As desventuras de Arthur Less, de Andrew Sean Greer | Resenha

Normalmente, as leituras envolvendo personagens gays costumam trazer narrativas tristes e repletas sofrimentos. Vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção de 2018, “As desventuras de Arthur Less” vai um pouco na contramão, apresentando um enredo mais leve e com bons toques de humor.

O protagonista, que dá nome ao livro, é um autor que ficou um pouco esquecido e que, perto de completar 50 anos, começa a repensar suas conquistas e o futuro que vem pela frente. As reflexões se agravam porque o seu último romance, um jovem com quem conviveu por muitos anos, está prestes a se casar com um outro homem.

Para fugir um pouco dos problemas e das incertezas do que vem pela frente, Less planeja uma série de viagens em um curto período de tempo: México, Itália, França, Marrocos, Japão, Índia… E enquanto acompanhamos o protagonista por essas (des)venturas, conhecemos um pouco de seu passado e do relacionamento que teve por muitos anos com um poeta mundialmente famoso.

A leitura é bem tranquila e diverte o leitor! Em alguns momentos o ritmo diminuía um pouco, mas fiquei mais animado com a segunda metade da obra. Não espere personagens complexos ou uma leitura densa, mas sim um livro gostoso e fácil de ler. Como um homem gay, também acabei me identificando com alguns pensamentos e vivências de Less.

Pureza, de Garth Greenwell | Resenha

Como um homem gay que cresceu com pouca representatividade ao redor, fico muito feliz de ver obras contemporâneas com personagens LGBTQIA+ sendo publicadas por grandes editoras e sendo lidas por um público mais amplo. Esse é o segundo romance que eu leio do autor norte-americano Garth Greenwell. O primeiro livro, “O que te pertence”, também tinha como personagem principal um homem gay e acaba revelando um estilo semelhante com a sua nova obra.

Em “Pureza”, somos apresentados a uma professo americano que vive em Sófia, capital da Bulgária. A obra é dividida em partes, que não possuem uma relação de dependência entre si. O autor não faz o uso dos nomes dos personagens, se limitando a apresentar sua inicial, o que pode deixar um pouco confusa a identificação das histórias. De toda forma, a escrita é simples e pouco descritiva, ao mesmo tempo que consegue adentrar na intimidade do protagonista.

Senti que, diferentemente de “O que te pertence”, o novo livro mergulha menos em um aspecto de relacionamentos afetivos, com passagens mais longas e explícitas de encontros e relações sexuais. A capacidade de descrever essas cenas de uma forma crua e bem construída surpreende o leitor. Talvez tenham sido as cenas mais intensas que já li. Há, ainda, reflexões interessantes sobre a culpa relacionada aos desejos e fantasias sexuais, que acabam desgastando o protagonista e criando dúvidas. Quais seriam seus verdadeiros gostos e do que ele havia reprimido por conta da sociedade conservadora em que vive? Existiria vergonha no desejo?

A abordagem mais romântica da obra fica para as passagens em que o professor relembra de sua primeira paixão e os sofrimentos com o fim desse relacionamento. Também gostei da atmosfera mostrada pelo autor do cenário em que se passa a obra, revelando um pouco do contraste de um norte-americano vivendo em uma cidade com resquícios de um governo socialista.