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Pequena coreografia do adeus, de Aline Bei | Resenha

Pequena coreografia do adeus, de Aline Bei Aline Bei tem a habilidade de criar caminhos no interior do leitor, sempre trazendo consigo temas sensíveis como perda, relações familiares e as diferentes formas de violência a que as mulheres são constantemente submetidas. Assim como nos seus outros dois sucessos, com destaque para “O peso do pássaro morto”, a jovem autora nos apresenta em seu segundo romance uma narrativa centrada em personagens mulheres complexas e emocionalmente densas.

Em “Pequena coreografia do adeus”, a protagonista é Julia, uma jovem que vive à sombra da figura de seus pais. Divorciados, Dona Vera e Sérgio carregam marcas deixadas pelo casamento, seja pela dificuldade de aceitar o término seja pelo arrependimento dos anos que viveram juntos. Para a filha, a incompatibilidade entre a figura dos pais e a figura de dois indivíduos falhos e imperfeitos é um sentimento que, já na infância, incomoda. Acompanhando suas memórias desde os seus primeiros anos até a fase adulta, vamos compreendendo aos poucos como a sua relação com os seus pais foram moldando as suas memórias e deixando marcas que, muita vezes, são de difícil cicatrização. Com a elaboração de suas vivências, Julia tenta se apegar aos novos relacionamentos para se desprender dos traumas e buscar delinear o seu próprio caminho. Por mais difícil que seja, sua história não precisa se confundir constantemente com a daqueles que a criaram. A escrita de Aline tem como características a poesia e o experimento na estrutura do texto. A gente aprecia a escolha das palavras na construção da narrativa, ao mesmo tempo que nos emocionamos com o impacto que elas causam. A autora usa os espaços da página, tamanhos da letra e formato do texto para dar ritmo e ênfase aos acontecimentos. É, realmente, uma experiência imersiva na leitura. Acabei sendo fisgado pela narrativa com o decorrer da leitura e, sem dúvidas, não dá para ficar imune às dores e traumas de Julia. Mais uma belíssima e sensível obra de Aline. PS: Considerando que a autora é minha amiga, prefiro não dar uma nota objetiva para a minha experiência com a leitura.

O Colibri, de Sandro Veronesi | Resenha

O Colibri, de Sandro Veronesi Uma vida longa envolve, inevitavelmente, perdas e decepções. Os momentos felizes existem, é claro. Mas para o protagonista Marco Carrera, as ausências deixaram marcas doloridas. Desde a infância até os seus últimos suspiros. Nas páginas do romance vencedor do Prêmio Sterga, acompanhamos os primeiros anos, a relação com seus pais e irmãos, as dores de amores não vividos e o conflito com as novas gerações.

E no meio de tantos acontecimentos, Marco parece ficar imóvel. Ele segue firme, às vezes até revelando um comportamento apático, mas continua. É, no final das contas, a vida de um homem comum, sem tantas virtudes ou grandes conquistas. E é isso que encanta o leitor. A forma de construção da narrativa também é muito interessante: os capítulos alternam entre as mais diversas formas, desde cartas, encontros, conversas de telefone e mensagens de whatsapp. E o leitor acaba ficando preso na história pelo vai e vem temporal, já que não se trata de uma vida contada de forma linear. Aos poucos vamos descobrindo mais do passado para compreender como Marco chegou nesse presente – e até no futuro. Esse estilo pode confundir o leitor na primeira parte da obra, mas eu recomendo que você insista.

Um romance completo e que facilmente irá agradar o leitor. Terminei a leitura emocionado, com algumas lágrimas nos olhos. Até porque dificilmente você não vai se identificar com passagens dessa vida que, de tão comum, se tornou universal.

A tabela periódica, de Primo Levi | Resenha

A tabela periódica, de Primo Levi O autor italiano Primo Levi é mundialmente conhecido por sua obra “É isto um homem?”, em que narra a brutalidade da sua experiência como um sobrevivente dos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. E a sua habilidade em compartilhar suas memórias ao mesmo tempo em que adiciona elementos históricos também se confirma com o lançamento da Companhia das Letras no Brasil: A tabela periódica.

Nessa coletânea de 21 contos interligados, o autor ainda adiciona um aspecto relevante de sua vida e que torna a obra interessantemente incomum – a sua relação com a Química. Cada um dos contos leva o nome de um elemento químico. E é mesclando o seu conhecimento decorrente da sua formação na área que Primo Levi nos apresenta momentos importantes de sua vida a partir dos elementos que encontramos na tabela periódica. E se nos dois primeiros contos a experiência pode soar um pouco diferente para o leitor, o restante das páginas desperta o interesse e a curiosidade para saber o que vem a cada novo conto.

A narrativa vai desde a sua juventude em uma família italiana de origem judaica até a tentativa de reconstruir uma vida no período do pós-guerra. Nesse meio tempo, ainda conhecemos as fases de sua formação em Química e suas primeiras experiências profissionais. É claro que, como a sinopse já sugere, também há passagens mais “técnicas” sobre os elementos ou processos químicos descritos, mas sempre apresentados de uma forma acessível para o leitor leigo. Gostei demais dessa leitura! Primo Levi conseguiu conciliar uma matéria que parece tão exata e objetiva com uma escrita humana e uma prosa envolvente. A Química apresentada como uma metáfora da vida do autor. Há, ainda, capítulos com textos ficcionais de Primo Levi e que se encaixam muito bem na linha narrativa construída. Enfim, não se desencoraje com os dois primeiros contos, já que “A tabela periódica” é uma obra mais experimental, que foge do comum, mas que deu muito certo!

Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami | Resenha

Com certeza o meu livro favorito do autor. Com sua extrema habilidade de mesclar o mundo real com aspectos fantásticos, Murakami nos apresenta a vida de dois personagens que, aparentemente, não tem nada em comum: Kafka Tamura, um garoto de 15 anos que, após fugir da casa de seu pai, sai em busca de sua mãe e irmã para se livrar de uma profecia; e Satoru Nakata, um idoso que, após sofrer um acidente na infância, desenvolve a habilidade de falar com gatos. A construção das personagens, solitárias e à margem da sociedade, é feita de forma impressionante, evidenciando os aspectos mais profundos da condição humana. Além de uma trama instigante e misteriosa, criando no leitor a curiosidade em ler a próxima página, o livro é rico em referências culturais. É difícil descrever a qualidade dessa obra… Apenas leiam!!!

O aniversário, de Andrea Bajani | Resenha

A que ponto uma relação deve estar degradada para que um filho tome uma decisão de abandonar os pais? Sem um aviso prévio, cortar qualquer forma de comunicação, sem prazo para retorno. Em sua obra mais recente, que levou o maior prêmio literário da Itália em 2025, Bajani mistura ficção e memórias para escrever um romance incômodo sobre relações familiares e a dificuldade de encontrar uma nova chance em meio a tantas mágoas.

Como já fica claro nas primeiras páginas, o pai é a origem para as dores que resultaram na fuga. Um pai controlador e extremamente autoritário, que causa no filho um receio constante e um desejo de ser aceito. Mas o que de fato motivou a decisão brusca do narrador é uma informação que vai sendo revelada aos poucos.

O mais interessante é que o narrador apresenta suas memórias sobretudo a partir da vida de sua mãe. Uma mulher que se deixou apagar, sumiu naquele contexto familiar. Era como se o espaço ocupado pelo marido e pai não permitisse que eles pudessem coexistir. Seus desejos, sua voz e suas escolhas ficavam a cargo do chefe da casa. Até uma simples ligação de telefone deveria ser controlada. “(…) ele queria que ela não fosse nada para poder ele ser alguma coisa, e ela queria ser nada porque ser nada era pelo menos alguma coisa”.

E o protagonista sequer consegue encontrar uma relação de apoio na irmã. Apesar de serem duas vítimas daquele ambiente de uma violência doméstica constante, o desencontro toma conta dos dois.

O autor italiano, que acaba de ter sua participação confirmada na Flip, em Paraty, nos entrega uma escrita concisa e, por vezes, até seca. Os acontecimentos são narrados sem grandes devaneios e o impacto no leitor é sentida pela dinâmica familiar que Bajani vai revelando aos longo das páginas. E, ao final, a pergunta que fica em “O Aniversário” é: será que conseguimos de fato romper com os laços familiares e, a partir de uma fuga, ter uma nova chance e se libertar da dor?

Relato de um náufrago

Publicada em vários capítulos no Jornal El Espectador, em 1955, “Relato de um náufrago” é uma das primeiras obras escritas por Gabriel García Márquez e nos apresenta um texto jornalístico, que causou fortes impactos na sociedade da época. A narrativa traz em detalhes os 10 dias de Velasco, um marinheiro que é arremessado, junto com outros colegas, de um navio durante uma tempestade em fevereiro de 1955. Velasco foi o único sobrevivente da tragédia e ficou à deriva sozinho em uma pequena balsa por 10 dias até ser encontrado em condições extremas.

O sucesso do relato publicado por Gabo não se deu apenas pela sua habilidade de escrita, mas pelas informações contidas nos depoimentos de Velasco. A versão que havia sido contada até o momento foi alterada e, com o novo texto, o governo ditatorial da época acabou sendo envolvido no acidente que levou os marinheiros ao mar.

A leitura é muito instigante, você não consegue largar as páginas até conseguir entender como Velasco sobreviveu em condições tão difíceis. E apesar de ser um texto jornalístico, Gabo já revela muito da sua habilidade em contar boas histórias, o que se confirmaria anos depois com seus romances tão marcantes. O leitor sofre com a sede, com a fome e com a desesperança do protagonista.

Para quem nunca leu nada do autor, essa pode ser uma excelente opção para iniciar. Uma história real, envolvente e que te transporta para as emoções vividas por Velasco durante os seus dias na luta pela sobrevivência.

O retorno, de Dulce Maria Cardoso | Resenha

A literatura portuguesa já conquistou meu coração de leitora há anos, com várias obras entrando para a minha lista de favoritas da vida. O que sempre me incomodou, confesso, era a pouca presença de autoras mulheres nas minhas leituras. O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, estava na minha estante há tempos – e fico muito feliz de finalmente ter dado uma chance a ele. Fui imediatamente envolvido pela narrativa e pela força da temática.

Voltamos à década de 1970, quando Portugal perde as suas colônias do continente africano e precisa receber centenas de milhares de portugueses e seus descendentes que viviam em Angola, Moçambique e outros territórios. É um movimento histórico que eu ainda não tinha encontrado na literatura: a volta de quem, na verdade, nunca tinha ido. Retornar para uma casa que não é sua. Não pertencer.

É justamente esse o caso de Rui, protagonista do romance. Adolescente nascido em Angola, ele cresceu, estudou e construiu laços naquele país. Mas tudo muda com a independência angolana, em 1975. Rui, a mãe e a irmã precisam deixar às pressas o único lugar que ele chamou de casa. O pai permanece em meio à violência, prometendo reencontrá-los em Portugal.

Além do trauma da partida, Rui enfrenta o preconceito contra os “retornados” e o medo constante sobre o futuro. Em Lisboa, a família é realocada em hotéis transformados em centros de acolhimento para quem chega da África. Lugares superlotados, marcados pela incerteza e pela falta do que ficou para trás. O protagonista vive o medo de nunca mais encontrar o seu pai.

Também gostei muito de acompanhar tudo pela perspectiva de um jovem que, apesar do caos ao redor, continua vivendo as banalidades e inquietações da adolescência. Entre o deslocamento e o amadurecimento, Rui ainda sente as vontades e angústias de um garoto da sua idade.

Terminei a leitura admirando a escrita envolvente da autora, o contexto histórico e a profundidade dos personagens. “O retorno” me fez refletir sobre uma temática que eu pouco conhecia e me apresentou uma autora portuguesa potente, que certamente terá lugar cativo na minha estante.