Nadando no escuro, de Tomasz Jedrowski | Resenha

É inegável a minha felicidade em encontrar cada vez mais obras LGBTQIA+ nas livrarias e estantes dos leitores, narrando histórias que por muito tempo ficaram silenciadas. Nadando no escuro é um desses livros: ambientado na Polônia dos anos 1980, em plena Guerra Fria, ele acompanha a relação entre Ludwik e Janusz, dois jovens que se conhecem num acampamento de verão e vivem uma paixão intensa, mas atravessada pelo peso de uma sociedade repressora. Essa descoberta de que dois garotos poderiam ter mais que uma amizade gera muita angústia, medo e vergonha nos personagens.

Mas confesso que, apesar de todo esse contexto que me interessa muito, não consegui me envolver tanto com a leitura quanto eu esperava. Comecei com altas expectativas, depois de receber várias recomendações, mas encontrei um desenvolvimento um pouco raso dos personagens. Eu queria conhecer mais do que se passava na cabeça Ludwik e Janusz e, por isso, senti dificuldade de me conectar com a narrativa – apesar da identificação com os dilemas de sexualidade.

De todo modo, o livro tem pontos positivos. Achei interessante a forma como o romance evidencia o contraste que marca um casal composto de pessoa que consegue avançar no processo de autoaceitação, enquanto o outro continua vivendo como se precisasse esconder algo. Para as pessoas da comunidade LGBTQIA+, é comum viver um relacionamento como esses e isso causa muito sofrimento… para os dois lados.

O contexto histórico também enriqueceu a experiência da leitura. A partir das transformações vividas no entorno de Ludwik e Janusz, conseguimos compreender os impactos sofridos pela Polônia no pós-guerra, com uma crescente violência e desigualdades.

A escrita é simples e acessível. Para quem não tem muito hábito de ler e procura uma obra com temática LGBTQIA+, “Nadando no escuro” pode ser uma ótima escolha. No entanto, não espere encontrar reflexões mais densas ou um mergulho nos dilemas dos personagens… ou você pode se decepcionar. Enfim, o livro não é ruim, mas a considerando que ideia do autor é tão interessante, a expectativa é de que ela ter sido melhor executada.

Mudar: método, de Édouard Louis | Resenha

Édouard Louis foi impecável nessa obra, a minha favorita do autor até o momento (e olha que li praticamente tudo o que ele já escreveu). É claro que a vivência da sexualidade me aproximou da obra, e me fez enxergar muitos dos meus próprios sentimentos, mas não tenha dúvidas de que os processos de transformação narrados pelo autor vão deixar marcas em qualquer pessoa que tenha esse livro em mãos.

De um garoto nascido em uma família conservadora da classe operário em uma pequena cidade francesa para um autor gay de sucesso e com livros publicados em diversos países, o caminho foi marcado por muito medo, culpa, vergonha e raiva. Édouard não queria pertencer aquele ambiente em que havia nascido, sentia a urgência de ascender socialmente, deixar aquele lugar opressivo para trás.

Essa fuga, no entanto, exigiu muito daquele jovem. Era preciso negar a família, a sua forma de falar, de se comunicar e de se vestir. Era necessária uma transformação para uma nova pessoa. Até o próprio nome ele deixou para trás. E ao narrar toda essa luta interna contra quem se é e contra as pessoas a sua volta, o autor faz análises sociais e políticas na tentativa de compreender um pouco do que o levou até aquelas circunstâncias. Como ele se viu inserido em um círculo de violências, em que não é possível identificar o que o iniciou. Édouard conseguiu sair, mas muitas das pessoas que ele amava não foram atrás de uma saída…

A escrita é direta e muito lúcida, com parágrafos que revelam um profundo entendimento do autor sobre o seu passado. Ele consegue colocar em palavras sentimentos complexos, revelando um verdadeiro mergulho no seu passado. Édouard conseguiu transmitir de forma muito consciente o que viveu – ainda que muitas vezes não tenha respostas. Leiam esse livro, é maravilhoso e vai permanecer em você por um bom tempo…

10/10

Meu nome é Emilia del Valle, de Isabel Allende | Resenha

A autora chilena é um fenômeno de vendas há anos e continua publicando novos romances em um ritmo impressionante. Embora nada se compare ao inesquecível “A casa dos espíritos”, Isabel Allende tem a habilidade de mesclar narrativas cativantes e um interessante contexto histórico.

Em seu mais recente romance, “Meu nome é Emilia Del Valle”, a autora repete o seu estilo narrativo e nos apresenta uma protagonista corajosa no final do século XIX. Emilia nasce na Califórnia e é criada pela mãe e pelo padrasto, já que seu pai abandonou a família e voltou para o Chile, seu país natal. Apaixonada pela escrita, e com o objetivo de se tornar uma autora de sucesso, a protagonista desafia as convenções sociais da época, que tentam manter a mulher cuidando do lar, e acaba sendo contratada por um jornal.

As aventuras de verdade começam quando ela é alocada para cobrir uma guerra civil no Chile, o que acaba sendo não apenas uma viagem tumultuada e com um pano histórico intenso, mas também uma busca pelo seu passado. Emilia desembarca no país que é berço da família aristocrática de seu pai e poderá desvendar essa lado da sua história que sempre permaneceu obscuro.

Gostei da leitura, ela é envolvente e, como costumam ser os romances de Allende, bem fluida. O ponto alto para mim foi a descrição e ambientação da guerra civil chilena do final do século XIX, um tema que eu conhecia muito pouco. A narrativa nos transporta para os dois lados desse conflito, a partir da visão de Emilia e de um homem por quem ela acaba se apaixonando. Ainda que eu tenha sentido falta de um maior desenvolvimento da personagem, sobretudo na parte final, fica a minha dica para quem gosta do estilo da autora e busca uma leitura gostosa.

8/10

Querida Konbini, de Sayaka Murata | Resenha

Dizer que esse livro é sobre uma vendedora de uma Konbini, as famosas lojas de conveniência do Japão, é uma grande injustiça. A obra de Murata vai muito além dessa sinopse, nos apresentando uma personagem interessantíssima – e muito peculiar – que contrasta com o ideal de vida perfeita imaginado pela sociedade atual. E ao fazer isso, a autora acaba tecendo diversas críticas à forma como pensamos e nos relacionamos.

A protagonista, Keiko Furukura, está perto dos seus 40 anos, mas passou metade da vida trabalhando como vendedora de uma Konbini. Sua família, seus amigos e colegas de trabalho não conseguem ficar em paz com a escolha de Keiko: por que ela insiste em desperdiçar a sua vida, deixando de lado oportunidades muito melhores? Por que ela não arranja um marido e constrói uma família?

A verdade é que essa “simples” vendedora de uma loja de conveniência não pensa como os demais. A partir de uma voz ingênua e ao mesmo tempo consciente de suas vontades, ela não busca um relacionamento amoroso e está muito satisfeita com a sua rotina metódica – para dizer o mínimo. No entanto, diante de tanta pressão das pessoas que a cercam, Keiko começa a tomar atitudes tidas como corajosas, o que gera diversas consequências para a sua vida. E diante disso acompanhamos as dúvidas alimentadas pelos outros e que passam a atormentá-la…

Gostei muito como a autora conseguiu construir uma personagem complexa, adentrando em seus conflitos ligados a temas tão atuais: propósitos, expectativas, relacionamentos e felicidade. Em alguns momentos, até me questionei se a personagem tem alguma questão envolvendo sua capacidade de se relacionar com o mundo e com os outros, mas Murata não nos dá muitas explicações objetivas… Também foi muito interessante ler esse livro no Japão e ver na prática a importância dessas lojas de conveniência no dia a dia das cidades japonesas.

A primeira metade do livro é sensacional, mas acabei ficando um pouco decepcionado com o restante, o que me impede de dar uma nota máxima. De qualquer forma, gostei muito da leitura, que é bastante peculiar e pode não agradar todos os leitores! Se você gosta de personagens diferentes e de um enredo que foge do comum, pode ir com tudo!

Nota 9/10

A cachorra, de Pilar Quintana | Resenha

Depois de terminar esse curto romance da autora colombiana Pilar Quintana, fiquei com a sensação de que meu nível de tolerância para livros com temáticas perturbadoras está bem alto, rs – ou os temas aqui tratados não me tocaram de forma tão profunda. Isso porque quando decidir ler “A cachorra”, recebi diversas mensagens de leitores me alertando sobre o impacto da narrativa e do enredo, algo que se assemelharia a “A vegetariana”. No entanto, confesso que me decepcionei com a leitura…

Em menos de 100 páginas, Pilar Quintana nos apresenta uma protagonista que vive um relacionamento conturbado e repleto de frustrações. Rogelio e Damaris não conseguem ter filhos. E essa “incapacidade” acaba sendo injustamente atribuída à protagonista pelos moradores da comunidade em que vivem, como se ela não prestasse para desempenhar o papel de uma mulher.

Essa vontade de ser mãe acaba sendo acalmada com uma decisão não planejada: adotar um filhote de cachorro que cruza o seu caminho. Damaris enfrenta a solidão, imposta pela natureza ao seu redor, por um marido que não basta e por um trabalho sem tanto sentido – ela cuida de uma casa de veraneio de proprietários que nunca aparecem. Assim, a cachorra surge como uma companhia, ajudando messe sentimento de solidão até nos traumas que Damaris carrega. A protagonista direciona suas frustadas àquele filhote que agora precisa de tantos cuidados.

No entanto, a complexidade dessa relação aumenta e a cachorra, Chirli, acaba despertando sentimentos extremos na protagonista. Há raiva, possessividade, desgosto, amor, rejeição… mas a questão que surge é, novamente, a frustração que uma relação como aquela pode despertar em quem colocou tantas expectativas.

Ao final, senti que não consegui mergulhar em todas as camadas que a autora pretendeu inserir em sua narrativa. A leitura ficou rasa e senti falta de um mergulho naquele ambiente interior de Damaris. Talvez uma segunda leitura me ajude a compreender melhor a dimensão dessas relações…

6/10

Sob o olhar do leão, de Maaza Mengiste | Resenha

Quantos livros você já leu de autores etíopes? Aposto que a resposta da maioria é nenhum. Foi justamente com o objetivo de trazer obras das mais diferentes partes do mundo, e que muitas vezes sequer estão publicadas no Brasil, que eu criei o meu clube do livro (Bookster pelo Mundo). E para o mês de fevereiro, lemos um romance histórico que se passa em um período extremamente conturbado da Etiópia.

Maaza Mengiste decidiu retornar para a sua terra natal por meio da literatura, fazendo uma denúncia sobre a violência que fez milhares de vítimas na década de 70. Até então o país, que vivia uma crise de pobreza e fome, era comandado pelo imperador Hailé Selassié. No entanto, em 1974 um comitê militar deu um golpe de Estado e assumiu o poder. O que aparentava ser uma alternativa para mudanças positivas, contando inclusive com o apoio do movimento estudantil, se revelou um período sangrento para o país.

E é nesse cenário que acompanhamos a história de uma família e os impactos que essas mudanças causam, de forma distinta, em cada um dos seus membros. Hailu, a figura paterna, é médico e acaba ficando viúvo logo no início da narrativa. Diante disso, cabe ao personagem lidar com as diferenças que marcam seus dois filhos: Dawit e Yonas. Há fortes contrastes de pensamentos e comportamentos, que são acentuados. Há, também, outros personagens bem interessantes que circundam esse núcleo familiar, como a esposa de Yonas.

Também é muito interessante a forma como a autora vai construindo as mudanças nos personagens. A reação de cada um é única diante da busca pela sobrevivência e da proteção das pessoas que amadas. O único ponto que senti um pouco de falta foi o aprofundamento no psicológico de alguns personagens, já que não consegui me conectar tanto (o principal, para mim, ficou com a parte histórica).
A escrita é bem fluida, com capítulos curtos, mas já adianto que há cenas muito fortes, servindo como uma verdadeira denúncia do período brutal vivido pela Etiópia.

Em mensagem enviada pela autora aos membros do clube, Maaza nos contou que não tinha como ser diferente e ignorar o grau de maldade e de sofrimento que o regime causou para milhares de pessoas. Um ótimo romance histórico!

Nota 9/10

Se Deus me chamar não vou, de Mariana Salomão Carrara | Resenha

Sou um grande fã de livros narrados por protagonistas infantis. Alguns autores realmente conseguem nos transportar para a visão ingênua e inteligente de um personagem que ainda está tentando entender o mundo a sua volta. No caso de “Se Deus me chamar não vou”, de Mariana Salomão Carrara, um dos principais nomes da jovem literatura contemporânea nacional consegue fazer isso de forma impactante e espirituosa, tocando em temas sensíveis que despertam a reflexão no leitor.

Maria Carmem tem apenas 11 anos. A garota se sente solitária, ajuda na loja de seus pais voltada para produtos para idosos, também conhecida como “loja de velhos” e é alvo de bullying pelos seus colegas de sala. O ambiente escolar nessa idade pode ser cruel: as crianças não costumam perdoar quem é diferente. E é a partir do diário da protagonista, que tem o desejo de se tornar escritora no futuro, que conseguimos acompanhar o desenvolvimento de suas reflexões. Ela deseja ser ouvida (e lida).

Não há dúvidas de que o sofrimento de Maria Carmem toca o leitor, criando uma conexão quase que instantânea com a nossa criança que se mantém dentro de nós pelas memórias. Quem já vivenciou de alguma forma episódios de bullying, vai se identificar ainda mais com a narrativa. No entanto, a inteligência da protagonista, misturada com sua ingenuidade diante dos aspectos mais complexos da vida, tornam a leitura instigante e até mesmo bem-humorada.

Também gostei de poder acompanhar a relação da garota com seus pais. Ela analisa detalhes da relação dos dois, mesmo com a tendência de simplificação típica das crianças, e acaba tendo que lidar com uma mudança peculiar com o surgimento de um novo personagem. Será que Maria Carmem terá espaço nessa casa cheia?

As poucas páginas da obra deixaram em minha a sensação de “quero mais”. Quero conhecer mais o universo de Maria Carmem, quero acompanhar sua adolescência e, acima de tudo, quero mostrar que ela não está sozinha. Leiam, leiam e leiam!