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Nove histórias, de J. D. Salinger | Resenha

Nove histórias, de J. D. Salinger

Embora o autor norte-americano J D Salinger seja conhecido mundialmente por “O apanhador no campo de centeio”, publicado em 1951 e com dezenas de milhões de cópias já vendidas, o seu talento de escrever histórias curtas é até mais festejado por quem é fã de seu trabalho.

Em “Nove histórias”, publicado alguns anos depois e reunindo nove contos, somos apresentados para alguns membros da família Glass, que serão melhor aprofundados em suas próximas obras. Os temas da infância e adolescência ganham enfoque nos contos, assim como o período do pós-guerra e a hipocrisia da classe burguesa em um momento de tantas cicatrizes. Apesar de alguns pontos em comum, as histórias são bem diferentes entre si.

Os dois contos mais famosos “Um dia perfeito para peixes-banana” e “Para Esmé — com amor e sordidez” também foram os que mais gostei. Não sei se fui influenciado pela notoriedade das histórias ou se a fama realmente é uma consequência da potência sútil que Salinger confere para as duas narrativas. Neles, há uma interessante reflexão sobre a inocência e os traumas. “O Gargalhada” também foi um texto que me prendeu muito, ao mesclar dois pequenos enredos completamente distintos, mas que instigam o leitor em uma mesma intensidade.

Se você só conhece Salinger pelo seu romance mais famoso, que inclusive não agrada todos os leitores, não deixe de conhecer seus textos mais curtos. Por trás de histórias aparentemente simples e banais, “Nove histórias” aborda temas complexos relacionados às emoções e conflitos humanos.

A casa dos coelhos, de Laura Alcoba | Resenha

A casa dos coelhos, de Laura Alcoba

Gosto muito de livros escritos a partir da perspectiva das crianças. Quando bem construídos, nos revelam uma análise dos acontecimentos de uma forma mais pura, ingênua e livre dos preconceitos que a sociedade vai nos impondo ao longo do nosso amadurecimento. Na minha opinião, a autora nascida na Argentina, e que ainda criança se mudou para a França, consegue nos apresentar essa visão com uma voz muito crível, talvez até por conta dos traços autobiográficos por trás dessa narrativa.

Somos transportados para o país de origem da autora. É o cenário da ditadura argentina, na década de 70. A protagonista é uma criança que acaba vivendo nos bastidores do conflito que assola o país. Na casa dos coelhos. Seus pais fazem parte do grupo de resistência e acabam embarcando a filha em sua luta ideológica.

A sensação do medo de ser descoberto e da necessidade de se esconder a todo momento chega a ser sufocante. A clandestinidade é sofrida, mas na cabeça de uma criança se torna confusa e até um pouco inofensiva. Será que a protagonista tem consciência do que poderá acontecer com seus pais se eles forem pegos? E se esconder significa abrir mão de uma vida normal. Uma infância que precisa ser roubada por uma luta que a princípio vale mais.

Os temas são complexos e delicados, mas a leitura consegue ser fluida, até como consequência da voz de uma garota. Li em poucos dicas e senti que queria mais. A boa notícia é que “A casa dos coelhos” é o primeiro de uma trilogia autobiográfica. Estou gostando muito de ler obras no estilo Annie Ernaux, de autoficção, e talvez por isso tenha gostado tanto do estilo da autora e da forma com que ela constrói a narrativa. Recomendo!

Nota 9/10

Quem matou meu pai, de Édouard Louis | Resenha

Um manifesto literário e íntimo. Com menos de 100 paginas, Édouard Louis constrói um texto híbrido, que combina críticas sociais à desigualdade e à sociedade opressora em que vivemos, com suas memórias, em especial a sua conturbada relação com seu pai, que não aceitava um filho gay. Se a autoaceitação de uma pessoa da comunidade LGBTQIA+ já é um processo difícil e dolorido, enfrentar esses medos com a repulsa familiar é uma tarefa muito mais sofrida.

E a obra de Édouard Louis comprovam como essas vivências deixaram marcas, que acabam sendo denunciadas em suas narrativas. Eu já tinha lido “O fim de Eddy”, um romance autobiográfico, e terminei aquela leitura extremamente reflexivo e com revisitando minhas próprias dores.

O jovem autor francês é detentor de uma escrita potente e que gera identificações no leitor, não só pela questão da sexualidade, mas também pelos conflitos familiares e seus ideais. “Quem matou meu pai” se aprofunda no resgate daqueles que nos criaram, até como uma tentativa de melhor compreendê-los. O que leva um pai a privar um filho de afeto e, pior, a inundar uma criança e um adolescente de tanta violência?

O livro também mergulho em aspectos sociais e políticos muito atuais e que também dialogam com a nossa realidade. Apesar de curta, é uma abordagem crua sobre os privilégios, as injustiças e as discriminações. Recomendo muito!

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Uma história desagradável, de Fiódor Dostoiévski | Resenha

Diferentemente do seus romances mais densos, que se aprofundam nos conflitos e angústias dos personagens, “Uma história desagradável” é uma obra curta e que revela um Dostoiévski mais cômico e menos psicológico. E o que começa com uma premissa bem humorada, acaba levando para um desenvolvimento desagradável – para não dizer caótico.

No dia da festa de seu casamento, Pseldonímov recebe uma visita um tanto quanto inusitada: o seu chefe, Ivan Pralínski aparece de surpresa e sem ter sido convidado – até porque não há uma relação próxima entre os funcionários de cargos hierárquicos tão distantes. A ideia surge em Pralínski depois de tomar algumas taças de champanhe, mesclando um ato altruísta com uma certa curiosidade de conhecer uma festividade de um nível social muito abaixo do seu.

E não bastasse a surpresa gerada pelo (não) convidado incomum, Pseldonímov precisa lidar com um chefe embriagado e dono de um ego maior do que sua residência. Pralínski fará de tudo para conquistar aqueles a sua volta e mostrar que está acima de todos: afinal, como poderiam não ficar impressionados com ele?

Publicado em 1862, a novela é uma leitura muito interessante e que de forma muito acessível se aprofunda em questões sociais, diferenças de classes e a ideia do ridículo. Não há como se deparar com a situação e não sentir constrangimento por todos os envolvidos. Por ser uma leitura fácil, “Uma história desagradável” pode ser uma boa opção para quem nunca leu nada do autor.

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Último olhar, de Miguel Sousa Tavares | Resenha

Quando você é apaixonado por um livro e decide começar uma nova leitura do mesmo autor, é difícil não chegar com expectativas altas. O autor português Miguel Sousa Tavares criou “Equador”, um romance histórico maravilhoso e que foi um dos responsáveis por despertar meu amor pela literatura. Desde então, também li “Rio das flores” e adorei. Quando Tavares lançou seu último livro, em 2022, não podia deixar de conhecer essa narrativa que prometia trazer um pouco da memória coletivo que tivemos com a pandemia do COVID. Mas me decepcionei…

A obra é construída a partir de duas perspectivas e se passa sobretudo na Espanha. De um lado, temos Pablo, um senhor com mais de 90 anos e que vive em uma casa de idosos. Seu passado, no entanto, é cheio de histórias, já que o personagem lutou na Guerra Civil Espanhola, precisou se refugiar na França e acabou sendo mandado para um campo de concentração na*ista, onde lutou por anos pela sua sobrevivência.

De outro lado, Tavares nos apresenta uma jovem médica, Inez. Sua vida é, aos poucos, atravessada pelo novo vírus que começa a contagiar rapidamente as pessoas, alimentando um número cada vez maior de vítimas fatais. Ninguém estava preparado para a realidade a ser enfrentada nos hospitais. Inez precisa lidar com os desafios impostos pela pandemia, ao mesmo tempo em que vive uma paixão por um médico italiano, um segredo em seu casamento.

Por conta desse cenário imprevisível e avassalador, a história de Pablo e Inez se cruzam, de uma forma pouco convencional.

A primeira parte da leitura conseguiu me envolver, sobretudo em virtude do passado de Pablo. Sua história é repleta de emoções e dificuldades, me fazendo lembrar da qualidade do autor em construir romances históricos. Contudo, ao tratar de nossa história mais recente, apesar de ser interessante ler sobre um acontecimento tão recente, senti que Tavares se limitou a contar o que vivemos na pandemia de uma forma generalizada e apressada. Isso me desconectou da narrativa e me deixou com a impressão de que o encontro entre os dois personagens foi forçada. Não è uma leitura ruim, mas ficou distante do que já li do mesmo autor.

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#DesafioBookster2024 | Abril

Mês: Abril
Sentimento: Tristeza
Livro: Cinzas na Boca, de Brenda Navarro

Esse é o segundo livro da autora mexicana Brenda Navarro, que tem conquistado muitos leitores ao redor do mundo.

Estou animado, mas também com receio por ser uma leitura dolorida! Mergulhar nesse sentimento tão fundamental que é a tristeza e descobrir como a personagem encontrará sentido para os seus questionamentos e dias.

Sinopse:
“Uma jovem mexicana parte para a Espanha com o irmão para reencontrar a mãe, ausente desde a infância dos dois. Porém, no novo país, a perspectiva de reconexão familiar vai ruindo diante de uma sociedade que é cruel com imigrantes. Resta viver à margem, cuidando de idosos ou limpando banheiros, enquanto se questiona sobre o quê, afinal, dá sentido aos seus dias. Esse conflito se intensifica após a partida do irmão, quando ela tem que carregar as cinzas dele de volta para o México – e aí somos tragados pela prosa brutal e inebriante de Brenda Navarro.”

E vocês já sabem, né? No final do mês teremos uma live no YouTube com um convidado super especial para conversar sobre essa obra.

Quem vem com a gente? Acompanhe tudo no grupo do Telegram (link na bio do meu Instagram)

@dublinense
176 páginas
Tradução: Julia Dantas

Garota, mulher, outras – de Bernardine Evaristo | Resenha

Mulheres com diferentes histórias e que compartilham a raça. São mulheres negras que enfrentam as mais diferentes dificuldades. De jovens a senhoras. Problemas de relacionamento, sexualidade, medos, saudades e decepções. Mas, por outro lado, também tem emoção e felicidades.

Em um romance extremamente atual, Bernardine Evaristo constrói capítulos que levam o nome de suas protagonistas. E, muitas vezes, de forma inesperada, essas vidas se conectam. O cenário é Londres e temas atuais como Brexit, relacionamentos não monogâmicos e gênero neutro revelam uma cidade que está na liderança dos movimentos. Mas o contraste entre gerações também não passa despercebido.

A autora é muito talentosa em suas palavras e se vale até de um estilo mais experimental: não há pontos finais nos parágrafos. O ritmo acelera e a vontade é conhecer qual nova protagonista Evaristo poderá criar. Aos poucos, você se acostuma e até se pergunta se aquele ponto final teria alguma utilidade maior

A inventividade e potência da autora lhe garantiu o Booker Prize de 2019. Bernardino me fez rir, me emocionar, sentir raiva e até estranhamento pelo que me é novo. A gente aprende com essas mulheres e termina com a vontade de mergulhar mais em suas vidas. Agora é conhecer mais da autora em suas outras obras.

Uma leitura excelente e que nos mostra como a literatura nos coloca diante das diferenças e é com esse contato que a gente aprende tanto. Leiam e não tenham medo do novo.

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