Salvar o fogo, de Itamar Vieira Junior | Resenha

A expectativa do mercado literário estava grande, quase 40 mil exemplares vendidos na pré-venda, e não tinha como ser diferente. A obra antecessora do autor conseguiu um feito que não se via há décadas: um livro contemporâneo nacional furou a bolha para vender mais de 700 mil exemplares. Gostando ou não do livro, essa conquista deve ser muito celebrada por quem se importa com a leitura em nosso país.

E também não há como ignorar as recentes críticas acadêmicas negativas sobre a obra. No entanto, na minha opinião como leitor, o novo livro de Itamar já é um sucesso. É verdade que ele segue um estilo muito semelhante de “Torto arado”, mas em momento senti que a proposta do autor foi ser inovador. Há, inclusive, referência a personagem de seu primeiro romance.

“Salvar o fogo” nos leva a um cenário característico do nosso país. Tapera é uma comunidade na zona rural da Bahia e com moradores de origem afro-indígena. É o resultado de um país miscigenado, contando ainda com a presença do homem branco europeu a partir da figura da igreja católica.

O início da leitura já me prendeu. O mosteiro construído há alguns séculos se alterna como pano de fundo com a casa da família que será o centro da narrativa. As críticas à igreja e sua hipocrisia têm lugar relevante nessa primeira parte. Ao se deparar com os personagens que emprestarão sua voz para nos guiar na narrativa conseguimos compreender que, apesar de uma realidade de pobreza e faltas, a complexidade de suas vivências não os torna menores que os grandes donos das terras.

Luzia, a personagem mais fascinante da obra, é atacada pelos demais cidadãos de Tapera por seus supostos dons sobrenaturais. Sua deformidade física ainda a torna vítima de piadas. Mas é na força m de Luzia, e nos segredos que acompanham seu passado, que o autor consegue construir a sua personagem mais emblemática.

Senti que o ritmo diminuiu um pouco na segunda parte da obra, mas nada que tenha prejudicado a experiência da leitura. Com “Salvar o fogo”, Itamar se mantém como um dos principais nomes da literatura nacional e, o mais importante de tudo, atraindo novos leitores ao prazer da literatura.

Açúcar queimado, de Avni Doshi | Resenha

“Eu estaria mentindo se dissesse que o sofrimento da minha mãe nunca me deu prazer”. Assim se inicia a obra de Avni Doshi, jovem autora norte americana e filha de imigrantes indianos. Finalista do Booker Prize de 2020, “Açúcar Queimado” traz a história de Anantara e sua difícil relação com sua mãe.

Enquanto a personagem principal narra a história, sua mãe sofre com uma demência e acaba se esquecendo de muitas lembranças. Anantara se vê na obrigação de cuidar da mãe, mas sofre com um conflito interno: como cuidar de alguém que nunca cuidou de mim quando deveria?

E para lidar com toda essa angústia, a personagem revisita seu passado. Sua mãe abandonou o marido quando Anantara ainda era criança e fugiu para uma comunidade mística, seguindo os passos e ensinamentos de um guru. Anantara se viu abandonada em muitos momentos, sofrendo pelas decisões de uma mãe completamente perdida e obcecada por uma entidade controversa.

Durante a leitura, fica muito evidente o ressentimento de Anantara pela infância que teve e como isso afetou a mulher que é hoje. Mas, ao mesmo tempo, não consegue virar as costas para aquele ser humano doente que, apesar de tudo, continua sendo sua mãe.

Com uma escrita tranquila, Avni Doshi toca em temas delicados, questionando a idealização da maternidade. Também achei muito interessante entender um pouco mais sobre o papel da mulher na sociedade indiana. Mas vale dizer que as idas e vindas da autora, que mescla passado e presente, podem tornar a leitura um pouco confusa em alguns momentos. Por isso, não espere uma narrativa linear.

Gostei da leitura, que se mostra uma boa oportunidade de ler sobre um universo distante do nosso. Terminei o livro animado pelo que uma autora tão jovem ainda poderá escrever!

O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas | Resenha

A obra é, sem dúvidas, um dos principais marcos da literatura mundial. Um clássico que com suas quase 2 mil páginas pode assustar alguns leitores. Mas desde já eu te garanto: pode colocar esse livro na lista das próximas leituras. O enredo é muito bem construído e, apesar de ter sido escrito em 1844, a escrita é bem tranquila. Daqueles livros que você vai passando as páginas sem nem perceber.

E por trás de tantas páginas temos intrigas, mortes, prisões, amores, traições…. De tudo um pouco! Mas o tema principal de O Conde de Monte Cristo é a vingança. É, inclusive, umas das principais referências sobre o tema. E de onde surge tamanha vingança?

O personagem principal é Emdond Dantés, um jovem simples, sem muitos recursos, que se apaixona por uma bela jovem, com quem pretende casar. Sua vida, no entanto, é completamente abalada por uma traição. Dantés é vítima de um complô, que o leva para trás das grades de uma prisão isolada. O personagem perde tudo o que tinha, sem ter feito nada que justificasse sua queda.

E é a partir desse cenário tão cruel que Dantés, com a ajuda de um prisioneiro pouco convencional – e com ideias bem criativas -, começa a planejar sua fuga e todo o seu plano de vingança contra os responsáveis por sua situação.

Não quero me alongar no enredo, porque são muitos detalhes, personagens e reviravoltas. E tudo isso acontece em um contexto histórico bem interessante: a narrativa inicia em 1815, quando Napoleão Bonaparte está no poder, e atravessar muitos anos. Assim, além de mergulhar em uma trama completa, o leitor ainda se depara com parte importante da História francesa e da estrutura social daquela época.

Em resumo, é um livro sensacional! Foram três meses de leitura, junto com outras obras, que acabaram fazendo falta depois de terminar as últimas páginas. Indico muito essa edição da @editorazahar, com um excelente tradução, comentários e lindas ilustrações. Ah, e tem uma live salva aqui no meu perfil com um dos tradutores dessa edição.