Clara lê Proust, de Stéphane Carlier | Resenha

Quando você pensa em “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust, o que lhe vem à cabeça? Um livro longo, detalhista e difícil? Então, a história criada pelo francês Stéphane Carlier vai te ajudar a desconstruir essa impressão.

Clara, a protagonista, vive em uma cidade francesa e trabalha em um pequeno cabeleireiro local. Sua rotina é comum, sem grandes acontecimentos, ao lado do namorado cuja beleza chama a atenção da dona do salão. Um dia, ela se vê diante de um presente um pouco inusitado que vai modificar os seus dias – e, quem sabe, o seu futuro. Trata-se do livro “No caminho de Swann”, primeiro volume de um dos maiores clássicos da literatura mundial, “Em busca do tempo perdido”.

Logo nas primeira páginas, Clara se vê fisgada pela forma como o autor descreve os cenários criados em sua narrativa. As cenas minuciosas despertam lembranças de sua infância e a protagonista fica fascinada com a habilidade do autor em despertar emoções apenas com as palavras.

E no decorrer das páginas vamos acompanhando essa relação de Clara com a obra. Confesso que a narrativa envolvendo a vida da protagonista não me cativou muito, sendo o mais interessante da obra as partes em que o autor trazia as leituras de Proust. Apesar de o livro não ter grandes acontecimentos, é uma leitura fácil e gostosa de se fazer.

Com cerca de 150 páginas, a obra pode ser uma boa opção para quem quer fugir de livros mais densos e com temáticas mais pesadas. E não tenho dúvidas de que você vai terminar querendo garantir “Em busca do tempo perdido” nas suas estantes.

Serotonina, de Michel Houellebecq | Resenha

Você gosta de encontrar personagens que te causam raiva e uma sensação de aversão? Há autores que têm essa característica e conseguem, por meio das palavras, construir personas controversas, usando dessa habilidade para tocar em temas polêmicos e sensíveis.

Em Serotonina, um dos principais nomes da literatura francesa contemporânea nos apresenta um personagem detestável: Florent-Claude Labrouste. Na casa dos 40, o protagonista passa os dias reclamando de sua vida e enfrentando os efeitos colaterais dos antidepressivos que toma. Florent-Claude também analisa as situações ao seu redor, com críticas ácidas e controversas.

Sua vida sofre uma virada quando descobre que sua atual companheira fez vídeos pornográficos. Essa notícia faz com que o protagonista decida se mudar, passando a viver em um hotel. Seu trabalho também fica para trás. E com mais tempo livre, Florent-Claude passa a relembrar seu passado, sobretudo suas antigas relações amorosas.

E nessa nova fase de vida parece que o descontentamento do protagonista com o que existe ao seu redor aumenta. Ele entra em um estado ainda mais melancólico e carrancudo, o que causa uma certa tristeza no leitor. As suas viagens pela Normandia parecem ser uma possível resposta para dias melhores, mas cabe ao leitor aguardar. Na verdade, uma tragédia pode até piorar a situação.

Essa foi minha primeira leitura de uma obra de Houellebecq e confesso que gostei do seu estilo de criar personagens destestáveis. Será que nós, leitores, gostamos de acompanhar a desilusão pelo mundo? Com Florent-Claude, estamos diante de críticas à contemporaneidade, por meio de pensamentos problemáticos e embebidos de machismo e relator pornográficos. Uma leitura polêmica e que causa desconforto no leitor. Adorei!

O Lugar, de Annie Ernaux | Resenha

Esse foi o primeiro livro que li da vencedora do Prêmio Nobel de 2022. A leitura foi feita ano passado, antes mesmo do anúncio do Prêmio. Ou seja, fui sem conhecer muito o trabalho de Annie e também sem saber o que iria encontrar. E, no final, confesso que a leitura não me conquistou tanto. Foi uma experiência boa, mas não marcante, principalmente quando comparo com as duas outras leituras que acabei fazendo esse ano (Os anos e O acontecimento).

Em O lugar, encontramos o mesmo estilo da autora, que a deixou conhecida no mundo literário: a capacidade de escrever histórias envolventes a partir de suas memórias, mas com uma visão menos pessoal. Ela se distancia do que viveu, como se contasse as memórias de um outro.

Nessa leitura, inclusive, Annie faz isso de forma mais nítida, já que ela utiliza a figura do pai para refletir sobre a relação entre os dois e fazer uma análise de sua realidade social. Seu pai era um trabalhador simples, que passou pelas duas grandes guerras e viveu as transformações da França do século passado. Por outro lado, Annie teve uma ascensão social por ter tido a oportunidade de uma boa educação e de ingressar na Universidade. Seu livro é uma autossociobiografia.

A temática e a escrita são os pontos altos do livro, que conta com menos de 80 páginas. A forma como Annie relata a sua relação com o pai é muito objetiva e distante, o que, nessa caso, não me cativou tanto. Talvez isso tenha feito com que eu demorasse muito tempo para escrever essa resenha, como se eu precisasse entender o que aquelas poucas páginas deixaram em mim. Hoje, sei que o mais importante foi a vontade de conhecer outras obras da autora – o que, confesso, valeu muito à pena!

“Talvez eu escreva porquê não tínhamos mais nada para escrever um ao outro.”