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O Barman do Ritz de Paris, de Philippe Collin | Resenha

A temática da Segunda Guerra Mundial tem sido abordada de forma constante pela literatura, revelando a necessária retomada de um período devastador da História. Embora a obra de Philippe Collin tenha como pano de fundo esse mesmo acontecimento, ela é construída a partir de uma perspectiva pouco comum: os bastidores de um ambiente descontraído, frequentado pelos endinheirados ou oficiais de alto escalão. Não é nos campos de batalha, presídios de guerra ou campos de concentração que se passa o enredo. mas sim em um bar de um dos hotéis mais luxuosos do mundo.

O protagonista é um personagem real, apesar de o autor informar que precisou rechear a narrativa com ficção. Frank Meier comandou os coquetéis desse famoso local de encontro parisiense por muitos anos. Durante a Segunda Guerra, acompanhou a chegada dos alemães e a transformação do hotel em uma verdadeira acomodação de grandes nomes do exército de Hitler. E não bastasse o ambiente de tensão trazido pela guerra, Meier precisou esconder um segredo que poderia lhe custar a vida: ele era judeu.

Philippe Collin apresenta uma narrativa bem envolvente e interessante. São diversos os personagens que passam pelo local e convivem com o barman, inclusive importantes nomes da sociedade francesa e intelectual da época. O protagonista enfrentou seus medos e ainda se valeu de seus contatos para ajudar judeus que estavam lutando pela sobrevivência a obter documentos falsos.

É uma leitura leve, mesmo com o tema abordado, e pode agradar leitores que se interessam por romances históricos. Não espere um grande desenvolvimento dos personagens ou um estilo literários mais rebuscado, mas sim uma trama instigante e um cenário histórico bem construído.

O tempo das cerejas, de Montserrat Roig | Resenha

O retorno do exílio é um tema que me desperta muito interesse na literatura. Isso porque a pessoa retorna para um local que não existe mais, já que o tempo transformou não apenas o país e a cidade em ela vivia, mas também os seus amigos e a própria família. Em “O tempo das cerejas”, um clássico da literatura catalã, conhecemos a história de Natàlia, uma mulher que retorna à Espanha depois de 12 anos de uma fuga do regime franquista que marcou o seu país por tantos anos.

A obra inicia no ano de 1974, pouco tempo antes da morte de Franco. Seu regime impôs uma política de nacionalismo espanhol extremo, que tinha como objetivo eliminar as diferenças culturais dentro da Espanha. Portanto, os catalães viraram alvo de perseguição pelo ditador, o que motivou a saída da protagonista para viver na França e Inglaterra. O contraste desse retorno depois de mais de uma década é apresentado de forma muito habilidosa pela autora, que escreveu o romance no idioma catalão.

Além disso, Natàlia não é a única voz que acompanhamos durante a leitura. Ao longo dos capítulos, a perspectiva da protagonista dá lugar para outros personagens, dentre eles sua cunhada, seu pai e sua tia. E a autora ainda se vale de uma narrativa não linear, alternando os acontecimentos entre o presente e o passado, de modo que o leitor pode conhecer diferentes momentos da vida dos membros da família de Natàlia.

Gostei da leitura, ainda que tenha sentido uma certa falta de um enfoque maior no tempo presente. Queria um aprofundamento nesse retorno da protagonista, na percepção das mudanças que ela vai identificado ao seu redor e na reconstrução dos laços que deixou para trás. Os personagens são bem construídos e a autora revelou uma habilidade em lidar com diferentes tempos na construção da obra. Uma ótima oportunidade de conhecer mais sobre a literatura catalã, unindo uma visão feminina e um período histórico que marcou a vida de tantos espanhóis e catalães.

Trilogia de Copenhagen, de Tove Ditlevsen | Resenha

A primeira parte da obra, em que a autora dinamarquesa escreve sobre a sua infância, é um dos textos mais marcantes que li nos últimos tempos. Gosto de livros autobiográficos de pessoas “comuns”, que fogem da fórmula best-seller de obras escritas por grandes personalidades de sucesso. E é isso que encontramos em “Trilogia de Copenhagen”, as memórias de uma escritora nascida em 1917 na Dinamarca e cuja vida desafiou os padrões do que a sociedade esperava de uma mulher da sua época.

O livro é dividido em três partes, publicados de forma independente e que foram reunidos só em edições recentes: Infância, Juventude e Dependência. É muito interessante acompanhar a mudança com que a autora se comunica em cada uma das fases da sua vida. A “Infância” me encantou e revelou uma extrema habilidade de narrar uma história a partir da voz de uma criança. Tove cresceu em uma família tumultuada e o afeto lhe fazia falta. Tove era uma criança sonhadora e sua infância acaba lhe perseguindo por toda a vida.

As demais partes também são bem envolventes, com destaque para “Dependência”, em que conhecemos o desafio vivido pela autora na luta contra o vício em remédios. É uma leitura muito angustiante e que pode incomodar um leitor mais sensível.

Tove demonstra uma coragem inspiradora de não se submeter ao julgamento da sociedade. Ela viveu diferentes relacionamentos – muitos que lhe fizeram mal – e não desistia do seu objetivo de ver a sua escrita publicada.

Além disso, apesar de ser um livro de memórias, a escrita carrega uma narrativa similar a um romance. Em vários momentos me esquecia que aquela protagonista realmente existiu e tinha vivido tudo o que estava sendo contado. A sensação era de ler um romance impactante e que me segurava naquelas páginas. Gostei demais e recomendo fortemente!

Ozymandias, de José Roberto de Castro Neves | Resenha

Uma narrativa envolvente que transporta a mitologia grega para a nossa atmosfera brasileira. Castro Neves, um dos mais recentes membros da Academia Brasileira de Letras, constroi uma obra inovadora e que revela a sua ampla bagagem cultural. Com referências que vão de Shakespeare a contos iorubás, “Ozymandias” apresenta ao leitor uma história fragmentada.

A cada capítulo curto, que dão um ritmo fluido à leitura, vamos tentando recompor as peças desse quebra cabeça que esconde o passado dos mais diversos personagens. A protagonista busca compreender o seu passado e acaba encontrando em Ateninhas, uma pequena cidade esquecida, uma possível fuga para as tragédias que marcam o seu caminho.

A vontade é seguir na leitura para desvendar de que forma cada um daqueles personagens está relacionado, assim como o seu destino. Há uma árvore genealógica que vai se sendo preenchida ao longo da leitura, trazendo uma certa lembrança do estilo de Gabo em “Cem anos de solidão”.

Em seu primeiro romance, Castro Neves conseguiu unir uma boa história com um alicerce cultural interessantíssimo. Uma estreia de sucesso que tocar em temas essenciais não só da formação do nosso país, mas da própria humanidade.

Nota: por ser amigo do autor, prefiro não dar nota (sempre faço isso nesses casos)

10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho, de Elif Şafak | Resenha

A premissa desse livro, da autora turca Elif Shafak, é incrível e afeta diretamente a estrutura da narrativa. A obra parte de um dado sobre o funcionamento do nosso corpo, com base em observações científicas: após o coração parar de bater, o nosso cérebro ainda apresentaria atividades por até 10 minutos e 38 segundos. E Elif Shafak se vale dessa informação para dar início a história de Leila Tequila, já que logo na primeira página nos deparamos com a informação que a protagonista teria sido assassinada.

Os motivos são desconhecidos e o leitor não sabe nada sobre essa mulher. No entanto, a autora utiliza os capítulos seguintes para, a cada minutos após a morte de Leila, retomar as suas memórias, desde a infância até esse triste e violento final. Na primeira parte do livro, cada capítulo é um minuto. E, na minha opinião, foi aí que a escrita da autora me ganhou. Ela consegue estimular uma compaixão do leitor com a protagonista, além de despertar a curiosidade por essa mulher que desafiou o ambiente em que vivia.

Elif Shafak também nos transporta para a Turquia, construindo um cenário que contempla a cultura e tradições desse país. Leila é uma prostituta que acabou sendo conduzida para o seu destino, sem ter muitas escolhas. Crescer em um ambiente conservador e machista não só lhe roubou oportunidades, mas manteve a protagonista em um caminho de sucessivas violências. As amizades que Leila foi construindo lhe fornecem um afeto e acolhimento para seguir em frente…

Também vale dizer que Istambul é uma das personagens da obra. Eu visitei a cidade durante a leitura, já que foi um dos destinos do Bookster pelo Mundo 2025, e poder passear pelos locais mencionados pela autora foi uma oportunidade marcante.

A partir da segunda parte da obra, passamos a acompanhar sua história a partir de uma nova perspectiva. Senti que a leitura perdeu um pouco o ritmo com essa mudança, se tornando mais apressada e com um desenvolvimento menos interessante dos personagens. Ainda assim, a experiência com “10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho” foi muito envolvente e terminei a obra com a certeza de que esse é um daqueles livros que posso sair indicando, já que as chances de agradar o leitor são altas. Leila Tequila vai permanecer com você por um bom tempo!

Nota 9/10

Carta ao pai, de Franz Kafka | Resenha

Carta ao pai, de Franz Kafka

Quais os impactos que uma relação conturbada entre com o pai pode trazer para a vida de um filho? A partir de uma longa carta escrita por Kafka ao seu pai, Hermann Kafka, em 1919, podemos concluir que as marcas são duradouras e complexas. O texto é muito potente e nos dá a sensação de mergulhar na intimidade de alguém, como se estivéssemos abrindo um diário que nunca deveria ter sido lido.

O ponto de partida desse “acerto de contas” é um casamento de Kafka que sofreu resistência por parte de seu pai. Essa nova amostra de comportamento autoritário e bruto permite que o autor relembre as dificuldades de lidar com um homem que sempre faltou no afeto e acabou lhe roubando uma parte da própria identidade. A sensação é que Kafka expõe suas feridas para encerrar uma sequência numerosa de silêncios. Um ato de muita coragem.

E apesar de se tratar de uma carta repleta de intimidades, me impressionou como a experiência do autor é transformada em algo universal. Kafka escreve sobre a busca pela aceitação, a sensação de insuficiência e as dores da falta do amor. Mesmo que o leitor não tenha vivido uma relação marcada por essa autoridade, é impossível não se reconhecer em alguma das emoções descritas.

A escrita de Kafka é precisa e direta, mas revela a vulnerabilidade daquele filho que sentiu medo e sofreu pelo desprezo. Ele escreve também como uma forma de buscar entender como o pai pode ter influenciado tanto os anos que seguiram sua infância. Talvez a resposta nunca seja recebida, mas o exercício de colocar para fora sentimentos tão enraizados possa ser uma trégua para memórias tão amargas.

Da próxima vez que você cair do cavalo, de Panayotis Pascot | Resenha

Sexualidade, relações familiares e saúde mental. Três temas que despertam muito meu interesse e que marcam o fio narrativo da obra de estreia do francês Panayotis Pascot. Depois de conquistar sua fama nos palcos de stand-up comedy, o humorista mergulha em suas memórias para escrever um livro impactante e que dialoga com muitas das questões enfrentadas pelas gerações atuais.

O ponto de partida é a conturbada relação com seu pai, que lida com uma doença grave. A iminência da morte leva Panayotis a refletir sobre questões que nunca foram superadas no âmbito familiar e que o autor carrega para outras áreas de sua vida. Dentre elas temos a dificuldade da auto aceitação da sexualidade, que manchou muitos anos de sua juventude. Para quem viveu algo semelhante, não há como deixar de enxergar a coragem e a sinceridade nas palavras do autor.

E é com essa mesma coragem que Panayotis aborda os desafios com sua saúde mental. A depressão que paralisa e alimenta uma sensação insuportável de desesperança. São crises que refletem uma dor ainda tão pouco compreendida. Expor uma vulnerabilidade como essa é a certeza de que outros leitores poderão se identificar e se sentir acolhidos em um sofrimento que não precisa ser solitário.

Gostei muito da leitura, até por conseguir me conectar em vários momentos descritos pelo autor. A escrita é simples e fácil, mas isso não retira a densidade dos temas abordados. A sensação, para mim, é de que li um Édouard Louis, mas sem as discussões sociais e políticas, já que a proposta de Panayotis é mergulhar em dores subjetivas de difícil acesso. Recomendo!