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Andaimes, de Mario Benedetti | Resenha

O título da obra já antecipa a estrutura que Benedetti, um dos maiores nomes da literatura uruguaia, usou para construí-la: um romance fragmentado. São 75 pequenos capítulos, denominados de andaimes pelo autor, que têm como tema principal o regresso de um cidadão uruguaio para sua terra natal depois de mais de 10 anos de exílio.

O leitor acompanha o processo de “desexílio” do protagonista, Javier. A experiência de voltar para um país que não é mais o seu da forma como conhecia. É a sensação não só de se sentir um estranho no lugar onde nasceu, mas também de encontrar amigos e familiares que não são os mesmos. A ditadura deixou marcas e quem deixou o país a sentiu de outras formas. E, na minha opinião, esse processo do retorno abordado pelo autor transforma “Andaimes” em uma obra interessantíssima e pouco comum.

Além disso, os capítulos seguem padrões distintos: há cartas, poemas, memórias, sonhos, diálogos… a forma é livre, assim como a cronologia. O que no começo pode deixar o leitor um pouco confuso, acaba se revelando um estilo muito rico e que transmite a ideia de “construção” da narrativa. Não espere grandes acontecimentos, já que o texto apresenta uma carga mais subjetiva, dos impactos causados na vida de Javier e das pessoas a sua volta.

O protagonista deixou família Uruguai e, muito anos depois, acaba fazendo o mesmo ao retornar ao seu país natal. A relação com sua mãe e com sua ex mulher acaba deixando a obra menos política e nos envolve com a leitura. Não amei o final, mas consegui fazer as pazes com a escolha do autor – sem mágoas.

Enfim, uma belíssima obra sobre memória, identidade, reconstrução e mudanças. Gostei muito e acabai lendo na sequência “A trégua”, do mesmo autor (que será objeto de uma outra resenha). Recomendo muito, mas com a observação que é uma leitura com um ritmo um pouco mais lento!

O pavilhão dourado, de Yukio Mishima | Resenha

O ritmo acelerado que vivemos ultimamente vem colocando a pausa e o silêncio como grandes – e incômodos – inimigos. E foi na contramão desse fenômeno que a leitura de um dos principais autores japoneses do século passado atingiu os leitores do meu clube do livro, o Bookster pelo Mundo. Uma obra escrita em 1956, em uma sociedade completamente distinta da nossa e que tinha como protagonista um monge de um templo budista zen, acabou se tornando uma leitura desafiadora – e, para mim, uma experiência muito marcante.

Mizoguchi, um jovem monge gago, nasceu ouvindo seu pai falar sobre O pavilhão dourado, um templo localizado em Kyoto e que detinha uma beleza indescritível. Aos poucos, e depois de conhecer o local pessoalmente, o templo acaba se tornando uma verdadeira obsessão para o protagonista. A beleza do templo, folhado a ouro, o impede de seguir uma vida normal e de seguir a sua trajetória dedicada à filosofia zen. O templo o perturba, é um obstáculo entre Mizoguchi e sua vida.

E ao longo da narrativa, dois personagens acabam cruzando a vida de Mizoguchi, de maneira antagônica: Tsurukawa, um estudante otimista e que nutre uma admiração pelo protagonista; e Kashiwagi, um garoto cínico e que desperta o pior em Mizoguchi, utilizando a sua capacidade de manipulação para enganar as mulheres. Também não há como deixar de considerar o próprio Pavilhão dourado como um dos personagens principais da obra: sua beleza exerce um poder insuportável sobre Mizoguchi. Um lembrete do que o protagonista não poderia alcançar.

A escrita é densa e promove um mergulho do leitor nos pensamentos do jovem monge. Esse caráter psicológico do texto traz um ritmo mais lento e, em alguns momentos, repetitivos, já que estamos na cabeça de um personagem obsessivo e atormentado. São muitas as reflexões propostas por Mishima. Os conteúdos que produzimos para o clube acabaram enriquecendo muito a leitura, tornando essa experiência não só desafiadora, mas de muito aprendizado. O ápice, para mim, foi poder visitar o Pavilhão dourado em Kyoto enquanto eu fazia a leitura: a sua beleza é realmente inesquecível.

Homem comum, de Philip Roth | Resenha

É comum encontrarmos na literatura a descrição de acontecimentos extraordinários e vidas marcadas por grandes momentos. No entanto, há grandes autores com a habilidade de construir histórias memoráveis sobre vidas comuns, rotinas insossas e partidas sem legados. Já li diferentes obras com essa abordagem e, quando bem feita, consegue me impactar de uma forma única.

Nesse curto romance de um dos principais autores norte-americanos, já sabemos pelo próprio título que o protagonista não tem uma vida digna de um filme de Hollywood. Logo nas primeiras páginas, nos deparamos com o seu fim e como as pessoas mais próximas dele reagem a esse destino inescapável. Aos poucos, vamos descobrindo as memórias de seu passado e o encontro desse homem comum com um futuro do qual ele não tem muito do que se orgulhar.

Esse “homem comum”, cujo nome permanece desconhecido, é um profissional de sucesso que vive em Nova York e enfrenta uma relação complicada com seus dois filhos do primeiro casamento. Ele não se deixa abalar pelo término e segue em suas aventuras por novas relações. Uma nova filha que lhe dá orgulho surge no cenário familiar, que ainda conta com um irmão que desperta sentimentos contraditórios em seu íntimo.

A sua vida é, ainda, marcada por perdas. Desde a infância, o protagonista vê a morte de perto e isso irá marcar a forma como enxerga a vida. Quando a idade avança, começa a notar o desgaste do corpo. Ele se torna uma verdadeira vítima de seu estado físico e de uma sucessão de doenças.

É uma leitura extremamente melancólica! Gosto muito de Roth e da sua capacidade de despertar no leitor reflexões sobre temas universais e, ao mesmo tempo, abordar aspectos contemporâneos. Impossível não se identificar com as angústias de seus personagens – ainda que, nesse caso, o protagonista seja bastante detestável. Mas a pergunta que fica é: será que há no final um verdadeiro arrependimento ao olhar para trás e se deparar com uma vida de pouco significado?

Orgulho e preconceito, de Jane Austen | Resenha

Há livros que carregam um peso quase insuportável de expectativa. Orgulho e preconceito, publicado em 1813, é um desses. Clássico incontornável, adaptado para todos os formatos possíveis, considerado por muitos o grande romance de Jane Austen. No entanto, a minha experiência não alcançou essa expectativa: em vários momentos, a leitura me pareceu arrastada, como se essa grande novela sobre a sociedade do final do século XIX não se tivesse me envolvido.

Mas, quero deixar bem claro, não dá para negar o brilhantismo de Austen (sobretudo considerando que a obra foi escrita há mais de 200 anos). A ironia ácida com que ela constrói Elizabeth Bennet é irresistível. Inteligente e sagaz, a protagonista encarna um espírito crítico raro para sua época. É através dela que a autora desmonta, com humor e lucidez, uma sociedade que reduz a vida das mulheres à busca por um bom casamento, preferencialmente vantajoso e financeiramente seguro. No interior inglês que serve de cenário, as aparências valem tanto quanto os sentimentos, e a reputação de uma família pode ruir com uma fofoca.

E é nesse contexto que surge Mr. Darcy, talvez um dos galãs mais célebres da literatura. Sua reserva e certo ar de superioridade despertam de imediato o desprezo de Elizabeth, mas a história mostra como as primeiras impressões podem ser enganosas (talvez daí venha o título do livro). E a partir disso, surge um jogo delicado de sentimentos.

Se a narrativa às vezes pareceu estagnada para mim, o mérito de Austen está em outra camada: tantos anos depois, o romance ainda soa atual. Ainda discutimos relações atravessadas por interesses, desigualdade de gênero e a pressão social pelo “modelo ideal” de vida.

No fim, não foi a leitura arrebatadora que imaginei, mas foi uma experiência interessante: me fez refletir sobre como certos clássicos sobrevivem não por agradar sempre, mas por continuarem a provocar.

Nadando no escuro, de Tomasz Jedrowski | Resenha

É inegável a minha felicidade em encontrar cada vez mais obras LGBTQIA+ nas livrarias e estantes dos leitores, narrando histórias que por muito tempo ficaram silenciadas. Nadando no escuro é um desses livros: ambientado na Polônia dos anos 1980, em plena Guerra Fria, ele acompanha a relação entre Ludwik e Janusz, dois jovens que se conhecem num acampamento de verão e vivem uma paixão intensa, mas atravessada pelo peso de uma sociedade repressora. Essa descoberta de que dois garotos poderiam ter mais que uma amizade gera muita angústia, medo e vergonha nos personagens.

Mas confesso que, apesar de todo esse contexto que me interessa muito, não consegui me envolver tanto com a leitura quanto eu esperava. Comecei com altas expectativas, depois de receber várias recomendações, mas encontrei um desenvolvimento um pouco raso dos personagens. Eu queria conhecer mais do que se passava na cabeça Ludwik e Janusz e, por isso, senti dificuldade de me conectar com a narrativa – apesar da identificação com os dilemas de sexualidade.

De todo modo, o livro tem pontos positivos. Achei interessante a forma como o romance evidencia o contraste que marca um casal composto de pessoa que consegue avançar no processo de autoaceitação, enquanto o outro continua vivendo como se precisasse esconder algo. Para as pessoas da comunidade LGBTQIA+, é comum viver um relacionamento como esses e isso causa muito sofrimento… para os dois lados.

O contexto histórico também enriqueceu a experiência da leitura. A partir das transformações vividas no entorno de Ludwik e Janusz, conseguimos compreender os impactos sofridos pela Polônia no pós-guerra, com uma crescente violência e desigualdades.

A escrita é simples e acessível. Para quem não tem muito hábito de ler e procura uma obra com temática LGBTQIA+, “Nadando no escuro” pode ser uma ótima escolha. No entanto, não espere encontrar reflexões mais densas ou um mergulho nos dilemas dos personagens… ou você pode se decepcionar. Enfim, o livro não é ruim, mas a considerando que ideia do autor é tão interessante, a expectativa é de que ela ter sido melhor executada.

As primas, de Aurora Venturini | Resenha

Extraordinário e peculiar. Dois adjetivos para descrever a leitura de “As primas”, um romance argentino que entrou para a lista das melhores leituras dos últimos tempos. A autora publicou a obra com mais de 80 anos, quando ganhou notoriedade pela sua escrita. Aliás, a vida de Aurora Venturini é bem excêntrica e curiosa e, conforme revelado em algumas entrevistas, esta obra conteria traços autobiográficos.

O leitor acompanha Yuna, uma jovem que nasceu em uma casa conturbada. Como acompanhamos os seus pensamentos, ela não precisa esconder o que vem à cabeça… não há filtros na hora de analisar o ambiente e as pessoas a sua volta. Yuna tem uma relação de pouco afeto com a mãe, uma professora que não acredita nos talentos da filha, e sente uma certa raiva de sua irmã, Betina, que é uma pessoa com deficiência. Mas o rol de personagens mulheres que povoam a narrativa é muito mais extenso: avó, tias, primas… cada um com suas esquisitices e chatices, na visão de Yuna. Os homens, por sua vez, têm o triste – mas não surpreendente – hábito de abandonar, deixar tudo para trás.

Esse ambiente caótico ganha uma possibilidade de saída quando a protagonista conhece o professor Camaleón, que acredita no seu potencial para a pintura. Seus quadros são a sua forma de comunicar todos os fantasmas que habitam sua mente e isso a jovem faz com muita habilidade.

Yuna é daquelas personagens tão bem construídas que deixam saudades no leitor. A gente se envolve e acompanha o seu amadurecimento ao longo das páginas. O contraste entre a Yuna do início e do final da obra é emocionante, tanto em relação à linguagem, como ao seu comportamento no ambiente conturbado em que cresceu. O papel da arte também é um aspecto que torna a leitura ainda mais interessante.

Por fim, um dos pontos altos é a escrita de Venturini. Um humor ácido e irônico, sem filtros e com alta capacidade de incomodar um leitor que não separe o que seria uma “opinião” de uma autora e a construção de seu personagem. E como disse a tradutora da obra, @holamarianasanchez, na conversa que tive com ela para o clube do livro, a literatura tem como um dos seus objetivos justamente causar incômodos no leitor. Um livraço!

Mudar: método, de Édouard Louis | Resenha

Édouard Louis foi impecável nessa obra, a minha favorita do autor até o momento (e olha que li praticamente tudo o que ele já escreveu). É claro que a vivência da sexualidade me aproximou da obra, e me fez enxergar muitos dos meus próprios sentimentos, mas não tenha dúvidas de que os processos de transformação narrados pelo autor vão deixar marcas em qualquer pessoa que tenha esse livro em mãos.

De um garoto nascido em uma família conservadora da classe operário em uma pequena cidade francesa para um autor gay de sucesso e com livros publicados em diversos países, o caminho foi marcado por muito medo, culpa, vergonha e raiva. Édouard não queria pertencer aquele ambiente em que havia nascido, sentia a urgência de ascender socialmente, deixar aquele lugar opressivo para trás.

Essa fuga, no entanto, exigiu muito daquele jovem. Era preciso negar a família, a sua forma de falar, de se comunicar e de se vestir. Era necessária uma transformação para uma nova pessoa. Até o próprio nome ele deixou para trás. E ao narrar toda essa luta interna contra quem se é e contra as pessoas a sua volta, o autor faz análises sociais e políticas na tentativa de compreender um pouco do que o levou até aquelas circunstâncias. Como ele se viu inserido em um círculo de violências, em que não é possível identificar o que o iniciou. Édouard conseguiu sair, mas muitas das pessoas que ele amava não foram atrás de uma saída…

A escrita é direta e muito lúcida, com parágrafos que revelam um profundo entendimento do autor sobre o seu passado. Ele consegue colocar em palavras sentimentos complexos, revelando um verdadeiro mergulho no seu passado. Édouard conseguiu transmitir de forma muito consciente o que viveu – ainda que muitas vezes não tenha respostas. Leiam esse livro, é maravilhoso e vai permanecer em você por um bom tempo…

10/10