Hospício é Deus, de Maura Lopes Cançado | Resenha

Se a questão de saúde mental e o conceito de “loucura” ainda estão acompanhados de muito preconceito e falta de informação, é difícil imaginar como o tema era tratado na década de 60. Por meio de seus diários, publicados originalmente em 1965, a escritora mineira compartilha o dia a dia internada em um hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro. Muito embora Maura fosse muito jovem naquele momento, essa já era sua terceira internação.

Ao longo de sua escrita, conhecemos um pouco de sua origem, de uma infância rica em Minas Gerais, até começar a enfrentar desafios relacionados à família e à forma como a sociedade a julgava. Em sua vida, Maura foi internada diferentes vezes e, em “Hospício é Deus”, o leitor consegue entender um pouco da angústia que cercava o local e do tratamento desumano que muitos dos pacientes recebiam, com claras situações de abusos físicos e psicológicos.

E ao analisar esse ambiente que estava inserida, em conjunto com outros personagens, como enfermeiras e médicos, Maura consegue construir um cenário completo, que transporta o leitor para uma realidade tão distante. Os aspectos subjetivos da autora ficam, em alguns momentos, mais em segundo plano. No entanto, quando Maura nos conta sobre a sua relação com um médico específico do hospital em que estava internada, é possível mergulhar um pouco mais em seu interior.

É impressionante como Maura conseguia não transparecer os problemas psiquiátricas em sua escrita. O texto é muito claro, fácil de ler e bem construído. Também é interessante ver o interesse de Maura pela escrita e pela literatura. Em seu diário, há diversas referências a seus próprios textos e a outras obras literárias.

“Hospício é Deus” ficou esquecido por muitas décadas, tendo sido resgatado pelo mercado editorial apenas em 2015. A nova edição da @companhiadasletras traz dois textos de apoio, inclusive um deles escrito pela autora e psiquiatra Natália Timerman, que faz um exercício interessante de tentar “diagnosticar” Maura a partir de sua escrita e de seus relatos.

Mamãe & eu & Mamãe, de Maya Angelou | Resenha

A busca por uma efetiva reconciliação entre pais e filhos é tratada na literatura há séculos. Para a ativista e poeta norte-americana, Maya Angelou, esse processo teve início muito cedo, aos 13 anos. Depois de problemas no casamento, Maya e seu irmão mais velho foram abandonados pela mãe quando os dois ainda eram muito pequenos. A infância foi vivida na casa da avó paterna, em um estado racista no sul dos Estados Unidos.

Quando sua mãe, Lady Baxter, reaparece e resolve levar Maya para morar junto dela, o ressentimento e as cicatrizes do abandono ressurgem. Se a autora já tinha dificuldade de enxergar Vivian Baxter como sua mãe, a personalidade forte daquele mulher dificultava ainda mais uma aproximação entre as duas. Apesar disso, não há como deixar de se impressionar com a coragem e independência de Vivian em uma época em que o papel da mulher na sociedade esbarrava em diversas restrições.

E apesar de a relação com sua mãe ser o tema principal da obra, Maya narra momentos marcantes de sua infância, do seu casamento e da experiência com a maternidade. Exatamente: não há apenas um mergulho nos conflitos com Lady Bexter, mas há também um enfrentamento dos desafios da maternidade da própria autora.

Publicado quando Maya tinha 85 anos, senti que esse seu último livro foi como um acerto de contas e também uma homenagem a sua mãe, que acabou tendo um papel fundamental na formação da mulher determinada e independente que a História conheceu.

A leitura me emocionou em diferentes momentos e revelou a força de Maya, vítima de descaso, violência e preconceitos. Inclusive, ouvi o audiobook no original, com a narração da própria autora, e a experiência foi incrível.

A viagem inútil – Trans/escrita, de Camila Sosa Villada | Resenha

O encantamento com “O parque das irmãs magníficas” me despertou a vontade de ler tudo da autora argentina e de conhecer mais sobre a origem de tanta potência. O início de sua relação com os livros, assim como o mergulho irreversível na escrita, é contado por Camila Villada neste ensaio autobiográfico. “A primeira coisa que escrevo na vida é meu nome de homem. Aprendo uma pequena parte de mim”.

Se a presença de seus pais está interligada com suas primeiras memórias com as letras, a relação familiar acabou sendo um aspecto de muita angústia em sua vida. Criada na cidade de Córdoba, a autora estava rodeada por violência, tristeza e a certeza de um futuro que a tornaria vítima de muito preconceito. A coragem de ser travesti e não baixar a cabeça para a intolerância.

Quando criança, Camila se apaixona por seu professor de educação física. Ninguém pode descobrir o seu segredo e, para se proteger, adota um pseudônimo para assinar as cartas. Assinou como uma mulher, pela primeira vez.

A escrita é arrebatadora e precisa. Acompanhar o nascimento dessa escritora nos explica um pouco de onde vem tanta força, mas também revela a doçura por trás de uma criança e uma jovem sem um caminho certo. Como o próprio subtítulo da obra indica, ser uma travesti e uma escritora são elementos de um mesmo todo.

Também foi muito interessante conhecer mais das inspirações que nortearam Camila em sua trajetória pelas letras. Como me contou durante a nossa conversa para o podcast @dariaumlivropodcast, a autora gosta de ler mulheres. Sequer é uma escolha intencional, mas é o que a atrai na hora de escolher um livro.

Uma leitura curta, mas que acabou repleto de marcações (nas páginas e neste leitor).

Nem sinal de asas, de Marcela Dantés | Resenha

O que leva alguém a chegar a um nível tão extremo de solidão que a sua falta não é sentida por ninguém? Foi a partir desse questionamento que a autora mineira decidiu escrever o seu primeiro romance após se deparar com uma notícia que a chocou: na Espanha, uma mulher foi descoberta sem vida em seu apartamento depois de 5 anos. Durante todo esse tempo, ninguém notou a sua ausência.

Em “Nem sinal de asas”, Anja é a protagonista inspirada nesse fato real. Desde a primeira página, sabemos do destino da personagem, mas a autora nos leva a conhecer o passado da Anja. Será que uma pessoa que se vê totalmente sozinha mesmo depois da morte sempre teve uma vida solitária?

Na infância, a protagonista sofre uma perda marcante e passa a viver apenas com sua mãe – com quem possui uma relação complicada. Anja é uma mulher negra, filha de uma mãe branca. E o racismo internalizado naquela que a gerou resulta em um acidente chocante, que deixa marcas físicas irreversíveis na protagonista.

Portanto, além da solidão, a história de Anja é marcada pela tristeza, tornando a experiência de leitura bem dolorida. Rinoceronte, seu gato, é um respiro em meio ao sofrimento. Outro personagem que alterna a narração na obra é o porteiro, que conta a sua perspectiva da notícia que surpreendeu os moradores daquele prédio: uma vizinha esquecida por anos. Um personagem que vai ganhando um espaço indesejável na vida de Anja.

O romance de estreia de Marcela Dantés é muito bom. Envolve o leitor, cria uma compaixão com a personagem e desperta reflexões interessantíssimas sobra morte, solidão, racismo e traumas. “Nem sinal de asas” é uma das grandes surpresas que tive recentemente e a promessa de uma autora que ainda tem muita obra história boa para criar.

O animal social, de Elliot Aronson | Resenha

Não é segredo que sou fã de ficção e que a maioria das minhas leituras está inserida nesse gênero. Mas a verdade é que frequentemente sou surpreendido – de forma positiva – quando me aventuro em obras mais técnicas e que buscam aproximar o leitor de temas relevantes. E foi esse o caso de “O animal social”, uma referência na área da psicologia social, publicado em 1972.

Sou totalmente leigo na área e a verdade é que o próprio termo “psicologia social” não era tão conhecido por mim. E foi nesse ponto que me surpreendi, porque percebi o quanto esse tema é amplo e interessantíssimo, ao buscar explicações sobre o comportamento humano e nossa interação em uma sociedade cada vez mais complexa. Dentre os assuntos que mais me interessaram está a análise do preconceito, das relações amorosas e da nossa tendência de buscar pertencer a algum grupo. Por que agimos como agimos?

E apesar de o livro ter sido publicado há mais de 50 anos, essa edição da @editoragoya foi recentemente atualizada pelo autor, com a ajuda do seu filho. Várias teorias foram revistas e debates contemporâneos, como redes sociais e seu impacto nas relações, foram incluídos. Ou seja, o texto continua dialogando com o leitor jovem e é impossível não se enxergar em vários dos exemplos explorados pelo autor.

Também não há como negar que a leitura é densa. São várias as teorias apresentadas e o texto tem um cunho técnico e informativo, o que me fez levar um tempo maior para concluir a leitura (leia junto com um livro de ficção). Mas a leitura é acessível e repleta de exemplos que permitem uma aproximação do leitor com os assuntos discutidos. É um texto que demanda atenção, sobretudo pela quantidade de informação, embora não se apresente como um desafio para quem é leigo.

Ou seja, se você se interessa pelo tema e pelas discussões propostas pelo autor, recomendo demais. “O animal social” continua sendo uma relevantíssima referência sobre a psicologia social e que, sem dúvidas, mudou a minha compreensão sobre muitos assuntos que enfrento no meu dia a dia.

Literatura infantil: Cartas ao filho, de Alejandro Zambra | Resenha

Literatura infantil: Cartas ao filho, de Alejandro Zambra

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“Com você no colo, vejo pela primeira vez, na parede, a sombra que formamos juntos. Você tem vinte minutos de vida”. É com emocionante a experiência do primeiro contato de pai e filho que o leitor inicia o texto de “Literatura infantil”. E não se deixe enganar pelo título, já que a obra não é voltada para crianças, mas sim um convite para que os adultos mergulhem como espectadores na experiência inédita da paternidade.

Se vários são os livros escritos para os pais, seja em homenagens ou até em um acerto de contas, o autor chileno decidiu inovar e escrever “cartas ao filho”. “Narrar o mundo de que uma criança se esquecerá – tornamo-nos correspondentes de nosso filhos – é um desafio enorme”. E para o leitor, essa aventura é acolhedora e chega a esquentar o coração. Ao longo dos dias que sucedem o nascimento, acompanhamos as vivências e as descobertas de Zambra ao se encontrar na figura de pai pela primeira vez. É o aprendizado dessa “tarefa” que nasce sem manual de instruções, mas que vem junto com medos, descobertas, muita alegria e também frustrações.

Superada essa primeira parte, a obra nos revela os mais diferentes gêneros de textos, em que a paternidade é o tema que os une. Contos, crônicas, ensaios e mais relatos pessoais. E na escrita autobiográfica, o ponto alto do livro para mim, também encontramos a relação do Zambra como filho e a presença da literatura em toda a sua vida. Mesmo não sendo pai, a identificação com diferentes trechos da leitura foi inevitável.

Misturando um diário de paternidade com textos de ficção, o autor se vale de uma escrita fácil e simples, o que é, inclusive, uma característica das suas obras, mas sem nunca deixar a sensibilidade de lado.

“Literatura infantil” é uma leitura aconchegante, leve e, sobretudo, uma declaração de amor aos filhos.

Deus na escuridão, de Valter Hugo Mãe | Resenha

“Deus é exatamente como as mães. Liberta Seus filhos e haverá de buscá-los eternamente. Passará todo o tempo de coração pequeno à espera, espiando todos os sinais que Lhe anunciem a presença, o regresso dos filhos”. Esse trecho belíssimo é o início do capítulo que leva o nome do livro e que, para mim, é um dos textos mais sensíveis que li nos últimos anos. Na verdade, beleza e sensibilidade são características que você encontra em todas as obras do autor português.

O seu romance mais recente já começa com o novo: “Pouquinho nasceu sem as origens”. Em um dia de verão de 1981, nasce um bebê na remota paisagem da Ilha da Madeira. E logo de início, Felicíssimo, seu irmão e narrador do romance, percebe que esse novo personagem mudará a sua vida. As pessoas parecem querer esconder o bebê de seu olhar, como se sua condição fosse algo ruim de ser visto por crianças. Para Felicíssimo, a chegada de Pouquinho só traz motivos para comemorações.

O amor fraternal é o principal tema tratado em “Deus na escuridão”. prevalece a necessidade de proteção daquele que é frágil, por ser mais novo, e que pode sofrer pelos olhares dos outros, apenas por ser diferente. E Felicíssimo incorporou essa responsabilidade desde o momento em que conheceu seu irmão.

Como acontece nos outros livros do autor, a escrita é carregada de poesia. Valter Hugo Mãe é certeiro na escolha das palavras. E diferentemente da maior parte dos seus trabalhos, “Deus na escuridão” vem com uma carga maior de introspecção. A narrativa não é marcada por acontecimentos sucessivos, mas por tempos de reflexão sobre temas como o amo, afeto e medo. O ritmo mais lento da leitura em momento algum chegou a ser um problema para mim, já que é apenas um reflexo do ritmo daquela paisagem e da vida dos personagens. Ao leitor, recomendo ler com calma, sem pressa, apreciando a beleza e a sensibilidade dessas páginas.

Nota: como me considero próximo do autor, prefiro não dar nota.

PS:O livro foi escolhido para o sentimento AFETO do #DesafioBookster2024 e tem vídeo com o querido @alexandrecoimbraamaral no meu canal do YouTube.