Serotonina, de Michel Houellebecq | Resenha

Você gosta de encontrar personagens que te causam raiva e uma sensação de aversão? Há autores que têm essa característica e conseguem, por meio das palavras, construir personas controversas, usando dessa habilidade para tocar em temas polêmicos e sensíveis.

Em Serotonina, um dos principais nomes da literatura francesa contemporânea nos apresenta um personagem detestável: Florent-Claude Labrouste. Na casa dos 40, o protagonista passa os dias reclamando de sua vida e enfrentando os efeitos colaterais dos antidepressivos que toma. Florent-Claude também analisa as situações ao seu redor, com críticas ácidas e controversas.

Sua vida sofre uma virada quando descobre que sua atual companheira fez vídeos pornográficos. Essa notícia faz com que o protagonista decida se mudar, passando a viver em um hotel. Seu trabalho também fica para trás. E com mais tempo livre, Florent-Claude passa a relembrar seu passado, sobretudo suas antigas relações amorosas.

E nessa nova fase de vida parece que o descontentamento do protagonista com o que existe ao seu redor aumenta. Ele entra em um estado ainda mais melancólico e carrancudo, o que causa uma certa tristeza no leitor. As suas viagens pela Normandia parecem ser uma possível resposta para dias melhores, mas cabe ao leitor aguardar. Na verdade, uma tragédia pode até piorar a situação.

Essa foi minha primeira leitura de uma obra de Houellebecq e confesso que gostei do seu estilo de criar personagens destestáveis. Será que nós, leitores, gostamos de acompanhar a desilusão pelo mundo? Com Florent-Claude, estamos diante de críticas à contemporaneidade, por meio de pensamentos problemáticos e embebidos de machismo e relator pornográficos. Uma leitura polêmica e que causa desconforto no leitor. Adorei!

O filho eterno, de Cristovão Tezza | Resenha

Publicado em 2007, o livro venceu os principais prêmios literários e aborda os conflitos de um pai que descobre que o seu filho recém nascido tem síndrome de Down. O romance também possui um forte aspecto autobiográfico, que deixa a realidade criada pelo autor ainda mais potente.

Confesso que, até ler O filho eterno, tinha lido poucos livros que abordavam a temática de pessoas com deficiência. E quando iniciei a leitura, fui surpreendido com um forte incômodo, já que o pai de Felipe não poupa o leitor na hora de expressar a sua decepção com o diagnóstico do filho. Ainda que a narrativa se passe no final do século passado, em que o conhecimento e as discussões sobre capacitismo fossem menos profundas, é difícil não sentir um desconforto com a figura do pai. Seus pensamentos chegam a ser cruéis, um reflexo de uma sociedade ignorante e repleta de preconceitos.

Aos poucos o protagonista começa uma trajetória em busca de especialistas que pudessem garantir uma condição melhor de vida para o Felipe. São poucos dias de vitórias, que se destacam a uma rotina difícil e frustrante. O pai tem dificuldades de lidar com as expectativas de que se filho se comportará igual a outras crianças típicas, mas com o tempo vemos um fortalecimento na relação entre os dois. Se no início existia uma certa rejeição na ideia de ter um filho com síndrome de Down, o personagem principal vai percebendo que não consegue mais se imaginar vivendo sem todo aquele amor.

É uma narrativa muito mais voltada ao pai, um escritor insatisfeito, com mergulhos nas suas memórias mais antigas. Felipe aparece de uma forma secundária, a partir da reação de seu pai com as dificuldades e conquistas da relação paternal. Uma das passagens que mais me tocou foi sobre a capacidade de amar que o filho possui. Felipe sabe amar incondicionalmente, o que o destaca em relação as demais crianças.

A leitura é impactante e, ao gerar um desconforto no leitor, nos faz refletir sobre temas importantíssimos relacionados a pessoas com deficiência e paternidade.

Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo | Resenha

Para quem já leu alguma obra de Conceição Evaristo, um dos principais nomes da literatura nacional, sabe que a potência de suas narrativas está, em boa parte, na força das suas personagens mulheres. Em “Canção para ninar menino grande”, no entanto, temos uma característica que a distingue dos demais livros: a narrativa tem como personagem principal uma figura masculina, Fio Jasmim. Mas, mesmo assim, as mulheres ainda têm papel central na obra, já que a vida do protagonista é contada a partir da perspectiva das mulheres com que se relacionou.

Trabalhando como assistente de maquinista de um trem, a cada parada o personagem conhece novas mulheres que vivem naquelas cidades por ele desconhecidas. E em cada capítulo, encontramos uma história diferente dessas mulheres que se apaixonaram e, de algum modo, foram abandonadas por esse personagem tão marcante.

E o que eu achei muito interessante é que, da mesma forma que a autora escreve sobre mulheres que sofrem com a desilusão de uma masculinidade tóxica, Conceição também aborda os problemas dos estereótipos que envolvem o homem negro. Como Fio Jasmim lida com a imagem de uma figura sempre viril e apaixonante? O que aos poucos vamos percebendo é que talvez essa vontade insaciável de Fio Jasmim também seja um reflexo da sua própria carência, em uma busca de preencher um vazio interno. É uma tentativa de exercer o papel de príncipe que a ele foi negado.

Como bem descreveu Jerferson Tenório, o autor de “O avesso da pele”, esta obra é um “mergulho na poética da escrevivência”. Gostei demais das histórias contadas por Evaristo e terminei o livro curto querendo saber mais sobre o que cada uma daquelas mulheres ainda tinha para contar. Leiam Conceição Evaristo!

Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez | Resenha

Que eu sou fã de carteirinha do Gabo, vocês já sabem. Mas eu tenho uma história de infância envolvendo essa obra. Nunca vou esquecer de, em uma viagem de navio que fiz com meus avós paternos, ver minha avó lendo um mesmo livro em vários momentos daquelas férias. Eu devia ter uns 10 anos e, como um bom curioso, resolvi fuçar para saber o título que ela tinha em mãos. Fiquei em choque quando eu vi: minha avó estava lendo uma obra sobre putas tristes? A minha imaginação foi longe para tentar descobrir qual seria a história naquelas páginas.

E foi só depois de cerca de 20 anos que resolvi dar a chance para a obra, que foi o último romance publicado pelo autor. Com um tema bem polêmico – e de difícil digestão – narra os dias de um homem que acaba de completar 90 anos. Enquanto relembra seu passado como jornalista e filho de uma família aristocrata em decadência, o personagem tentar encontrar o seu presente de aniversário: uma prostituta virgem.

Apesar de ser um frequentador costumeiro de prostíbulos, a experiência com uma virgem seria inédita. A situação fica ainda mais incômoda para o leitor quando se descobre que a mulher ofertada seria uma adolescente. Para um homem que nunca teve um amor em toda sua vida, a situação parece sair do controle depois que ele conhece a jovem.

É, acima de tudo, um relato de um velho decadente, que viveu uma vida solitária e mimada. Aos 90 anos, decide fazer um acerto de contas com seu passado enquanto percorre por suas memórias. Gosto muito da escrita do Gabo e de sua habilidade em contar histórias, e, apesar da polêmica de temas tratados, gostei muito da leitura. Na minha visão, não há uma romantização da relação do velho com a adolescente, mas sim o retrato melancólico da decadência humana. E a repulsa sentida pelo leitor é inevitável.

A amiga genial, de Elena Ferrante | Resenha

A tetralogia da autora italiana de identidade misteriosa virou um dos livros mais comentados dos últimos anos. Aqui no @book.ster, “A amiga genial” era uma das obras que vocês mais me pediam para ler. Ao mesmo tempo, alguns leitores opinavam que talvez a leitura não me agradaria e que, por envolver uma descrição tão íntima do universo feminino, não conseguiria ser captada de forma tão intensa por mim.

Na cidade de Nápoles, no sul da Itália, Elena narra a sua história sob o enfoque de sua amizade com uma garota excêntrica, Lila Cerulo. Ainda crianças, as duas compartilham seus desejos, medos e primeiros amores. As diferenças também geram intrigas e inveja, assim como aos poucos a maturidade vai ensinando que a amizade pode resistir a decepções. É uma relação muito bem construída por Ferrante, que retrata sentimentos e vivências com as quais podemos nos identificar – e é aqui que um mulher possa sentir uma maior identificação.

A educação também tem um papel central e a forma como vai ocupando a narrativa serve como uma denúncia das consequências de uma desigualdade social. Uma das meninas se vê impedida de perseguir seu sonho e a amizade acaba sofrendo com essa fenda que vai distanciando os seus caminhos.

Além de abordar o universo feminino, Ferrante consegue descrever a atmosfera caótica da cidade italiana de forma muito precisa, em um bairro barulhento e repleto de brigas e fofocas. A parte histórica fica por conta do cenário de pós-guerra, em que as famílias sofrem as consequências das mudanças sociais a depender de seu papel naquela comunidade.

Ainda que a primeira metade tenha sido mais lenta e desanimadora para mim, ao acompanhar uma fase infantil das personagens principais, gostei muito da escrita da autora. Na segunda parte, o ritmo de leitura melhorou e consegui entender um pouco mais o motivo de tantos leitores devorarem a tetralogia em pouco tempo. A últimas páginas são igual o final de capítulo de novela e já atiçam o leitor para seguir o caminho de vida das garotas. Com certeza não pararei por aqui!

Nêmesis, de Philip Roth | Resenha

19 de março, Philip Roth completaria 90 anos. Publicado em 2010, Nêmesis foi o último romance escrito pelo autor norte-americano e o escolhido para o mês de fevereiro do #DesafioBookster2023, em que a proposta era buscar um livro relacionado com o tema das epidemias/pandemias.

Em “Nêmesis”, Roth narra a epidemia de poliomielite que fez inúmeras vítimas na década de 40 e 50 nos Estados Unidos. O cenário para o romance é um bairro judeu periférico, mais especificamente o pátio de sua escola. Bucky Cantor, um jovem professor de educação física, é o responsável por tomar conta dos estudantes que brincam no pátio.

A vida de Bucky toma rumos desafiadores quando adolescentes cospem no chão do pátio para tentar disseminar a doença contra os judeus daquele bairro. A partir disso, o medo de contrair a doença, que naquela época podia ser fatal, e a falta de informação acabam tornando a vida dos cidadãos um pesadelo. Em um verão muito quente, as crianças se veem presas em casa. As mortes de crianças começam a surgir e a impotência diante de uma doença incontrolável toma conta do protagonista.

Ao longo da leitura, foi impossível não se identificar com a narrativa diante do que vivenciamos com a pandemia do Coronavirus nos últimos anos. A doença invisível toma conta da vida daquela cidade e, quando não faz uma vítima fatal, acaba deixando graves sequelas irreversíveis. O que torna ainda pior a situação é o desconhecimento sobre a doença, quando os avanços da medicina ainda eram mais limitados.

O livro, que venceu o International Booker Prize de 2011, é denso e para alguns leitores pode parecer arrastado. Um dos temas mais presentes no livro é a sensação de culpa que passa a acometer Bucky e o persegue no decorrer da história. Eu gostei do desenvolvimento da narrativa e, para mim, o ritmo mais lento serviu para mostrar a própria impotência do personagem principal. Um destaque para a parte final, que mostra o lado mais subjetivo de quem não consegue superar os fantasmas interiores.

O Lugar, de Annie Ernaux | Resenha

Esse foi o primeiro livro que li da vencedora do Prêmio Nobel de 2022. A leitura foi feita ano passado, antes mesmo do anúncio do Prêmio. Ou seja, fui sem conhecer muito o trabalho de Annie e também sem saber o que iria encontrar. E, no final, confesso que a leitura não me conquistou tanto. Foi uma experiência boa, mas não marcante, principalmente quando comparo com as duas outras leituras que acabei fazendo esse ano (Os anos e O acontecimento).

Em O lugar, encontramos o mesmo estilo da autora, que a deixou conhecida no mundo literário: a capacidade de escrever histórias envolventes a partir de suas memórias, mas com uma visão menos pessoal. Ela se distancia do que viveu, como se contasse as memórias de um outro.

Nessa leitura, inclusive, Annie faz isso de forma mais nítida, já que ela utiliza a figura do pai para refletir sobre a relação entre os dois e fazer uma análise de sua realidade social. Seu pai era um trabalhador simples, que passou pelas duas grandes guerras e viveu as transformações da França do século passado. Por outro lado, Annie teve uma ascensão social por ter tido a oportunidade de uma boa educação e de ingressar na Universidade. Seu livro é uma autossociobiografia.

A temática e a escrita são os pontos altos do livro, que conta com menos de 80 páginas. A forma como Annie relata a sua relação com o pai é muito objetiva e distante, o que, nessa caso, não me cativou tanto. Talvez isso tenha feito com que eu demorasse muito tempo para escrever essa resenha, como se eu precisasse entender o que aquelas poucas páginas deixaram em mim. Hoje, sei que o mais importante foi a vontade de conhecer outras obras da autora – o que, confesso, valeu muito à pena!

“Talvez eu escreva porquê não tínhamos mais nada para escrever um ao outro.”