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Aurora (O Despertar da Mulher Exausta), de Marcela Ceribelli | Resenha

Quem vive em grandes centros urbanos, é usuário recorrente das redes sociais, precisa trabalhar para pagar os boletos e ainda tem uma lista longa de obrigações para tentar atender as exigências e pressões que a sociedade exerce em nós, está exausto. Estamos chegando – ou extrapolando – nossos limites e assuntos como saúde mental, solidão e falta de tempo livre vêm à tona.

Apesar de ser um livro destinado para as mulheres – exaustas -, posso dizer que me identifiquei muito com algumas discussões e reflexões trazidas por Marcela Ceribelli. A autora utiliza o acervo de conversas que teve no comando do podcast “Bom dia, Obvious” e, em conjunto com suas próprias vivências, discorre sobre os temas e angústias atuais vividos pelas novas gerações.

É uma escrita fácil e divertida, com passagens que me fizeram pensar: achei que só eu passava por isso. Ou seja, mais uma vez os livros nos mostram que não estamos sozinhos e a quantidade de “Auroras” vendidas nas livrarias deixa isso ainda mais evidente. A leitura ainda me ensinou mais sobre temas importantes relacionados à imagem que a sociedade tenta impor às mulheres, como maternidade e a relação com o corpo.

Não leio tanto livro de não ficção, mas fica minha super recomendação de uma leitura com temas atuais e que precisam ser debatidos. Ao trazer a opinião dos especialistas que passaram por seu podcast, a obra fica ainda mais rica e deixa de ser uma simples opinião para também ser um texto informativo.

#DesafioBookster2024 | Janeiro

Mês: Janeiro
Sentimento: Saudade
Livro: Aos prantos no mercado, de Michelle Zauner

Saudade. Uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa, na minha opinião, e que não encontramos em outros idiomas. É um substantivo que significa muito e que dói, emociona e também pode ser um recipiente de boas memórias.

A gente começa um ano com saudades dos bons momentos vividos, dos encontros e de quem nos deixou em 2023. E é sobre essa forma mais devastadora da saudades que Michelle Zauner aborda em seu romance: a perda de uma das pessoas mais importantes de sua vida, a sua mãe.

Um livro que foi muito indicado para mim e que já estava na minha lista de próximas leitura. 2024 promete começar com uma leitura marcante e emocionante!

Sinopse:

“Nele, vemos a protagonista, que atravessa o luto pela morte precoce da mãe, liberando o pranto represado ao percorrer as prateleiras do mercado coreano H Mart em Nova York. (…) Enquanto a saudade da mãe coloca em perspectiva as antigas rebeliões da adolescência e atenua o rigor do julgamento das escolhas feitas pelos pais, a comida representa uma espécie de tábua de salvação na qual Zauner navega os descaminhos dos últimos e dolorosos momentos da mãe.”

@fosforoeditora
284 páginas
Tradução: Ana Ban

Desafio Bookster 2024

Desafio Bookster 2024
Tema: Sentimentos humanos

Booksters, antes de tudo: feliz ano novo! Agora, chegou o momento mais esperado! Bora iniciar as nossas leituras de 2024 com o melhor desafio dessas redes. Como venho fazendo há alguns anos, hoje lanço o #DesafioBookster2024, um projeto para lermos 12 livros juntos durante o ano, 1 por mês, seguindo um tema escolhido por mim.

E para esse ano, a ideia é lermos livros que abordam sentimentos humanos em suas narrativas e na construção de seus personagens. E o que eu posso adiantar é que a lista está SENSACIONAL!Escolhi um sentimento para cada mês e uma obra para representá-lo.

E para participar é super fácil:

1. Alguns dias antes do início do mês eu conto qual o livro e o sentimento escolhido. Hoje mais tarde já sai o livro de janeiro! ?
2. Leia com a gente e participe do grupo no Telegram (link na Bio), em que eu compartilho mais conteúdo sobre o livro e autor, além de dividir com vocês minhas impressões ao longo da leitura.
3. Ao final do mês, tem vídeo no meu canal do Youtube com um convidado para conversarmos sobre a leitura!

Gostaram do tema de 2024? Quem vai participar?

Reparação, de Ian McEwan | Resenha

O autor britânico Ian McEwan sempre aparece na minha caixa de entrada, com leitores me recomendando algum de seus livros. E, sem qualquer dúvida, “Reparação” é o mais indicado e o queridinho de muitos por aí, ganhando maior repercussão depois que foi adaptado ao cinema, com o filme “Desejo e reparação”, indicado em várias categorias do Oscar de 2008. Mas será que é tudo isso que dizem?

Na minha opinião, é um livro maravilhoso e merece todos os elogios! Com pouco menos de 500 páginas, o romance de Ian McEwan serve um pouco de tudo: personagens bem construídos, pano de fundo histórico, escrita fluída e uma narrativa envolvente. O que mais podemos pedir? E o curioso é que demorei para seguir a recomendação de tantos seguidores por aqui, porque a sinopse não me chamava tanto a atenção. Mas o talento de McEwan nessa obra só me confirmou que eu preciso confiar mais em vocês!

A personagem principal é Briony Tallis, uma garota que passa o verão com sua família em uma casa de campo na década de 30, pré Segunda Guerra Mundial. Em um dia de muito calor, Briony vê da janela sua irmã mais velha tirando a roupa e entrando em uma fonte, enquanto um garoto a observa. Influenciada por esse acontecimento, a jovem acaba fazendo escolhas e acusações que vão segui-la por toda a sua vida. Um erro que poderá ser reparado?

A parte da infância de Briony, sua perspectiva do que está a sua volta e os fatos que circundam o acontecimento é, para mim, o ponto alto do livro. Mas o autor também consegue dar sequência à narrativa de forma impecável, desenvolvendo as complexidades psicológicas de cada personagem. Destaque também para a parte envolvendo a Segunda Guerra e para o epílogo.

“Reparação” é um daqueles livros que, durante a leitura, me pegava pensando: que incrível!!!!

Mata doce, de Luciany Aparecida | Resenha

Na narrativa criada em Mata Doce, a fronteira entre realidade e imaginação é fácil de ser ultrapassada. Maria Teresa, também conhecida como Filinha Mata-Boi, nasce em uma casa com duas mulheres fortes, guiadas pelo senso da espiritualidade e referências na comunidade local. Mariinha e Tuninha são companheiras e mães de uma garota, que pouco – ou quase nada – sabe de sua verdadeira origem.

Além da importância das pessoas que a criam, Maria Teresa é impactada pelo ambiente em que cresceu – e onde permanece para nos contar suas memórias. O casarão fica localizado em um município bem interiorano, de fazendas, que também serve de título para a obra. As rosas brancas que marcam a frente da residência acabam acompanhando a história de Maria Teresa.

No dia do seu casamento, no entanto, Maria Teresa testemunha uma tragédia e uma perda irreparável. O vestido de noiva passa a levar uma mancha que é impossível de se retirar. Mesmo a lavagem do tempo não é suficiente para desfazer manchas tão doídas. Desde esse dia, Filinha Mata-Boi segue uma vida diferente, sob a constante preocupação de suas mães.

A memória e os laços que ligam os marcantes personagens de Mata Doce são o guia dessa história. Em alguns momentos, senti falta de um ritmo que colocasse os acontecimentos em marcha Mas talvez tenha sido essa a intenção da autora: se aprofundar nas marcas da memória. A curiosidade de conhecer mais sobre a relação de Mariinha e Tuninha também me contaminou.

Nas cartas datilografadas por Filinha, encontramos a beleza da esperança de ser ouvido por quem não se sabe onde está e a tristeza que os traumas do passado insistem em alimentar. E, no fim, são esses os sentimentos que encontramos nas folhas e flores de Mata Doce.

Ratos e homens, de John Steinbeck | Resenha

Escolhi “Ratos e homens” para representar a época da Grande Depressão, o tema do mês de outubro do Desafio Bookster 2023. No livro publicado em 1937, do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, o contexto histórico é apresentado de forma sutil, em um ambiente de uma fazenda da Califórnia durante o período de recessão e em uma narrativa com poucos personagens. Os protagonistas são uma dupla de amigos, George e Lennie, que acabam migrando de um trabalho – em condições escassas – para outro na luta pela sobrevivência.

O livro é curto, com menos de 150 páginas, e a leitura é marcante. O ponto alto é a peculiaridade da relação entre os dois amigos, que acaba oscilando entre desentendimentos e uma necessidade de proteção e afeto. George acaba sendo o guia da dupla e quem se preocupa com as dificuldades de Lennie, um personagem com um porte físico forte e grande, mas que contrasta com seus problemas de relacionamento. A humanização daqueles personagens, que vivem em um cenário de tanta falta, é cativante.

Ao longo da leitura, vamos percebendo a falta de perspectivas daqueles personagens. Não há uma saída daquela situação, não há um plano B, mas apenas a necessidade de se apegar a um futuro imaginário. Caso contrário, a falta de esperança consome aqueles homens que estão condenados a uma situação de miséria. A injusta relação entre os donos de terra e os explorados também é abordada por Steinbeck.

Não é à toa que o livro se tornou um clássico da literatura norte-americana do século passado, junto com outra obra incrível do autor, “Vinhas da ira”. Os diálogos também são criados para refletir a simplicidade e o modo “caipira” dos trabalhadores da fazenda. Acho interessante como o processo de tradução em situações como essa deve ser desafiador. Nessa edição, a tradutora Ana Ban conseguiu fazer um ótimo trabalho. Recomendo muito, adorei a leitura!

PS: tem vídeo sobre a leitura, com especialistas no tema, em meu canal do YouTube.

O encontro marcado, de Fernando Sabino | Resenha

“Parece qualidade fora de moda, essa de um livro ’prender’. Acho qualidade essencial, invejável. (…) A primeira pausa, a primeira mesmo, vem exatamente e apenas no fim.” Foi assim que Clarice Lispector descreveu a experiência de ler esse clássico da literatura brasileira. Publicado em 1956, a obra do escritor mineiro Fernando Sabino é um brilhante romance de formação de um jovem escritor, Eduardo Marciano.

A nova edição comemorativa pelo centenário de Sabino já inicia com um texto do autor brasileiro Michel Laub – de quem gosto muito – sobre a relevância da obra para a literatura nacional. Comecei a narrativa sem muito saber sobre o estilo do autor e fiquei impressionado, logo no início, com o ritmo que ele consegue impregnar em seu texto.

Com o passar dos anos, o protagonista passa a viver uma longa crise existencial, questionando o verdadeiro sentido da vida. Em uma história marcada por bares e conversas filosóficas com seus amigos e com outros personagens que encontra ao acaso, Eduardo acaba descortinando os conflitos de uma geração. São relacionamentos problemáticos, insatisfações profissionais e falta de sonhos. E, para complementar, Eduardo é um personagem que não gera qualquer admiração pelo leitor (para dizer o mínimo).

A forma com que o autor construiu o texto é peculiar. Diálogos que vão se alternando, em
situações e com personagens distintos. Em alguns momentos, o leitor precisa ficar mais atento, mas nada que tenha prejudicado a leitura. Pelo contrário: achei um estilo interessante, que refletiu um pouco do ar caótico que o protagonista transparecia. Um caos sem solução e, até mesmo, que sequer consegue ser compreendido.