O adversário, de Emmanuel Carrère É impressionante como muitas vezes questionamos a verossimilhança de uma história de ficção quando, na verdade, a realidade é capaz de nos apresentar histórias que mais parecem ter saído de uma mente muito criativa. Esse é justamente o caso retratado, de modo muito interessante, pelo autor francês em seu sucesso “O adversário”, publicado em 2000. O ponto de partida é um acontecimento extremamente trágico na década de 90, na França.
Um homem que aparentava ter uma vida profissional de sucesso e uma família digna de comercial de televisão comete um crime brutal: tira a vida de seus dois filhos, sua esposa e seus pais. As pessoas que conheciam Jean-Claude Romand demoraram para acreditar no que tinha acontecido.
Não bastasse o comportamento cruel, as revelações que foram surgindo deixaram o país ainda mais em choque: a vida daquele homem era uma completa mentira. Por quase 20 anos ele enganou a todos, construindo uma realidade paralela de forma tão perfeita que sequer chegou a despertar suspeitas. E foi justamente o absurdo dessa história, assim como a curiosidade por trás das motivações daquele ser humano, que levou Emmanuel Carrère a querer desvendar um lado mais psicológico de uma vida baseada em mentiras. Acompanhamos a visão reflexiva e jornalística do autor, assim como uma investigação objetiva do caso, para conseguir enxergar os detalhes dessa linha do tempo que terminou de forma tão chocante. Além de compartilhar os detalhes do julgamento, Carrère também divide com o leitor as correspondências que trocou com o criminoso.
É uma narrativa cheia de camadas, que vai muito além de uma obra de “true crime”. O autor foge do sensacionalismo e busca fazer uma análise sobre o humano e sobre uma atitude que, para nós, é inconcebível. Para o que o livro propõe, superou as minhas expectativas. Excelente leitura!