O crematório frio: um relato de Auschwitz, de József Debreczeni | Resenha

Por 70 anos, esse relato impressionante sobre a barbaridade dos campos de concentração ficou restrito aos leitores húngaros. Por conta das consequências da Guerra Fria e do antissemitismo, a obra não chegou a ser traduzida para outros idiomas, o que faz da sua publicação décadas depois de seu lançamento uma redescoberta necessária, uma denúncia sobre o horror do holocausto.

No Brasil, a edição, que conta com uma tradução direta do Húngaro, chega no 80° ano da libertação dos prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. E o relato de József consegue ficar ainda mais chocante quando se percebe como os acontecimentos são recentes e ainda sobrevivem na memória das gerações seguintes.

O autor foi uma jornalista húngaro, que passou meses preso em campos de concentração. A sua captura ocorreu em 1944, no ano anterior ao final da guerra, o que sem dúvidas assegurou que seu final não se assemelhasse a de tantas vítimas fatais do Holocausto. Mas isso não significa que por muitos momentos o autor não acreditou que fosse morrer nas mãos do exército nazista. Pelo contrário, a leitura deixa claro que ter resistido com vida até a libertação pelas tropas soviéticas foi um resultado milagroso (ainda que seja difícil utilizar o termo em uma circunstância tão brutal).

Lendo os relatos é até difícil de acreditar como o corpo humano consegue resistir (em alguns casos) a uma situação de tanta falta, medo e exaustão. Em seus últimos meses preso no campo, o autor foi mandado para o “crematório frio”, destino dos presos mais fracos e que eram deixados para morrer. Nunca tinha lido nada sobre esses locais e posso afirmar que essas páginas foram as mais inacreditáveis e doloridas de ler. É difícil de compreender o nível de desumanidade que alguém pode checar por conta do poder e do ódio ao diferente.

É a importância de conhecer e ler sobre o passado para que atrocidades como essa não se repitam, ainda que muitos tentem fechar os olhos para o que o ser humano já foi – e ainda é – capaz de fazer.

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Monique se liberta, de Édouard Louis | Resenha

O jovem autor francês, de 32 anos anos, causou uma comoção em sua vinda ao Brasil no final do ano passado. Assisti a sua participação na FLIP e foi, sem dúvidas, umas das mesas mais impactantes que já presenciei. Já tendo lido dois de seus livros, foi muito marcante poder vê-lo pessoalmente falar dos temas que marcam suas obras: relações familiares, estrutura social e sexualidade. Para finalizar seu encontro com os leitores brasileiros, ainda tive o privilégio de participar da bancada do Roda Viva e fazer algumas perguntas ao fenômeno literário (você pode assistir à entrevista completa no canal do YouTube do programa).

“Monique se liberta” foi a última leitura que fiz, depois de já ter conhecido o autor. A personagem principal da obra é sua mãe, cujo nome está logo no título. No caso, essa é a sua segunda libertação. Em “Lutas e metamorfoses de uma mulher”, Édouard Louis narra as dificuldades da mãe de enfrentar um relacionamento violento e marcado por um cenário de pobreza e injustiças sociais.

Já em seu livro mais recente no Brasil, o autor descreve as tristezas vividas por sua mãe com um novo companheiro. Ou seja, mesmo tendo conseguido sair daquela cidade operária e de um casamento opressivo, Monique mais uma vez se encontra em uma situação de refém – tanto psicologica como financeiramente – de uma dominação masculina. Ela estava livre, mas o ciclo de violências a que está submetida a prende de novo.

A obra vai além e aborda os temas recorrentes do trabalho de Édouard Louis. O contraste da sua nova realidade com a de sua mãe, uma denuncia social e política e um certo acerto de contas com o seu passado.

Sou suspeito para falar do autor, mas recomendo muito todas as obras que já li. Leia sem medo, já que seus livros são acessíveis e tratam de sua própria vida, mas sem deixar de lado o impacto e a profundidade dos temas enfrentados.

A vegetariana, de Han Kang | Resenha

Perturbador. Se me pedissem para descrever o fenômenos sul-coreano, que vendeu milhões de exemplares pelo mundo, em apenas uma palavra, não teria dúvidas na resposta. E se para muito leitores o livro foi longe demais, causando um incômodo que prejudicou a experiência, para mim “A Vegetariana” foi uma leitura excelente.

Nos últimos meses, o livro voltou às prateleiras de mais vendidos depois do anúncio do Prémio Nobel de Literatura de 2024 à autora Han Kang. O resultado causou certa surpresa no mercado literário, já que a Academia Sueca não costuma escolher autores tão jovens e que costumam vender tantos livros, como se o aspecto comercial fosse uma chancela – negativa – da qualidade literária das obras. Na minha opinião, nada mais injusto do que esse pensamento.

Sobre o enredo, não espere uma leitura relacionada ao título. Há, sim, uma personagem que de um dia para o outro decide parar de comer carne. Mas isso é só o início de um comportamento peculiar e sem muitas explicações que acaba tumultuando todos aos seu redor. O que se sabe é que Yeonghye tem sonhos misteriosos, que acabam conduzindo as suas decisões e o seu afastamento social gradativo.

E o mistério é reforçados pelas distintas vozes que nos apresentam a narrativa – nenhuma delas de Yeonghye. Em um primeiro momento temos a perspectiva do seu marido e o espanto gerado pela abrupta mudança da personagem. Na segunda parte, a história passa a ser contada pelo cunhado de Yeonghye, que passa a trazer um aspecto erótico e mais perturbador para as páginas. E, por fim, é a irmã da vegetariana que finaliza a obra.

Por trás de uma decisão aparentemente inocente, temos uma família problemática, uma infância delicada e uma denúncia da opressão feminina e uma reflexão sobre a nossa concepção de loucura – até porque não temos o ponto de vista de Yeonghye.

Em diversos momentos fiquei com o estômago embrulhado e, ao mesmo tempo, com dificuldade de largar aquelas páginas. Se você não se importa com um romance perturbador, “A vegetariana” é uma escolha certeira e que te deixará pensando por muitos dias

A cegueira do rio, de Mia Couto | Resenha

A importância da memória coletiva. É sobre esse tema que o autor moçambicano Mia Couto constrói o seu mais recente romance. Os seus personagens nascem para impedir que um acontecimento histórico brutal tenha uma única versão, comandada pelo colonizador branco.

Em 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, diversos soldados africanos e um militar português são assassinados pelo exército alemão. Mais uma triste mancha na História de Moçambique, que revela a luta da população local contra o invasor. E é a partir desse acontecimento verídico que Mia Couto utiliza a sua escrita poética e o realismo mágico característico de sua obra para recontar a tragédia. É relembrar para impedir o esquecimento.

Os personagens que conduzem a narrativa são diversos. Uma portuguesa que vai para Moçambique em busca da salvação de sua filha. Um padre que pretende reescrever a bíblia. Um sicário moçambicano se vê obrigado a se misturar aos brancos e lutar ao lado deles. Um oficial e médico alemão responsável por dar ordens brutais. Aos poucos, essas vidas se cruzam nas páginas e eles precisam lidar com um acontecimento inédito: a cegueira do rio.

Os brancos esquecem como ler e escrever. As letras se tornam borrões e eles precisam recorrer a ajuda do povo africano. A arma da escrita muda de mãos, em uma verdadeira inversão da sistemática do colonialismo.

Além de um enredo interessante, a construção do texto é muito peculiar. O autor se vale não apenas de uma narrativa tradicional, mas utiliza diversos provérbios africanos e relatos em primeira pessoa dos personagens para dar prosseguimento à história. O começo pode parecer um pouco confuso, pois há uma alternância entre as vozes, mas aos poucos fui me acostumando.

Vencedor do Prémio Camões de Literatura, terminei a leitura ainda mais impressionado com a habilidade do autor com as palavras e com a língua portuguesa. Ele nos conta a história de uma forma profunda e sem deixar as críticas sociais e políticas de lado. Mia Couto deve ser lido sem moderação.

O animal social, de Elliot Aronson | Resenha

Não é segredo que sou fã de ficção e que a maioria das minhas leituras está inserida nesse gênero. Mas a verdade é que frequentemente sou surpreendido – de forma positiva – quando me aventuro em obras mais técnicas e que buscam aproximar o leitor de temas relevantes. E foi esse o caso de “O animal social”, uma referência na área da psicologia social, publicado em 1972.

Sou totalmente leigo na área e a verdade é que o próprio termo “psicologia social” não era tão conhecido por mim. E foi nesse ponto que me surpreendi, porque percebi o quanto esse tema é amplo e interessantíssimo, ao buscar explicações sobre o comportamento humano e nossa interação em uma sociedade cada vez mais complexa. Dentre os assuntos que mais me interessaram está a análise do preconceito, das relações amorosas e da nossa tendência de buscar pertencer a algum grupo. Por que agimos como agimos?

E apesar de o livro ter sido publicado há mais de 50 anos, essa edição da @editoragoya foi recentemente atualizada pelo autor, com a ajuda do seu filho. Várias teorias foram revistas e debates contemporâneos, como redes sociais e seu impacto nas relações, foram incluídos. Ou seja, o texto continua dialogando com o leitor jovem e é impossível não se enxergar em vários dos exemplos explorados pelo autor.

Também não há como negar que a leitura é densa. São várias as teorias apresentadas e o texto tem um cunho técnico e informativo, o que me fez levar um tempo maior para concluir a leitura (leia junto com um livro de ficção). Mas a leitura é acessível e repleta de exemplos que permitem uma aproximação do leitor com os assuntos discutidos. É um texto que demanda atenção, sobretudo pela quantidade de informação, embora não se apresente como um desafio para quem é leigo.

Ou seja, se você se interessa pelo tema e pelas discussões propostas pelo autor, recomendo demais. “O animal social” continua sendo uma relevantíssima referência sobre a psicologia social e que, sem dúvidas, mudou a minha compreensão sobre muitos assuntos que enfrento no meu dia a dia.

O vício dos livros, de Afonso Cruz | Resenha

Livros sobre livros me encantam – talvez isso explique o motivo de eu ter escrito um. Gosto muito de entender como a literatura é uma experiência individual e como os livros desempenham diferentes papéis na vida de um leitor. Quando soube que o autor português tinha uma coletânea de textos sobre o tema, logo coloquei “O vício dos livros” na minha lista de próximas leituras. O título já gerou uma identificação imediata: assim como Afonso Cruz, eu também dependo da literatura para conseguir estar no meu estado de “normalidade” (entre muitas aspas).

O autor me conquistou com sua inteligentíssima obra “Vamos comprar um poeta”, que eu nunca me canso de indicar. E foi muito interessante ver mais de sua inteligência, misturada com um bom humor, nos seus textos sobre os livros. A obra é curtinha e os textos funcionam como pequenos ensaios ou relatos pessoais da relação de Afonso Cruz com a leitura.

Não espere encontrar textos acadêmicos ou intelectuais. “O vício dos livros” cativa o leitor pela simplicidade das histórias e reflexões ali contidas. É um leitor falando para outro leitor – algo que tento trazer diariamente para as redes sociais. Por outro lado, e considerando o impacto que “Vamos comprar um poeta” deixou em mim, cheguei com muita expectativa nessa leitura. Não é uma obra que me marcou, mas também nem acredito que essa tenha sido a intenção do autor. O que ele deixou em mim é a vontade de continuar lendo tudo o que ele produz – sou doido para ler “Para onde vão os guarda-chuvas”.

Enfim, Afonso Cruz faz uma gostosa e bonita homenagem à literatura!

E trazendo a citação de Jules Renard, “Quando penso em todos os livros que tenho para ler, tenho a certeza de ainda ser feliz”.

Literatura infantil: Cartas ao filho, de Alejandro Zambra | Resenha

Literatura infantil: Cartas ao filho, de Alejandro Zambra

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“Com você no colo, vejo pela primeira vez, na parede, a sombra que formamos juntos. Você tem vinte minutos de vida”. É com emocionante a experiência do primeiro contato de pai e filho que o leitor inicia o texto de “Literatura infantil”. E não se deixe enganar pelo título, já que a obra não é voltada para crianças, mas sim um convite para que os adultos mergulhem como espectadores na experiência inédita da paternidade.

Se vários são os livros escritos para os pais, seja em homenagens ou até em um acerto de contas, o autor chileno decidiu inovar e escrever “cartas ao filho”. “Narrar o mundo de que uma criança se esquecerá – tornamo-nos correspondentes de nosso filhos – é um desafio enorme”. E para o leitor, essa aventura é acolhedora e chega a esquentar o coração. Ao longo dos dias que sucedem o nascimento, acompanhamos as vivências e as descobertas de Zambra ao se encontrar na figura de pai pela primeira vez. É o aprendizado dessa “tarefa” que nasce sem manual de instruções, mas que vem junto com medos, descobertas, muita alegria e também frustrações.

Superada essa primeira parte, a obra nos revela os mais diferentes gêneros de textos, em que a paternidade é o tema que os une. Contos, crônicas, ensaios e mais relatos pessoais. E na escrita autobiográfica, o ponto alto do livro para mim, também encontramos a relação do Zambra como filho e a presença da literatura em toda a sua vida. Mesmo não sendo pai, a identificação com diferentes trechos da leitura foi inevitável.

Misturando um diário de paternidade com textos de ficção, o autor se vale de uma escrita fácil e simples, o que é, inclusive, uma característica das suas obras, mas sem nunca deixar a sensibilidade de lado.

“Literatura infantil” é uma leitura aconchegante, leve e, sobretudo, uma declaração de amor aos filhos.