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Bom dia, Inverno, de Tamara Klink | Resenha

Aos 27 anos, Tamara Klink fez algo inimaginável: embarcou em seu pequeno barco “Sardinha 2”, velejou para o Ártico, encontrou um lugar calmo e parou. Uma pausa do ritmo desenfreado em que vivemos, da necessidade de lidar diariamente com o outro e da sequência de compromissos que parecem nos atropelar. Ela simplesmente aguardou a água ao seu redor congelar. O inverno chegou, as horas diárias de sol chegaram a zero. E ficou meses vivendo uma experiência que poucos conhecerão.

A sorte é que contamos com a gentileza de Tamara, que decidiu compartilhar esses momentos de isolamento total. Os seus companheiros nessa aventura foram o silêncio, os pensamentos e alguns animais que eventualmente passavam pelo cenário ao seu redor. Nada mais. Ela encheu o barco com suprimentos para 2 anos de viagem (caso algum imprevisto acontecesse) e precisou recriar uma nova rotina.

E não se engane achando que a obra vai focar apenas nas dificuldades práticas enfrentadas pela autora para conseguir cumprir esse desafio. Em paralelo aos aspectos mais aventureiros, encontramos reflexões muito interessantes que Tamara registrou durante o período. Por quais mudanças a mente vai passando quando estamos sozinhos, sem a necessidade de agradar algum outro? Não há mais obrigação de se mostrar apresentável para a sociedade, de sorrir, de falar… há uma internalização intensa. Uma viagem sem sair do lugar.

Tamara escreve de forma delicada e verdadeira. O que para nós se mostra como uma decisão impensável, para a autora é quase uma necessidade, natural pela forma com que ela se relaciona com a natureza. Me surpreendi com essa leitura e tenho certeza de que ainda teremos muitos novas aventuras para embarcar junto com essa mulher tão corajosa e inspiradora.

Nota 9/10

Lendo Lolita em Teerã, de Azar Nafisi | Resenha

Em meio a um ambiente repressor, qual papel a literatura pode ter na vida das pessoas? É possível seguir com a arte mesmo quando direitos mínimos não são assegurados? Essas são algumas das questões abordadas pela autora iraniana em seu livro de memórias que conquistou milhares de leitores pelo mundo.

A narrativa começa com uma decisão corajosa de um grupo de mulheres: lideradas pela professora Azar Nafisi, jovens estudantes resolvem se unir semanalmente para conversar sobre literatura. A atividade é sabidamente arriscada, já que naquele momento, no final da década de 90, as obras de literatura ocidental eram censuradas. Elas começam lendo Lolita, do autor russo Nabokov, e as discussões passam a ser um momento de respiro em um cenário de tanta repressão para as mulheres e para a cultura.

Aos poucos, a autora volta alguns anos e nos leva para a Revolução Iraniana, momento em que dava aulas na Universidade de Teerã. A partir desse episódio, no entanto, começam a surgir obstáculos para a sua profissão, seja pelo simples fato de ser uma mulher, seja pelo conteúdos do curso. E quando falamos de conteúdo, falamos de literatura, de obras como O grande Gatsby, considerada como imoral pelo regime conservador e totalitário.

E é nessa alternância entre seu passado e os encontros com as jovens do grupo de leitura que Azar Nafisi constrói um relato sobre o poder da literatura, um regime autoritário e a coragem de não deixar os sonhos de lado.

A obra é muito interessante, mas confesso que em alguns momentos senti o ritmo diminuir, como se alguns dos temas ficassem repetitivos. De toda forma, gostei como a autora mistura literatura e memória, trazendo novas perspectivas sobre os livros mencionados. Por fim, a leitura ainda consegue nos mostrar um pouco da realidade do país no período das décadas de 70 e 90, o que ajuda o leitor a compreender o cenário do conflito atual.

Nota 8/10

O verão em que mamãe olhos verdes, de Tatiana Tibuleac | Resenha

Apesar de o amor de mãe ser tido como incondicional, nem sempre a relação com os filhos é como se espera. Seja por um afeto não correspondido, uma ausência a despeito da proximidade ou um arrependimento mal elaborado, há mães e filhos que preferem se afastar. Ou talvez seja uma mistura de todos esses fatores. Em algumas situações, seguir caminhos distintos pode ser a melhor solução.

Para Aleksy, o ódio que sentia por sua mãe era suficiente para justificar uma convivência pouco intensa. O sentimento do filho choca o leitor já nas primeiras páginas, despertando a curiosidade em compreender a origem de tamanho desprezo. Não há uma resposta única para uma relação tão complexa e, na busca por explicações, passamos a conviver junto com esses dois personagens em um momento peculiar de suas vidas: um verão na França.

Um novo cenário, uma rotina diferente e a possibilidade de (re)descobrir um afeto perdido. Um momento de coragem para mãe e filho. Aleksy é um jovem que sofre com acessos de raiva e enfrenta dificuldades para compreender suas emoções. Sua mãe é quase um enigma, preenchida de dores e arrependimentos, mas que é capaz de transmitir humanidade.

Eu gostei demais! Uma leitura forte, emocionante e com uma dose de humor mais ácido. A possibilidade de perdão aparece como desconforto e diálogo, e não como redenção. A leitura pode não agradar a todo leitor e o início já causa um estranhamento, mas vamos sendo levados por uma narrativa que aos poucos parece se encaixar. Não de uma forma racional, mas a partir dos sentimentos dos personagens. Acredito que seja uma das poucas obras representantes da literatura moldava no Brasil, mas se tiverem mais autoras como Tatiana Tibuleac, torço para que a gente possa ter a sorte de ter esses livros em mãos.

Pão dos anjos, de Patti Smith | Resenha

Gosto de biografias romanceadas, que revelam não datas, nomes e lugares do protagonista daquela vida que está sendo lida, mas que se aprofunda em um lugar mais íntimo, um lado pouco conhecido. Eu já havia lido “Só garotos”, de Patti Smith, e fiquei totalmente envolvido por aquela atmosfera descrita e pela vida caótica e vibrante daqueles jovens. E se naquela obra a autora nos apresentou um recorte específico de sua vida, em seu mais novo livro ela nos convida a acompanhar toda a sua trajetória, passando por momentos simples e extremamente pessoais.

A parte da sua infância foi, para mim, o momento mais envolvente da leitura. Uma garota que precisou ficar semanas e semanas acamada para combater diferentes doenças, que guardava tesouros especiais em um esconderijo secreto e que aos poucos foi descobrindo a sua paixão pela arte. A forma como Patti nos apresenta os seus primeiros anos é singular e emocionante. A relação com os pais, o nascimento de seus irmãos e as diversas mudanças que ditaram os rumos da sua infância são contadas como uma tarefa gostosa – e por vezes dolorida – relacionada ao ato de lembrar.

É verdade que o momento em que a autora foca na evolução de sua carreira pode imprimir um ritmo mais lento para o leitor que conhece menos o seu passado musical, mas a narrativa já retoma o fôlego quando passamos a conhecer detalhes sobre o seu relacionamento com Fred. Talvez seja a primeira vez que Patti tenha aberto esse capítulo de sua vida e é muito emocionante acompanhar todos esses momentos, passando pela morte do seu companheiro e entrando em temas como luto e sua reconstrução criativa. O amor e a perda estão presentes de forma constante nessas páginas.

Terminei a leitura com a sensação de ter lido uma história deliciosa, não sobre uma cantora famosa, mas sobre uma filha, uma irmã, uma amiga, uma mãe e uma companheira. Uma vida atravessada por pequenos gestos de bondade.

Mar morto, de Jorge Amado | Resenha

Ler Jorge Amado é sempre mergulhar nas complexidades da sociedade brasileira. Capitães da areia é uma das minhas leituras favoritas da vida e, por isso, sempre começo uma nova obra do autor com altas expectativas. E assim como o romance dos garotos do trapiche, “Mar morto” se passa em Salvador, mais especificamente no cais, em uma comunidade de pescadores. A ambientação, inclusive, já é um dos pontos mais marcantes da leitura.

Guma é um jovem que enfrenta diariamente o mar em seu saveiro, pequena embarcação utilizada para pesca. Ele é só um dos homens que seguem um roteiro já definido desde o seu nascimento, em que o mar é o ponto final. Eles vivem para as águas e é nelas que o seu destino está traçado. Iemanjá os espera, enquanto eles deixam suas famílias para trás. A cada saída surge o medo de que a volta não aconteça. Quebrar esse ciclo também parece improvável.

E nesse cenário de futuros definidos, Guma tem uma esposa que está sempre no cais esperando. Uma mulher forte, que vai ganhando ainda mais presença ao longo da obra. Ao mesmo tempo que em conhecemos a relação entre os dois e a rotina do mestre de saveiro, somos levados ao seu passado. O protagonista foi criado por um tio e por toda aquela comunidade que vive em torno do mar.

Além da envolvente história de amor entre Guma e Livia, o autor nos apresenta a dinâmica de vários outros personagens que desempenham papéis distintos na rotina daquela comunidade, como o médico Rodrigo e a professora Dulce. Além disso, aborda em diversos momentos aspectos culturais brasileiros, como a relevância das religiões de matriz africana para aquelas pessoas.

Vale dizer que é um romance sem grandes acontecimentos, que exige um tempo maior e que, por meio de uma escrita poética, nos leva para aquele ambiente do caia. Em alguns momentos, é possível sentir como estivéssemos junto com aqueles personagens, em que o sol, o vento e a água salgada fazem parte das páginas.

Jorge Amado publicou o romance com apenas 24 anos e, já nesse início de sua carreira, consegue demonstrar ao leitor a habilidade em criar boas histórias, em que e o brasileiro e sua diversidade são personagens principais.

Ps: A canção “É doce morrer no mar”, de Dorival Caymmi, foi inspirada em “Mar morto”.

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O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer | Resenha

O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer Rio de Janeiro, década de 70. A força do primeiro amor, a busca pelo pertencimento e as dores de uma perda. Todos esses temas surgem a partir da vivência de Camilo, um garoto que cresce em uma família de classe média dos subúrbios cariocas.

O pai do protagonista traz Cosme, um outro garoto, para viver com a família, o que se torna um momento decisivo na vida de Camillo. Aos longo das páginas, vamos acompanhando as violências vividas pelo protagonista em uma infância que não se encaixa nos padrões, ao mesmo tempo que precisa lidar com os conflitos dos sentimentos que a sociedade entende como proibidos. É um enredo sem grandes acontecimentos a cada capítulo, mas que revelam um cotidiano dolorido, real e repleto de nostalgia. A situação se agrava com um desfecho brutal da vida de Cosme. Além disso, o autor cria a narrativa de uma forma extremamente sensível, o que, para mim, foi o ponto forte da leitura.

Me pegou muito o tema do primeiro amor, que para muitos jovens da comunidade LGBT+ é uma experiência sofrida, de paixões não vividas. A dor do que poderia ter sido, mas não foi. A identificação é, portanto, inevitável. A parte final me trouxe a sensação de uma mudança dura do enredo, me deixando com uma vontade de ler mais sobre o contexto entre Camilo e Cosme. De toda forma, o livro me impactou demais, com trechos que me acompanharam por várias semanas. Victor Heringer deixou uma produção curta, mas que merece muito ser lida.

O adversário, de Emmanuel Carrère

O adversário, de Emmanuel Carrère É impressionante como muitas vezes questionamos a verossimilhança de uma história de ficção quando, na verdade, a realidade é capaz de nos apresentar histórias que mais parecem ter saído de uma mente muito criativa. Esse é justamente o caso retratado, de modo muito interessante, pelo autor francês em seu sucesso “O adversário”, publicado em 2000. O ponto de partida é um acontecimento extremamente trágico na década de 90, na França.

Um homem que aparentava ter uma vida profissional de sucesso e uma família digna de comercial de televisão comete um crime brutal: tira a vida de seus dois filhos, sua esposa e seus pais. As pessoas que conheciam Jean-Claude Romand demoraram para acreditar no que tinha acontecido.

Não bastasse o comportamento cruel, as revelações que foram surgindo deixaram o país ainda mais em choque: a vida daquele homem era uma completa mentira. Por quase 20 anos ele enganou a todos, construindo uma realidade paralela de forma tão perfeita que sequer chegou a despertar suspeitas. E foi justamente o absurdo dessa história, assim como a curiosidade por trás das motivações daquele ser humano, que levou Emmanuel Carrère a querer desvendar um lado mais psicológico de uma vida baseada em mentiras. Acompanhamos a visão reflexiva e jornalística do autor, assim como uma investigação objetiva do caso, para conseguir enxergar os detalhes dessa linha do tempo que terminou de forma tão chocante. Além de compartilhar os detalhes do julgamento, Carrère também divide com o leitor as correspondências que trocou com o criminoso.

É uma narrativa cheia de camadas, que vai muito além de uma obra de “true crime”. O autor foge do sensacionalismo e busca fazer uma análise sobre o humano e sobre uma atitude que, para nós, é inconcebível. Para o que o livro propõe, superou as minhas expectativas. Excelente leitura!