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#DesafioBookster2024 | Junho

Mês: Junho
Sentimento: Afeto
Livro: Deus na escuridão, de Valter Hugo Mãe

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Booksters, vocês sabem que eu adoro esse autor! Esse é o livro mais recente do Valter Hugo Mãe e promete dar aquela aquecidinha no coração. Tô muito curioso pra mergulhar nessa história!

Sinopse:
“Como os pássaros, os irmãos Pouquinho e Felicíssimo vivem nas alturas, em casas incrustadas em uma rocha íngreme na pequena comunidade do Buraco da Caldeira, na Ilha da Madeira. É ali, entre a natureza indomável, uma paisagem mítica e a fé imensurável, que eles passam os seus dias em meio à labuta diária, movidos por um amor sublime, que corteja o divino. Desde o nascimento de Pouquinho, Felicíssimo soube que lhe caberia a função de cuidar do irmão caçula, que nasceu com uma condição física incomum e flanava em algum lugar entre o estranho e o santificado. Felicíssimo, porém, aceita desde o primeiro momento esse compromisso não como um dever, mas como um ato supremo de afeição.”

E vocês já sabem, né? No final do mês teremos uma live no YouTube com um convidado super especial para conversar sobre essa obra.

Quem vem com a gente? Acompanhe tudo no grupo do Telegram (link na bio).

@editorabibliotecaazul
240 páginas

Felicidade conjugal, de Liev Tolstói | Resenha

Felicidade conjugal, de Liev Tolstói

Ler Tolstói é sempre uma experiência marcante, porque une uma narrativa envolvente com uma construção talentosíssima dos personagens. O autor russo sabe como poucos descrever as nuances das relações sociais e, em “Felicidade conjugal”, Tolstói coloca o seu conhecimento sobre o ser humano a partir de uma perspectiva feminina – o que não é comum em suas obras.

A jovem Mária Aleksandrôvna, orfã de mãe e pai e herdeira de muitas terras, se apaixona pela primeira vez. O destinatário desse sentimento perturbador é um amigo do seu pai, vinte anos mais velho e que até então nutria um afeto ingênua por Mária. Aos poucos, Sierguiéi Mikháilitch começa a perceber o interesse da jovem e, apesar de uma desistência inicial, passa a corresponder o sentimento. De filha do seu amigo, Mária passa a se tornar o seu mais novo interesse.

Na segunda parte da obra, acompanhamos o amadurecimento da relação entre os dois. É justamente essa transformação do sentimento da paixão para o amor, assim como a descrição das diferentes fases do amor, que torna esse livro tão bom. O que parecia ser uma relacionamento imune a tentações, acaba enfrentando desafios a partir do momento em que o casal não está mais a sós.

E para deixar a leitura ainda mais interessante, não se pode deixar de considerar que a obra foi publicada em 1859 e retrata os comportamentos e os sentimentos de uma mulher corajosa e que desafia os costumes mais tradicionais daquela época. O retrato da sociedade russa do século XIX e os contrastes entre a realidade rural e das grandes cidades também é um aspecto muito enriquecedor da obra.

São muitas as reflexões que o livro traz sobre a complexidade e a universalidade do sentimento. Apesar de ser um leitor nascido tantos anos depois, é impossível não se identificar com as descrições construídas pelo autor. Se você nunca leu nada do autor, essa pode ser uma ótima opção. Tolsói é genial!

Ps: escolha uma edição com tradução direta do russo, como essa da @editora34 que mostro no vídeo.

Uma mulher, de Annie Ernaux | Resenha

Não costumo dizer isso, mas cada vez mais fico convencido de que Annie Ernaux é uma daquelas autoras que você precisa ter em sua estante. E o que me surpreende é que a ganhadora do Nobel de Literatura de 2022, utiliza uma escrita simples e seca para construir seus textos.

Apesar de ter mais de 20 livros publicados, a Ernaux mantém um padrão em seus textos: mergulhar nas suas memórias, de uma forma pouco pessoal e sem deixar de lado o contexto social em que ela e os personagens importantes de sua vida estão inseridos.

E é isso que vemos em “Uma Mulher”, o mais novo livro publicado pela @fosforoeditora no Brasil. Nele, a autora constrói em pouco mais de 60 páginas a história de sua mãe. Uma mulher que nasceu em uma pequena cidade da Normandia, na França, e que trabalhou desde cedo. Uma mulher que tentou sempre se diferenciar dos seus iguais, mas que também enfrentou dificuldades ao se enquadrar em uma nova realidade, de menos dificuldades e mais recursos. A forma como a autora mistura as memórias com esse aspecto social dos personagens é um dos pontos mais interessantes para mim.

E a relação entre as duas também é retratada nas páginas escritas nos meses seguintes à morte da mãe, em 7 de abril de 1986. Ernaux tenta equilibrar a emoção pelos momentos difíceis ou amorosos que teve, com os fatos da vida de uma mulher corajosa e dura. Os anos finais, quando sua mãe sofria com o Alzheimer, também é narrado pela autora. É dolorido ter que se tornar mãe daquela que sempre foi a responsável pelo nosso cuidado.

E é na universalidade dos temas tratados pela autora que a gente consegue se identificar e se aproximar do texto. Se Ernaux às vezes não sabe porque escreve o texto, para o leitor essa dúvida não tem importância, já que a experiência da leitura confirma a relevância da autora.

Leiam Annie Ernaux. E se você nunca leu nada da autora, essa pode ser uma boa primeira opção!

O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry | Resenha

O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry

Por que um livro aparentemente infantil, publicado há mais de 80 anos, ainda conquista leitores pelo mundo todo e – o mais impressionante – de todas as idades? Para mim, “O pequeno príncipe” é a típica obra que se encaixa no conceito de clássico: as mensagens transmitidas pelo autor francês são universais, próprias da condição humana.

E o que torna o livro ainda mais interessante é que ele consegue atrair uma criança pelo enredo, mas também tocar o adulto por meio das reflexões construídas de forma tão simples. Ler “O pequeno príncipe” em diferentes fases da vida é uma prova do nosso amadurecimento e da capacidade de nos conectar com as narrativas a depender daquilo que vivenciamos.

Um piloto de avião (assim como era o autor) cai em um deserto. Ele carrega frustrações desde sua infância, por fazer desenhos que ninguém conseguia compreender. Quando se imaginava sozinho, encontra uma figura peculiar: um jovem príncipe, que chega na Terra carregado por um asteroide e que diz ter saído de um pequeno planeta. O pequeno príncipe viaja por diferentes lugares, em busca de novas aventuras, experiências e de respostas.

E é contando o que já viveu que esse personagem inesquecível começa um diálogo com o piloto – que também é o narrador da história. A conversa vai por diferentes caminhos e convida o leitor a refletir sobre nossos valores, o sentido da vida e os sentimentos. Vivemos para chegar a algum lugar, sem aproveitar os momentos. Os desenhos, que traziam uma sensação de frustração ao narrador, também ganham relevância ao longo da obra, em conjunto com outros personagens que vão surgindo.

#DesafioBookster2024 | Maio

Mês: Maio
Sentimento: Culpa (mas prometo que o livro promete ser alto astral, hehe)
Livro: Sr. Loverman, de Bernardine Evaristo

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Eu sei que vocês estão me pedindo sentimentos mais para cima, mas prometo que esse livro será mais animado, hehe!

Desde que soube desse livro, eu já sabia que ele entraria para o #DesafioBookster2024! Recém publicado no Brasil, a obra da maravilhosa escritora anglo-nigeriana Bernardine Evaristo, autora de “Garotas, mulheres e outras”, que eu li recentemente e adorei (tem resenha aqui), me despertou muito interesse!

Sinopse:
“Barrington Jedidiah Walker é um homem que chegou longe. Nascido em Antígua, no Caribe, migrou para Londres depois de casar-se com Carmel. Juntos, formaram uma família e alcançaram um nível de conforto material que poucos conseguem ter. Inteligente e vaidoso, só usa ternos elegantes e nunca perde a oportunidade de citar Shakespeare em conversas casuais. O que ninguém sabe é que ele leva uma vida dupla: há décadas mantém um caso extraconjugal com Morris, seu amigo de infância. Aos 74 anos, Barry finalmente decide divorciar-se de Carmel para viver com seu verdadeiro grande amor ― mas isso significa colocar em risco tudo o que conquistou.”

E vocês já sabem, né? No final do mês teremos uma live no YouTube com um convidado super especial para conversar sobre essa obra.

Quem vem com a gente? Acompanhe tudo no grupo do Telegram (link na bio).

@companhiadasletras
329 páginas
Tradução: Camila von Holdefer

Nove histórias, de J. D. Salinger | Resenha

Nove histórias, de J. D. Salinger

Embora o autor norte-americano J D Salinger seja conhecido mundialmente por “O apanhador no campo de centeio”, publicado em 1951 e com dezenas de milhões de cópias já vendidas, o seu talento de escrever histórias curtas é até mais festejado por quem é fã de seu trabalho.

Em “Nove histórias”, publicado alguns anos depois e reunindo nove contos, somos apresentados para alguns membros da família Glass, que serão melhor aprofundados em suas próximas obras. Os temas da infância e adolescência ganham enfoque nos contos, assim como o período do pós-guerra e a hipocrisia da classe burguesa em um momento de tantas cicatrizes. Apesar de alguns pontos em comum, as histórias são bem diferentes entre si.

Os dois contos mais famosos “Um dia perfeito para peixes-banana” e “Para Esmé — com amor e sordidez” também foram os que mais gostei. Não sei se fui influenciado pela notoriedade das histórias ou se a fama realmente é uma consequência da potência sútil que Salinger confere para as duas narrativas. Neles, há uma interessante reflexão sobre a inocência e os traumas. “O Gargalhada” também foi um texto que me prendeu muito, ao mesclar dois pequenos enredos completamente distintos, mas que instigam o leitor em uma mesma intensidade.

Se você só conhece Salinger pelo seu romance mais famoso, que inclusive não agrada todos os leitores, não deixe de conhecer seus textos mais curtos. Por trás de histórias aparentemente simples e banais, “Nove histórias” aborda temas complexos relacionados às emoções e conflitos humanos.

A casa dos coelhos, de Laura Alcoba | Resenha

A casa dos coelhos, de Laura Alcoba

Gosto muito de livros escritos a partir da perspectiva das crianças. Quando bem construídos, nos revelam uma análise dos acontecimentos de uma forma mais pura, ingênua e livre dos preconceitos que a sociedade vai nos impondo ao longo do nosso amadurecimento. Na minha opinião, a autora nascida na Argentina, e que ainda criança se mudou para a França, consegue nos apresentar essa visão com uma voz muito crível, talvez até por conta dos traços autobiográficos por trás dessa narrativa.

Somos transportados para o país de origem da autora. É o cenário da ditadura argentina, na década de 70. A protagonista é uma criança que acaba vivendo nos bastidores do conflito que assola o país. Na casa dos coelhos. Seus pais fazem parte do grupo de resistência e acabam embarcando a filha em sua luta ideológica.

A sensação do medo de ser descoberto e da necessidade de se esconder a todo momento chega a ser sufocante. A clandestinidade é sofrida, mas na cabeça de uma criança se torna confusa e até um pouco inofensiva. Será que a protagonista tem consciência do que poderá acontecer com seus pais se eles forem pegos? E se esconder significa abrir mão de uma vida normal. Uma infância que precisa ser roubada por uma luta que a princípio vale mais.

Os temas são complexos e delicados, mas a leitura consegue ser fluida, até como consequência da voz de uma garota. Li em poucos dicas e senti que queria mais. A boa notícia é que “A casa dos coelhos” é o primeiro de uma trilogia autobiográfica. Estou gostando muito de ler obras no estilo Annie Ernaux, de autoficção, e talvez por isso tenha gostado tanto do estilo da autora e da forma com que ela constrói a narrativa. Recomendo!

Nota 9/10