Nem sinal de asas, de Marcela Dantés | Resenha

O que leva alguém a chegar a um nível tão extremo de solidão que a sua falta não é sentida por ninguém? Foi a partir desse questionamento que a autora mineira decidiu escrever o seu primeiro romance após se deparar com uma notícia que a chocou: na Espanha, uma mulher foi descoberta sem vida em seu apartamento depois de 5 anos. Durante todo esse tempo, ninguém notou a sua ausência.

Em “Nem sinal de asas”, Anja é a protagonista inspirada nesse fato real. Desde a primeira página, sabemos do destino da personagem, mas a autora nos leva a conhecer o passado da Anja. Será que uma pessoa que se vê totalmente sozinha mesmo depois da morte sempre teve uma vida solitária?

Na infância, a protagonista sofre uma perda marcante e passa a viver apenas com sua mãe – com quem possui uma relação complicada. Anja é uma mulher negra, filha de uma mãe branca. E o racismo internalizado naquela que a gerou resulta em um acidente chocante, que deixa marcas físicas irreversíveis na protagonista.

Portanto, além da solidão, a história de Anja é marcada pela tristeza, tornando a experiência de leitura bem dolorida. Rinoceronte, seu gato, é um respiro em meio ao sofrimento. Outro personagem que alterna a narração na obra é o porteiro, que conta a sua perspectiva da notícia que surpreendeu os moradores daquele prédio: uma vizinha esquecida por anos. Um personagem que vai ganhando um espaço indesejável na vida de Anja.

O romance de estreia de Marcela Dantés é muito bom. Envolve o leitor, cria uma compaixão com a personagem e desperta reflexões interessantíssimas sobra morte, solidão, racismo e traumas. “Nem sinal de asas” é uma das grandes surpresas que tive recentemente e a promessa de uma autora que ainda tem muita obra história boa para criar.

O animal social, de Elliot Aronson | Resenha

Não é segredo que sou fã de ficção e que a maioria das minhas leituras está inserida nesse gênero. Mas a verdade é que frequentemente sou surpreendido – de forma positiva – quando me aventuro em obras mais técnicas e que buscam aproximar o leitor de temas relevantes. E foi esse o caso de “O animal social”, uma referência na área da psicologia social, publicado em 1972.

Sou totalmente leigo na área e a verdade é que o próprio termo “psicologia social” não era tão conhecido por mim. E foi nesse ponto que me surpreendi, porque percebi o quanto esse tema é amplo e interessantíssimo, ao buscar explicações sobre o comportamento humano e nossa interação em uma sociedade cada vez mais complexa. Dentre os assuntos que mais me interessaram está a análise do preconceito, das relações amorosas e da nossa tendência de buscar pertencer a algum grupo. Por que agimos como agimos?

E apesar de o livro ter sido publicado há mais de 50 anos, essa edição da @editoragoya foi recentemente atualizada pelo autor, com a ajuda do seu filho. Várias teorias foram revistas e debates contemporâneos, como redes sociais e seu impacto nas relações, foram incluídos. Ou seja, o texto continua dialogando com o leitor jovem e é impossível não se enxergar em vários dos exemplos explorados pelo autor.

Também não há como negar que a leitura é densa. São várias as teorias apresentadas e o texto tem um cunho técnico e informativo, o que me fez levar um tempo maior para concluir a leitura (leia junto com um livro de ficção). Mas a leitura é acessível e repleta de exemplos que permitem uma aproximação do leitor com os assuntos discutidos. É um texto que demanda atenção, sobretudo pela quantidade de informação, embora não se apresente como um desafio para quem é leigo.

Ou seja, se você se interessa pelo tema e pelas discussões propostas pelo autor, recomendo demais. “O animal social” continua sendo uma relevantíssima referência sobre a psicologia social e que, sem dúvidas, mudou a minha compreensão sobre muitos assuntos que enfrento no meu dia a dia.

Literatura infantil: Cartas ao filho, de Alejandro Zambra | Resenha

Literatura infantil: Cartas ao filho, de Alejandro Zambra

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“Com você no colo, vejo pela primeira vez, na parede, a sombra que formamos juntos. Você tem vinte minutos de vida”. É com emocionante a experiência do primeiro contato de pai e filho que o leitor inicia o texto de “Literatura infantil”. E não se deixe enganar pelo título, já que a obra não é voltada para crianças, mas sim um convite para que os adultos mergulhem como espectadores na experiência inédita da paternidade.

Se vários são os livros escritos para os pais, seja em homenagens ou até em um acerto de contas, o autor chileno decidiu inovar e escrever “cartas ao filho”. “Narrar o mundo de que uma criança se esquecerá – tornamo-nos correspondentes de nosso filhos – é um desafio enorme”. E para o leitor, essa aventura é acolhedora e chega a esquentar o coração. Ao longo dos dias que sucedem o nascimento, acompanhamos as vivências e as descobertas de Zambra ao se encontrar na figura de pai pela primeira vez. É o aprendizado dessa “tarefa” que nasce sem manual de instruções, mas que vem junto com medos, descobertas, muita alegria e também frustrações.

Superada essa primeira parte, a obra nos revela os mais diferentes gêneros de textos, em que a paternidade é o tema que os une. Contos, crônicas, ensaios e mais relatos pessoais. E na escrita autobiográfica, o ponto alto do livro para mim, também encontramos a relação do Zambra como filho e a presença da literatura em toda a sua vida. Mesmo não sendo pai, a identificação com diferentes trechos da leitura foi inevitável.

Misturando um diário de paternidade com textos de ficção, o autor se vale de uma escrita fácil e simples, o que é, inclusive, uma característica das suas obras, mas sem nunca deixar a sensibilidade de lado.

“Literatura infantil” é uma leitura aconchegante, leve e, sobretudo, uma declaração de amor aos filhos.

Deus na escuridão, de Valter Hugo Mãe | Resenha

“Deus é exatamente como as mães. Liberta Seus filhos e haverá de buscá-los eternamente. Passará todo o tempo de coração pequeno à espera, espiando todos os sinais que Lhe anunciem a presença, o regresso dos filhos”. Esse trecho belíssimo é o início do capítulo que leva o nome do livro e que, para mim, é um dos textos mais sensíveis que li nos últimos anos. Na verdade, beleza e sensibilidade são características que você encontra em todas as obras do autor português.

O seu romance mais recente já começa com o novo: “Pouquinho nasceu sem as origens”. Em um dia de verão de 1981, nasce um bebê na remota paisagem da Ilha da Madeira. E logo de início, Felicíssimo, seu irmão e narrador do romance, percebe que esse novo personagem mudará a sua vida. As pessoas parecem querer esconder o bebê de seu olhar, como se sua condição fosse algo ruim de ser visto por crianças. Para Felicíssimo, a chegada de Pouquinho só traz motivos para comemorações.

O amor fraternal é o principal tema tratado em “Deus na escuridão”. prevalece a necessidade de proteção daquele que é frágil, por ser mais novo, e que pode sofrer pelos olhares dos outros, apenas por ser diferente. E Felicíssimo incorporou essa responsabilidade desde o momento em que conheceu seu irmão.

Como acontece nos outros livros do autor, a escrita é carregada de poesia. Valter Hugo Mãe é certeiro na escolha das palavras. E diferentemente da maior parte dos seus trabalhos, “Deus na escuridão” vem com uma carga maior de introspecção. A narrativa não é marcada por acontecimentos sucessivos, mas por tempos de reflexão sobre temas como o amo, afeto e medo. O ritmo mais lento da leitura em momento algum chegou a ser um problema para mim, já que é apenas um reflexo do ritmo daquela paisagem e da vida dos personagens. Ao leitor, recomendo ler com calma, sem pressa, apreciando a beleza e a sensibilidade dessas páginas.

Nota: como me considero próximo do autor, prefiro não dar nota.

PS:O livro foi escolhido para o sentimento AFETO do #DesafioBookster2024 e tem vídeo com o querido @alexandrecoimbraamaral no meu canal do YouTube.

FUP, de Jim Dodge  | Resenha

“Fup” é um livro nada convencional, daqueles que tem uma história que fica até difícil de explicar para outros leitores. Como um senhor, uma criança e uma pata de estimação – sim, você leu direito – podem, em pouco mais de 120 páginas, construir uma narrativa gostosa e, ao mesmo tempo, inteligente? Talvez seja essa peculiaridade que faz de “Fup” um queridinho de muitos, desde a sua publicação, em 1983.

Com o falecimento de sua filha, Jake assume, prestes a completar 100 anos, a tarefa de criar o seu neto. O personagem tem pensamentos excêntricos e acredita que descobriu o segredo para a imortalidade: um whisky fortíssimo que ele mesmo produz. Cabe ao leitor decidir se acredita naquele senhor ou se ignora a desculpa utilizada pelo personagem para justificar a sua paixão pela bebida.

E quando Fup, a pata, chega para participar das aventuras do neto e de seu avô, todos se mobilizam para caçar um porco selvagem gigante que destrói as cercas da propriedade onde moram. Aliás, Miúdo, o neto, é ficcionado por construir cercas. Toda essa descrição deixa claro que essa é uma fábula que precisa ser lida, já fica difícil convencer o leitor com a mera descrição dos acontecimentos.

E a impressão que fica é que a história tem um significado maior, ainda que essa compreensão não seja tão evidente ao leitor. Amizade, morte e paciência são temas abordados, de forma sútil e bem humorada, ao longo das páginas. Terminei a leitura com uma sensação boa, sem conseguir entender exatamente o que da narrativa mais me agradou. E, no final, é isso que mais importa ao leitor: os bons sentimentos que os livros deixam em nós. Uma fábula original e cheia de magia nos pequenos detalhes.

Nota 9/10

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O pacto da Água, de Abraham Verghese | Resenha

O pacto da Água, de Abraham Verghese

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Romances que acompanham gerações de uma mesma família ao longo dos anos são, para mim, um dos meus estilos favoritos na ficção. Em o Pacto da Água, o autor nos leva por quase 80 anos na história de Grande Ammachi, uma mulher que nasceu no sul da Índia, em uma região católica, pobre e ainda muito rural, e aos 12 anos precisa deixar sua família para se casar com um homem muito mais velho.

Aos poucos, ela descobre que a família de seu futuro marido enfrenta um problema há gerações e cujas causas são desconhecidas: algumas pessoas se tornam vítimas fatais das águas. Na árvore genealógica, muitas são as marcas que indicam o afogamento de homens e mulheres. E ninguém entende os motivos.

No início dos anos 1900, a personagem se vê completamente perdida e desamparada, mas aos poucos começa a criar raízes na casa que será testemunha de tantos acontecimentos em sua vida. Perdas irreparáveis, momentos de alegria e muitas idas e vindas de pessoas que ama marcarão os capítulos construídos por Verghese.

E, aos poucos, o leitor é apresentado a um novo núcleo do romance, em que a medicina acaba se tornando um dos protagonistas (um tema que adoro). O autor é filho de pais indianos e também é médico, o que explica o cenário escolhido para a obra e também os detalhes sobre a rotina de um hospital e sobre procedimentos cirúrgicos que são descritos no livro.

Apesar de em alguns momentos os núcleos parecerem ser totalmente independentes, e o ritmo da leitura oscilar, os últimos capítulos acabam mostrando ao leitor um cruzamento peculiar e interessante das histórias. Verghese conseguiu, assim como em seu outro sucesso O 11º mandamento, desenvolver uma narrativa cativante, em um cenário pouco conhecido e com personagens que deixam suas marcas na memória do leitor – sobretudo, a inesquecível Grande Ammachi. Ou seja, a fórmula perfeita para uma ótima leitura!

Cinzas na boca, de Brenda Navarro | Resenha

Um livro sobre perdas, abandono, solidão e não pertencimento. A temática pesada que envolve a trama criada pela autora mexicana me levou a escolher “Cinzas na boca” como a leitura para o mês sobre tristeza do #DesafioBookster2024

Uma protagonista sem nome deixa o México e vai para a Espanha em busca de sua mãe, que havia abandonado seus filhos na sua terra natal. E a protagonista leva consigo o seu irmão, Diego, de quem sempre tentou cuidar e suprir a falta que o papel materno causava. A ida para aquele novo país parecia ser uma solução para seus problemas.

E a partir disso, são diversos os temas abordados pela autora, que transmite ao leitor uma interminável sensação de desamparo. A protagonista sofre com o preconceito contra os imigrantes e precisa se submeter a trabalhos em más condições para sobreviver. Por outro lado, seu irmão parece não encontrar na mãe a falta que sentia dentro dele. E aos poucos a autora vai nos revelando um doloroso cenário que culmina na morte do irmão, ao tirar a própria vida (não há spoiler, já que esse acontecimento está na primeira página do livro).

Também encontramos a falta que o México causa nos personagens. A dificuldade de aceitar que a busca por uma vida melhor não tenha dado certo e que a realidade anterior talvez fosse mais acolhedora. Quando a protagonista volta para o seu país natal com as cinzas do irmão, esse contraste se torna ainda mais evidente.

E não há como negar que a tristeza está presente em diversas partes da narrativa. No entanto, confesso que, apesar de tantos obstáculos vividos pelos personagens, não consegui me conectar tanto com eles. Não sei se foi a escrita em fluxo de consciência, que pode confundir um pouco o leitor no início da leitura, ou a falta de aprofundamento nas relações, com um ritmo bem urgente, mas senti um impacto menor do que esperava.

Uma leitura difícil, que pode despertar gatilhos, mas que apresenta uma autora potente e sem receio de tocar em temas sensíveis.

PS: Para quem quiser saber mais, tem conversa sobre a leitura com a @nataliatimerman no meu canal do Youtube.