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Desafio Bookster 2023 | Outubro

Mês: Outubro
Acontecimento histórico: Genocídio de Ruanda
Livro: Baratas, de Scholastique Mukasonga

Viajei à Ruanda em 2020. Me encantei pelo país e pela história de um povo que conseguiu se unificar e se reerguer depois de um dos períodos mais tristes e brutais da História recente.

Pertencente à etnia tutsi, Scholastique sofreu intensamente com o genocídio de Ruanda, em 1994, enquanto grande parte de sua família era assassinada, sendo ela uma das únicas sobreviventes. Apesar de viver na França quando o genocídio aconteceu, a escritora carrega esse duro passado que é um de seus motes para a escrita, onde busca relatar o extermínio dos tutsis, o luto e a perseguição e morte de 800 mil pessoas. Entre romances e autoficção, Mukasonga tornou-se uma escritora conhecida e aclamada, uma referência quando falamos sobre resistência e história. Li dois livros da autora e gostei bastante, por isso resolvi escolher Scholastique para esse desafio.

Sinopse:
“Baratas compõe o ciclo testemunhal de sua obra, junto com os romances A mulher de pés descalços e Nossa Senhora do Nilo, ambos publicados pela Editora Nós em 2017. Neste relato autobiográfico em que se associam memória coletiva e individual, Scholastique Mukasonga descreve, de maneira pungente e sem concessões, a emergência, a implementação e as consequências catastróficas da máquina genocidária. Verdadeira arqueologia do terror, Baratas evoca o longo e doloroso processo de aniquilamento do indivíduo: as pequenas humilhações cotidianas, o medo e a política segregacionista de erradicação de uma população submetida à condição de animal a ser destruído. Em suma, a longa agonia dos tutsis em Ruanda sob o olhar indiferente da comunidade internacional. Entre o desejo de preservar os vestígios de um passado em ruínas e a promessa implícita de conservar a história familiar, Baratas se quer escrita de um memória e denúncia da engrenagem de uma barbárie formidável e tristemente moderna.”

Gostaram da escolha? Alguém já leu?

@editoranosbr
192 páginas

A ridícula ideia de nunca mais te ver, de Rosa Montero | Resenha

A obra da autora espanhola Rosa Montero vem conquistando muitos leitores aqui no Brasil. Resolvi ler “A ridícula ideia de nunca mais te ver” por três motivos. Em primeiro lugar, eu recebia muitas indicações dos seguidores, que haviam ficado apaixonados pela obra. Em segundo lugar, a presença do tema do luto nas páginas da narrativa. E, por fim, esse título sensacional!

Mas para a minha surpresa, nem boa, nem ruim, Rosa Montero escreve um livro que vai muito além da perda (diferentemente do que propõe a sinopse). É até difícil de encaixar a sua criação em um gênero literário específico, já que a autora mistura vivências autobiográficas com a história de uma das principais cientistas de nossa História, a franco-polonesa Marie Curie, vencedora de dois prêmios Nobel. E tudo isso é contado por meio de uma linguagem muito acessível, dialogando com o leitor e abordando reflexões atuais.

A ideia de escrever o livro veio depois que Rosa Montero leu o diário da cientista, pouco tempo depois de ter perdido o seu marido. E foi a partir desse ponto em comum da história das duas mulheres, já que Marie Curie também se tornou viúva ainda jovem, que ela constrói essa narrativa mista.

Gostei muito de conhecer mais da vida – e dos feitos extraordinários – da cientista polonesa. Eu já havia assistido ao filme sobre a sua história, mas a leitura de “A ridícula ideia de nunca mais te ver” trouxe muitos detalhes que eu não sabia. As reflexões sobre o luto também foram muito interessantes e deixaram várias marcas na minha edição.

Recomendo bastante a leitura, mas fica o aviso de que não é um livro exclusivamente sobre a perda e de que a construção da obra foge de um gênero comum, o que pode gerar um pouco de estranheza no leitor. E, por fim, vale a ressalva de que não gostei tanto das partes em que a autora usava # para dar um ar mais moderno ao texto (o que não prejudicou em nada a leitura).

As pipas, de Romain Gary | Resenha

Eu fiquei encantando com a leitura de “A vida pela frente”, do autor francês Romain Gary. Desde então, foram publicados outras obras do autor no Brasil, sendo uma delas “As pipas”. O livro foi escolhido para o Desafio Bookster desse ano no mês em que o tema era a 2ª Guerra Mundial.

E o que me fez escolher o livro, além do interesse por Gary, foi o fato de a narrativa mostrar a guerra – e o período que a antecedeu – a partir de uma perspectiva não tão vista nos livros: a vida de uma criança, de alguém que não estava no front das batalhas. Nos deparamos com a realidade de quem foi afetado pela guerra no cotidiano de uma vida aparentemente comum e que é mantida pela esperança do fim do conflito.

O cenário é a Normandia, no norte da França. O protagonista é Ludo, um menino que vive com seu tio, Ambroise, um personagem peculiar e famoso pela fabricação de pipas (e daí vem a origem do título do livro). As pipas, inclusive, acabam se tornando como um personagem da história, que confere um tom meio mágico ao ambiente criado.

Além da interessante relação com o tio, grande parte da obra aborda a obsessão de Ludo com uma jovem de família polonesa, Lily. Os dois se conhecem no período que antecedeu a guerra e a amizade – ou talvez uma possível relação amorosa – acaba sendo tumultuada pelo caos e a insegurança que tomam conta da atmosfera da Europa.

A narrativa tem um ritmo mais lento, mas isso não me incomodou. Li com calma, apreciando a escrita do autor e a forma como o cenário era construído. Recomendo para quem gosta de um romance histórico, mas não espere grandes acontecimentos.

Paixão simples, de Annie Ernaux | Resenha

Depois que li “Os anos”, Ernaux se tornou uma daquelas autoras que eu quero ler tudo! E foi só “Paixão simples” aterrisar no Brasil, que furou a fila das leituras. Com apenas 68 páginas, Ernaux compartilha conosco a experiência de se apaixonar. Aquela paixão que tira nosso chão, como um buraco negro que suga todos os nossos pensamentos e energias.

E, diferentemente do que vemos em livros sobre paixão, a autora não narra a sua primeira experiência, quando ainda era jovem. Em “Paixão simples”, vemos Ernaux mais velha, divorciada e mãe de dois filhos se apaixonou por um homem casado. O medo de não ser correspondida ou de perder aquele homem leva a autora para uma sensação de desespero. Um medo que persegue e que toma conta da razão.

Gostei muito pela forma precisa com que Ernaux descreveu o estado de paixão, que oscila entre sentimentos bons e o pavor da perda. Não vou falar mais, porque é um livro para ser sentido, em que a história por trás é simples – como fica claro no próprio título da obra.

Factótum, de Charles Bukowski | Resenha

Bukowski é conhecido por suas prosa polêmica e não é a toa que recebe o apelido de “velho safado”. Em seus romances, o leitor se deparar com personagens homens, machistas e mulherengos. Henry Chinaski é a sua principal criação e está presente em cinco de suas obras, incluindo Factótum. Nunca tinha lido nada do escritor norte-americano até agora.

Chinaski é um típico anti-herói. O personagem é um escritor que vive bebendo, em busca de mulheres e trocando de empregos – porque não para em nenhum. Em Factótum, o protagonista acaba de ser dispensado para combater na Segunda Guerra Mundial e, sem rumo, inicia uma perambulação sem muito propósito ou afeto a sua volta.

Chinaski não consegue atingir o sucesso no seu ofício com autor e, por isso, recorre as mais diversas funções para conseguir sobreviver (o que ele faz bem mal, diga-se de passagem). A displicência do personagem com suas mínimas responsabilidades e compromissos chegou até a me incomodar. É o extremo de quem não quer nada com a vida, a não ser beber e se relacionar com mulheres, sem se preocupar com o dia de amanhã.

A leitura é bem fácil e rápida, mas em alguns momentos senti que o enredo ficava um pouco repetitivo. Era Chinaski mudando de um trabalho para outro, de um quarto sujo para outro. É provável que essa tenha sido uma reação proposital que o autor queria causar no leitor!

A nova edição da @harpercollinsbrasil se destaca pela tradução, feita por Emanuela Siqueira, uma tradutora feminista (sim, isso mesmo), que contextualiza e traz um olhar crítico sobre as problemáticas existentes na obra de Bukowski, sem, no entanto, modificar o conteúdo. É a possibilidade de lermos autores e textos mais polêmicos, que refletem um pensamento de uma época, sem deixar de lado uma leitura atenta e consciente.

Desafio Bookster 2023 | Setembro

#DesafioBookster2023
Mês: Setembro
Acontecimento histórico: Grande Depressão/Crise de 1929
Livro: Ratos e Homens, de John Steinbeck

Os livros de Steinbeck buscam escancarar denuncias de trabalhadores rurais e a decadência do “sonho americano”. Nesse cenário focado nas dificuldades e imensa pobreza da época da Depressão norte-americana, o vencedor do Nobel de Literatura em 1962 revela muito sobre a complexidade humana. Ratos e Homens foi adaptado ao teatro e ao cinema diversas vezes.

Sinopse:
“Ratos e homens, publicado originalmente em 1937, é um dos mais belos textos de John Steinbeck (1902-1968) – um dos maiores romancistas do século XX – e até hoje um dos livros mais lidos do autor. George e Lennie são dois amigos bem diferentes entre si. George é baixo e franzino, porém astuto, e Lennie é grandalhão, uma verdadeira fortaleza humana, mas com a inteligência de uma criança. Só o que os une é a amizade e a posição de marginalizados pelo sistema, o fato de serem homens sem nada na vida, sequer família, que trabalham fazendo bicos em fazendas da Califórnia durante a recessão econômica americana da década de 30. Ganham pouco mais do que comida e moradia. No caminho, encontram outros sujeitos pobres e explorados, mas também situações que colocam em risco a sua miserável e humilde existência. Em Ratos e homens, Steinbeck levou à maestria sua capacidade de compor personagens tão cativantes quanto realistas e de, ao contar uma história específica, falar de sentimentos comuns a todos seres humanos, como a solidão e a ânsia por uma vida digna. Um clássico sobre o doloroso período da Grande Depressão americana. Uma peça de ficção para ser lida e relida.”

Gostaram da escolha? Alguém já leu?

Uma autobiografia, de Rita Lee | Resenha

A experiência com a autobiografia de Rita Lee foi diferente: escutei no formato audiobook. E adorei! Acho que quando o assunto é audiobook, o que melhor funciona para mim são as biografias. Nesse caso, parecia que Rita Lee estava ao meu lado, contando suas histórias (ainda que a narração não fosse sua).

Ao terminar a leitura (apesar de ter escutado, vou manter a terminologia rotineira aqui), a sensação que fiquei sobre a vida da rainha do rock é coragem. Rita Lee foi corajosa em diferentes momentos da sua vida, não deixando que a opinião dos outros ou a moral da época em que cresceu atrapalhassem seus planos, e na própria escrita de sua autobiografia, ao contar suas histórias sem puder algum.

A artista – e também autora – percorre a sua história a partir de capítulos bem curtos, como se contasse pequenos acontecimentos enquanto fossem saindo do baú de suas memórias. Sua vida foi realmente digna de livro. Tanto isso é verdade que já temos duas autobiografias. E para quem é fã e conhece as suas músicas, a experiência fica ainda mais interessante, já que Rita Lee vai contando como muitas de suas letras foram criadas.

Apesar de esse estilo de capítulos curtos não ser dos meus favoritos, me diverti e me surpreendi muito. Muitas das histórias narradas são inimagináveis. Há muito dos bastidores da carreira de Rita, sua relação com as drogas, seu amor pelos animais, sua resistência política, o afeto que unia os membros de sua família, suas paixões…