Se Deus me chamar não vou, de Mariana Salomão Carrara | Resenha

Sou um grande fã de livros narrados por protagonistas infantis. Alguns autores realmente conseguem nos transportar para a visão ingênua e inteligente de um personagem que ainda está tentando entender o mundo a sua volta. No caso de “Se Deus me chamar não vou”, de Mariana Salomão Carrara, um dos principais nomes da jovem literatura contemporânea nacional consegue fazer isso de forma impactante e espirituosa, tocando em temas sensíveis que despertam a reflexão no leitor.

Maria Carmem tem apenas 11 anos. A garota se sente solitária, ajuda na loja de seus pais voltada para produtos para idosos, também conhecida como “loja de velhos” e é alvo de bullying pelos seus colegas de sala. O ambiente escolar nessa idade pode ser cruel: as crianças não costumam perdoar quem é diferente. E é a partir do diário da protagonista, que tem o desejo de se tornar escritora no futuro, que conseguimos acompanhar o desenvolvimento de suas reflexões. Ela deseja ser ouvida (e lida).

Não há dúvidas de que o sofrimento de Maria Carmem toca o leitor, criando uma conexão quase que instantânea com a nossa criança que se mantém dentro de nós pelas memórias. Quem já vivenciou de alguma forma episódios de bullying, vai se identificar ainda mais com a narrativa. No entanto, a inteligência da protagonista, misturada com sua ingenuidade diante dos aspectos mais complexos da vida, tornam a leitura instigante e até mesmo bem-humorada.

Também gostei de poder acompanhar a relação da garota com seus pais. Ela analisa detalhes da relação dos dois, mesmo com a tendência de simplificação típica das crianças, e acaba tendo que lidar com uma mudança peculiar com o surgimento de um novo personagem. Será que Maria Carmem terá espaço nessa casa cheia?

As poucas páginas da obra deixaram em minha a sensação de “quero mais”. Quero conhecer mais o universo de Maria Carmem, quero acompanhar sua adolescência e, acima de tudo, quero mostrar que ela não está sozinha. Leiam, leiam e leiam!

Em agosto nos vemos, de Gabriel García Márquez  | Resenha

O aguardado romance póstumo do amado Gabo, um dos meus autores favoritos, já inicia com uma mensagem dos seus filhos aos leitores: Ao julgar o livro muito melhor do que lembrávamos, nos ocorreu outra possibilidade: de que o declínio de suas faculdades mentais, que não permitiu a Gabo terminar o livro, também o impediu de perceber como ele estava bem-feito.

Hoje, data do seu aniversário, acontece o lançamento mundial do romance. Na origem, a ideia era criar cinco contos com uma personagem em comum, mas Gabo optou por uma linha narrativa única para essa novela. A personagem principal é uma mulher – o que é inédito para os textos de Gabo – próxima dos 50 anos, mãe de dois filhos e que vive um relacionamento morno e longo com um músico.

Todos os anos, em 16 de agosto, Ana Magdalena visita a ilha em que sua mãe está enterrada. A sua missão é fazer uma visita ao túmulo e levar flores para aquela que deixou apenas saudades. Aos 46 anos, no entanto, o seu roteiro na ilha sofre uma mudança marcante: ela se relaciona com um homem em uma noite de aventura. A partir disso, o dia 16 de agosto virá uma espécie de libertação e, a cada ano, Ana Magdalena busca novos encontros e experiências nunca vividas. É uma fase de redescoberta, que acaba invadindo os outros espaços de sua vida.

A leitura foi diferente e destoou dos seus outros livros. Em alguns momentos fiquei tentando encontrar aquele Gabo com quem estou acostumado e que tem uma presença tão forte na minha estante. O livro é curto e ver a protagonista tomando conta de suas próprias vontades foi interessante. Leitura gostosa, mas que não me encantou.

A edição é linda, em capa dura, e traz fac-símiles com observações feitas pelo autor. Isso nos aproxima de Gabo. Mas confesso que fiquei com um misto de sensações: a tentação de ler uma nova obra do autor e a sensação de traição por acessar um texto que ele decidiu não publicar. Como seus filhos escreveram, confiamos que o autor entenda essa vontade que temos de consumir tudo o que leva o seu nome.

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As pequenas chances, de Natalia Timerman | Resenha

A preservação da memória daqueles que amamos e a busca pela história de quem antecedeu. É a partir de um texto pessoal, com are de autoficção, que Natalia nos apresenta esses temas tão sensíveis.

Tudo começa com um encontro não marcado: a protagonista, que leva o mesmo nome da autora, encontra o médico de cuidados palitivos que atendeu o seu pai nos seus últimos dias de vida. Um breve dialogo entre os dois desperta na protagonista as memórias da perda e dos impactos que um doença tão agressiva trouxe para as pessoas próximas do paciente. E quando a morte chega, a sua marca é sentida para sempre. Não adianta lutar, mas será que é possível nos reconciliarmos com a falta definitiva?

Quem já perdeu alguém próximo não consegue passar intocado pelas palavras da autora. Seu texto desperta identificações em quem lê, como uma recordação de que com os livros encontramos um eco das dores que vivemos. E, ao compartilhar todo o ambiente familiar que circunda a personagem, essa dor acaba encontrando acolhimento.

Também gostei muito da segunda parte do livro, em que a autora parte em busca da história de sua família. Toda essa situação despertou em mim a vontade de procurar saber mais sobre aqueles que, apesar de compartilharem tanto comigo, são muito pouco conhecidos por mim.

Talvez por conhecer a autora e a similaridades com sua história, não conseguir ler o livro como um romance, mas sim como um texto autobiográfico. A relação dela com os acontecimentos nos dá a certeza de que muitos daqueles sentimentos vêm de experiências pessoais, o que aproxima o leitor. As alegrias, a saudade e a dor da ausência são reais e muito bem descritas. Livro lindo e sensível!

Aurora (O Despertar da Mulher Exausta), de Marcela Ceribelli | Resenha

Quem vive em grandes centros urbanos, é usuário recorrente das redes sociais, precisa trabalhar para pagar os boletos e ainda tem uma lista longa de obrigações para tentar atender as exigências e pressões que a sociedade exerce em nós, está exausto. Estamos chegando – ou extrapolando – nossos limites e assuntos como saúde mental, solidão e falta de tempo livre vêm à tona.

Apesar de ser um livro destinado para as mulheres – exaustas -, posso dizer que me identifiquei muito com algumas discussões e reflexões trazidas por Marcela Ceribelli. A autora utiliza o acervo de conversas que teve no comando do podcast “Bom dia, Obvious” e, em conjunto com suas próprias vivências, discorre sobre os temas e angústias atuais vividos pelas novas gerações.

É uma escrita fácil e divertida, com passagens que me fizeram pensar: achei que só eu passava por isso. Ou seja, mais uma vez os livros nos mostram que não estamos sozinhos e a quantidade de “Auroras” vendidas nas livrarias deixa isso ainda mais evidente. A leitura ainda me ensinou mais sobre temas importantes relacionados à imagem que a sociedade tenta impor às mulheres, como maternidade e a relação com o corpo.

Não leio tanto livro de não ficção, mas fica minha super recomendação de uma leitura com temas atuais e que precisam ser debatidos. Ao trazer a opinião dos especialistas que passaram por seu podcast, a obra fica ainda mais rica e deixa de ser uma simples opinião para também ser um texto informativo.

Mata doce, de Luciany Aparecida | Resenha

Na narrativa criada em Mata Doce, a fronteira entre realidade e imaginação é fácil de ser ultrapassada. Maria Teresa, também conhecida como Filinha Mata-Boi, nasce em uma casa com duas mulheres fortes, guiadas pelo senso da espiritualidade e referências na comunidade local. Mariinha e Tuninha são companheiras e mães de uma garota, que pouco – ou quase nada – sabe de sua verdadeira origem.

Além da importância das pessoas que a criam, Maria Teresa é impactada pelo ambiente em que cresceu – e onde permanece para nos contar suas memórias. O casarão fica localizado em um município bem interiorano, de fazendas, que também serve de título para a obra. As rosas brancas que marcam a frente da residência acabam acompanhando a história de Maria Teresa.

No dia do seu casamento, no entanto, Maria Teresa testemunha uma tragédia e uma perda irreparável. O vestido de noiva passa a levar uma mancha que é impossível de se retirar. Mesmo a lavagem do tempo não é suficiente para desfazer manchas tão doídas. Desde esse dia, Filinha Mata-Boi segue uma vida diferente, sob a constante preocupação de suas mães.

A memória e os laços que ligam os marcantes personagens de Mata Doce são o guia dessa história. Em alguns momentos, senti falta de um ritmo que colocasse os acontecimentos em marcha Mas talvez tenha sido essa a intenção da autora: se aprofundar nas marcas da memória. A curiosidade de conhecer mais sobre a relação de Mariinha e Tuninha também me contaminou.

Nas cartas datilografadas por Filinha, encontramos a beleza da esperança de ser ouvido por quem não se sabe onde está e a tristeza que os traumas do passado insistem em alimentar. E, no fim, são esses os sentimentos que encontramos nas folhas e flores de Mata Doce.

O encontro marcado, de Fernando Sabino | Resenha

“Parece qualidade fora de moda, essa de um livro ’prender’. Acho qualidade essencial, invejável. (…) A primeira pausa, a primeira mesmo, vem exatamente e apenas no fim.” Foi assim que Clarice Lispector descreveu a experiência de ler esse clássico da literatura brasileira. Publicado em 1956, a obra do escritor mineiro Fernando Sabino é um brilhante romance de formação de um jovem escritor, Eduardo Marciano.

A nova edição comemorativa pelo centenário de Sabino já inicia com um texto do autor brasileiro Michel Laub – de quem gosto muito – sobre a relevância da obra para a literatura nacional. Comecei a narrativa sem muito saber sobre o estilo do autor e fiquei impressionado, logo no início, com o ritmo que ele consegue impregnar em seu texto.

Com o passar dos anos, o protagonista passa a viver uma longa crise existencial, questionando o verdadeiro sentido da vida. Em uma história marcada por bares e conversas filosóficas com seus amigos e com outros personagens que encontra ao acaso, Eduardo acaba descortinando os conflitos de uma geração. São relacionamentos problemáticos, insatisfações profissionais e falta de sonhos. E, para complementar, Eduardo é um personagem que não gera qualquer admiração pelo leitor (para dizer o mínimo).

A forma com que o autor construiu o texto é peculiar. Diálogos que vão se alternando, em
situações e com personagens distintos. Em alguns momentos, o leitor precisa ficar mais atento, mas nada que tenha prejudicado a leitura. Pelo contrário: achei um estilo interessante, que refletiu um pouco do ar caótico que o protagonista transparecia. Um caos sem solução e, até mesmo, que sequer consegue ser compreendido.

Como se fosse um monstro, de Fabiane Guimarães | Resenha

É muito bom encontrar obras que abordam temas pouco encontrados na literatura. Nunca tinha lido uma narrativa que envolvesse o tema da barriga de aluguel. No Brasil, a prática remunerada é ilegal e muitos brasileiros acabam tendo que recorrer a países que regulamentaram a barriga de aluguel. Na história construída por Fabiane Guimarães, encontramos uma situação peculiar: uma jovem, que vive em condições de escassez, acaba aceitando uma oferta quase que irrecusável – e totalmente ilegal – para gerar um ser humano que logo após o parto seria retirado de seus braços.

Damiana sai do interior de Goiás, onde nasceu em uma família pobre, para tentar uma vida melhor Brasília ao lado de uma prima. O destino é uma residência de um casal rico, para quem Damiana trabalhará de empregada doméstica. Depois de perceber visitas pouco comuns de mulheres na casa, a protagonista descobre que seus patrões buscam uma mulher para carregar um filho deles, um sonho que sozinhos eles não conseguiram alcançar. E, quando menos espera, Damiana acaba recebendo a proposta do casal: deixar de trabalhar como doméstica e receber um valor muito alto em troca de gerar um bebê.

A autora traz não apenas o tema da barriga de aluguel, mas um ambiente de desigualdade social e falta de oportunidades. A maternidade também é discutida de forma pouco comum: qual seria o sofrimento daquela que carrega uma nova vida para outra pessoa, enfrentando uma separação imediata após o parto? A narrativa nos faz questionar se a maternidade seria um instinto ou uma criação social.

Toda a história de Damiana é contada a partir de uma entrevista feita por uma jornalista, Gabriela, que deseja investigar e revisitar a história dessa senhora. Gabriela também vive uma situação peculiar e traumatizante, que acaba despertando um paralelo com os temas tratados na obra.

Damiana aceitou a oferta porque não tinha escolhas? E qual o limite de nossas escolhas? A proibição não teria a ver com um juízo moral? A protagonista é, sem dúvidas, uma vítima de uma sociedade desigual. Recomendadíssimo!