliana Alves Cruz, que retrata os desdobramentos da escravidão a partir da saga de uma família afro-brasileira, com riqueza dos detalhes históricos baseado na trajetória de sua própria família durante o Brasil colônia até o início do século XX. A autora registra o processo de captura e comercialização de pessoas trazidas de África para o Brasil, e aqui vendidas e escravizadas entre o fim do século XIX e início do século XX, passando pela lei do ventre livre, lei áurea e diversos desdobramentos históricos até os dias atuais. São mais de 100 anos de história deste povo trazido à força para o Brasil, com o objetivo de exploração.

Sinopse:
“As muitas mulheres negras presentes no romance Água de barrela, de Eliana Alves Cruz encontram no lavar, passar, enxaguar e quarar das roupas das patroas e sinhás brancas um modo de sobrevivência em quase trezentos anos de história, desde o Brasil na época da colônia até o início do século XX. O título do romance remete a esse procedimento utilizado por essas mulheres negras de diferentes gerações e que garantiu o sustento e a existência de seus filhos e netos em situações de exploração, miséria e escravidão. A narrativa inicia-se com a comemoração do aniversário de umas das personagens após viver um século de muitas lutas, perdas, alegrias, tristezas e principalmente resiliência. Damiana, personagem central para a narrativa, cansada das batalhas constante e ininterruptamente travadas pela liberdade, se vê rodeada por sua família e se recorda dos tempos de lavadeira.”

Bora mergulhar na obra de Eliana? Tem link para compra do livro com desconto nos stories.

@editoramale
322 pgs

Irmão de alma, de David Diop | Resenha

Escolhido para o primeiro mês do Desafio Bookster 2023, o livro do autor francês criado no Senegal traz uma visão diferente sobre o tema da 1ª Guerra Mundial. Aprendemos nas escolas e em outros livros a partir da participação dos países europeus. No entanto, David Diop constrói um romance brutal centrado em personagens senegaleses, que são convocados a deixarem o seu país e lutarem contra os inimigos dos franceses. Eles não conhecem seu inimigo, mas são ensinados a cumprir com a única obrigação de matar.

A narrativa tem início com Alfa, atirador senegalês que perdeu seu amigo de infância no campo de batalha. Para honrar a morte de Mademba, Alfa desperta o que tem de mais selvagem dentro de si, matando e colecionando um prêmio para cada inimigo “do lado de lá”. Para descrever esse seu comportamento “vingativo”, o autor não poupa detalhes sangrentos e que revelam a brutalidade dos campos de batalha. É a morte que acompanha os dias de quem está na linha de frente da Grande Guerra.

Acompanhamos esse cenário de terror contaminando os pensamentos do protagonista, como se conduzisse Alfa a um estado de loucura causado pelo trauma. Estamos de frente com os pensamentos de Alfa que, como em uma espécie de confissão, repete várias vezes o que vem em sua cabeça. Todo esse processo acaba desaguando em um final com diferentes interpretações, o que confirma a riqueza na criação do autor.

Achei muito interessante conhecer essa perspectiva pouco contada na literatura que povoa as nossas estantes. A história trazida por Diop, e que venceu o International Booker Prize, é a história de dezenas de milhares de soldados convocados pela França em suas colônias, que eram iludidos pelas promessas de uma vida melhor. Há, ainda, a abordagem sobre a espiritualidade na cultura senegalesa, o que nos ensina muito sobre a força da relação entre Alfa e Madembe.

E para quem leu o livro, gravei um vídeo com dois convidados especialistas que está disponível no canal do Youtube (link na bio). Não deixem de assistir!

A mercadoria mais preciosa, de Jean-Claude Grumberg | Resenha

Uma leitura que pode facilmente ser feita em um único dia, mas que fica muito tempo nos seus pensamentos. Essa pequena obra, construída quase como se fosse uma fábula, encanta pela sensibilidade e incomoda pela tristeza dos acontecimentos descritos.

É na simplicidade da narrativa e de seus personagens que o autor conquista ao descrever a brutalidade do nazismo e dos campos de concentração. O autor francês, conhecido pelo seu trabalho como dramaturgo, nos traz um acontecimento histórico que foi por ele vivido. Quando ainda criança, viu seu pai ser levado para um campo de concentração, do qual nunca voltou. Essa relação pessoal que o Grumberg tem com o fato histórico com certeza trouxe mais sensibilidade na hora de escrever o texto.

Um casal de lenhadores, muito humildes e pobres, tentam sobreviver ao frio inverno em que a escassez de comida é uma preocupação constante. Ao leitor pouco é apresentado sobre o casal além do sofrimento diário. Mas suas rotinas imutáveis acabam se transformando quando um trem que atravessa seus caminhos lhes fornece uma surpresa.

Não posso contar mais sobre o enredo, porque a descoberta de cada passo desse caminho literário que o autor constrói para nós é uma experiência marcante. Recomendo você começar a leitura sem procurar mais saber sobre o que encontrará.

Um livro sobre escolhas dilacerantes e sobre o amor como laço que une o desconhecido. Com essa curta resenha, deixo a minha forte recomendação que, sendo bem clichê, não leva tem joia só no nome, mas também em suas páginas.

O parque das irmãs magníficas, de Camila Sosa Villada | Resenha

Já antecipo para vocês que esse livro de apenas 200 páginas conseguiu me emocionar e despertar tanta compaixão pelas personagens que, sem dúvidas, foi uma das melhores leituras de 2022.

E é engraçado que, para mim, é mais difícil escrever sobre livros que me impactam muito do que sobre as leituras que não deixam tantas marcas. Talvez porque o que mais conquista o leitor não são os aspectos mais objetivos de uma narrativa, mas os sentimentos que compartilhamos. E é essa parte subjetiva da experiência que exige mais de mim na hora de escrever uma resenha para vocês.

Nessa obra com fortes traços autobiográficos, Camila Villada, uma mulher trans, nos leva para a cidade argentina de Córdoba, para um parque que dá nome ao livro. Não bastasse as angústias de crescer em conflito com o próprio corpo, a protagonista enfrenta a rejeição da sociedade. E é nesse parque que um grupo de travestis que compartilham de suas doares a acolhem.

A realidade desse grupo, comandado por Tia Encarna, uma figura forte e amorosa, é marcada por violências. Marginalizadas pela sociedade, as travestis precisam se submeter a uma violência de seus corpos para conseguir sobreviver. Não bastasse isso, elas são vistas com repulsa por quem cruza seu caminho, em um constante sofrimento psicológico. E nessa realidade brutal, as irmãs magníficas são tudo o que lhes resta. Uma irmandade que ameniza o sofrimento.

Além de escrever de forma cativante e poética, a autora tempera a narrativa com uma mágica que desafia a realidade. Uma personagem se transforma em pássaro, outra vive muito mais de cem anos e tantos outros detalhes que deixam a leitura ainda mais impressionante. Talvez toda essa mágica seja uma forma de apaziguar tanta dor que as personagens sentem, uma tentativa de escapar por alguns segundos da triste realidade que não fica presa às páginas do livro, mas que toma conta de tantos outros parques, casas e corpos pelo mundo. Livro maravilhoso, triste, sensível, que merece a leitura de todos!