Mudar: método, de Édouard Louis | Resenha

Édouard Louis foi impecável nessa obra, a minha favorita do autor até o momento (e olha que li praticamente tudo o que ele já escreveu). É claro que a vivência da sexualidade me aproximou da obra, e me fez enxergar muitos dos meus próprios sentimentos, mas não tenha dúvidas de que os processos de transformação narrados pelo autor vão deixar marcas em qualquer pessoa que tenha esse livro em mãos.

De um garoto nascido em uma família conservadora da classe operário em uma pequena cidade francesa para um autor gay de sucesso e com livros publicados em diversos países, o caminho foi marcado por muito medo, culpa, vergonha e raiva. Édouard não queria pertencer aquele ambiente em que havia nascido, sentia a urgência de ascender socialmente, deixar aquele lugar opressivo para trás.

Essa fuga, no entanto, exigiu muito daquele jovem. Era preciso negar a família, a sua forma de falar, de se comunicar e de se vestir. Era necessária uma transformação para uma nova pessoa. Até o próprio nome ele deixou para trás. E ao narrar toda essa luta interna contra quem se é e contra as pessoas a sua volta, o autor faz análises sociais e políticas na tentativa de compreender um pouco do que o levou até aquelas circunstâncias. Como ele se viu inserido em um círculo de violências, em que não é possível identificar o que o iniciou. Édouard conseguiu sair, mas muitas das pessoas que ele amava não foram atrás de uma saída…

A escrita é direta e muito lúcida, com parágrafos que revelam um profundo entendimento do autor sobre o seu passado. Ele consegue colocar em palavras sentimentos complexos, revelando um verdadeiro mergulho no seu passado. Édouard conseguiu transmitir de forma muito consciente o que viveu – ainda que muitas vezes não tenha respostas. Leiam esse livro, é maravilhoso e vai permanecer em você por um bom tempo…

10/10

Meu nome é Emilia del Valle, de Isabel Allende | Resenha

A autora chilena é um fenômeno de vendas há anos e continua publicando novos romances em um ritmo impressionante. Embora nada se compare ao inesquecível “A casa dos espíritos”, Isabel Allende tem a habilidade de mesclar narrativas cativantes e um interessante contexto histórico.

Em seu mais recente romance, “Meu nome é Emilia Del Valle”, a autora repete o seu estilo narrativo e nos apresenta uma protagonista corajosa no final do século XIX. Emilia nasce na Califórnia e é criada pela mãe e pelo padrasto, já que seu pai abandonou a família e voltou para o Chile, seu país natal. Apaixonada pela escrita, e com o objetivo de se tornar uma autora de sucesso, a protagonista desafia as convenções sociais da época, que tentam manter a mulher cuidando do lar, e acaba sendo contratada por um jornal.

As aventuras de verdade começam quando ela é alocada para cobrir uma guerra civil no Chile, o que acaba sendo não apenas uma viagem tumultuada e com um pano histórico intenso, mas também uma busca pelo seu passado. Emilia desembarca no país que é berço da família aristocrática de seu pai e poderá desvendar essa lado da sua história que sempre permaneceu obscuro.

Gostei da leitura, ela é envolvente e, como costumam ser os romances de Allende, bem fluida. O ponto alto para mim foi a descrição e ambientação da guerra civil chilena do final do século XIX, um tema que eu conhecia muito pouco. A narrativa nos transporta para os dois lados desse conflito, a partir da visão de Emilia e de um homem por quem ela acaba se apaixonando. Ainda que eu tenha sentido falta de um maior desenvolvimento da personagem, sobretudo na parte final, fica a minha dica para quem gosta do estilo da autora e busca uma leitura gostosa.

8/10

Se Deus me chamar não vou, de Mariana Salomão Carrara | Resenha

Sou um grande fã de livros narrados por protagonistas infantis. Alguns autores realmente conseguem nos transportar para a visão ingênua e inteligente de um personagem que ainda está tentando entender o mundo a sua volta. No caso de “Se Deus me chamar não vou”, de Mariana Salomão Carrara, um dos principais nomes da jovem literatura contemporânea nacional consegue fazer isso de forma impactante e espirituosa, tocando em temas sensíveis que despertam a reflexão no leitor.

Maria Carmem tem apenas 11 anos. A garota se sente solitária, ajuda na loja de seus pais voltada para produtos para idosos, também conhecida como “loja de velhos” e é alvo de bullying pelos seus colegas de sala. O ambiente escolar nessa idade pode ser cruel: as crianças não costumam perdoar quem é diferente. E é a partir do diário da protagonista, que tem o desejo de se tornar escritora no futuro, que conseguimos acompanhar o desenvolvimento de suas reflexões. Ela deseja ser ouvida (e lida).

Não há dúvidas de que o sofrimento de Maria Carmem toca o leitor, criando uma conexão quase que instantânea com a nossa criança que se mantém dentro de nós pelas memórias. Quem já vivenciou de alguma forma episódios de bullying, vai se identificar ainda mais com a narrativa. No entanto, a inteligência da protagonista, misturada com sua ingenuidade diante dos aspectos mais complexos da vida, tornam a leitura instigante e até mesmo bem-humorada.

Também gostei de poder acompanhar a relação da garota com seus pais. Ela analisa detalhes da relação dos dois, mesmo com a tendência de simplificação típica das crianças, e acaba tendo que lidar com uma mudança peculiar com o surgimento de um novo personagem. Será que Maria Carmem terá espaço nessa casa cheia?

As poucas páginas da obra deixaram em minha a sensação de “quero mais”. Quero conhecer mais o universo de Maria Carmem, quero acompanhar sua adolescência e, acima de tudo, quero mostrar que ela não está sozinha. Leiam, leiam e leiam!

Na voz dela, de Alba de Céspedes | Resenha

A autora italiana, que inspirou Elena Ferrante, construiu narrativas que, mesmo decorrido mais de 70 anos, ainda dialogam com o leitor contemporâneo. Assim como no sucesso “Caderno proibido”, em seu novo romance publicado no Brasil a autora mergulha no universo feminino e constrói uma personagem que não se submete ao papel que a sociedade teria escrito para as mulheres de sua época. Alessandra Gorteggiani é uma jovem que deseja ter sua voz ouvida.

Na primeira parte do livro, Alba de Céspedes foca em uma interessantíssima relação entre mãe e filha. Alessandra tem como referência uma mulher que sai de casa para dar aulas de piano a uma família rica e acaba descobrindo uma vontade perturbadora de escrever o seu próprio roteiro – que aparentemente não tem nada de comum. Por outro lado, o pai aparece como a representação do homem conservador e machista da metade do século XX. Para ele, a mulher deve exercer o seu papel dentro de casa, cuidando da família e do que ele tenta enxergar como um lar.

Essa primeira parte, na minha opinião o ponto alto da obra, termina com um desfecho trágico da mãe de Alessandra. Com isso, ainda adolescente, a garota acaba se mudando de Roma e encontra novos personagens que insistem em criá-la para um destino sem muita independência. Aos poucos, a referência de sua mãe vai se fazendo cada vez mais presente e Alessandra acaba percebendo a impossibilidade de ficar calada. Ainda que muitas vezes ela não seja ouvida, a protagonista tem a certeza de que ao menos haverá voz.

A obra é escrita em um tom confessional, em primeira pessoa, o que nos aproxima de Alessandra. Essa característica permite que a paixão que a jovem alimenta por Francesco, um professor universitário, seja transmitida para o leitor. Para alguém que viveu tantas perdas e a falta de afeto, a relação surge como um sentimento de esperança. Nesse ponto, o contexto histórico ganha forças e a iminência da Segunda Guerra Mundial traz uma revelação de Francesco: ele é antifacista e não ficará parado diante do avanço de um poder autoritário.

A vida de Alessandra, no entanto, será diretamente transformada ao longo da guerra.

O livro é longo e, em poucos momentos, senti que precisava de um novo fôlego. Alternar com leituras mais curtas foi uma ótima opção, já que depois de um dia sem ler a obra eu sentia falta da voz de Alessandra. É impressionante como as reflexões que a autora desperta em relação ao universo feminino ainda se mostram atuais. E não como deixar de falar do final chocante, que confere um significado ainda mais forte para toda a trajetória que percorremos por mais de uma década na vida da protagonista.

Santo de casa, de Stefano Volp | Resenha

A perda de um pai é, normalmente, um momento de tristeza e muita dor. Mas o que acontece quando as memórias do passado são carregadas de mágoa e conflitos? É isso que descobrimos ao acompanhar os rastros que a morte trágica de Zé Maria deixa para sua esposa, Rute, e seus três filhos. Todos retornam à cidade natal, onde ainda moravam os pais, para viver o luto e organizar o velório. Esse encontro, no entanto, vai reabrir feridas, permitir descobertas e despertar uma confusão de sentimentos. É possível amar e sofrer pela perda de quem nos fez mal?

Zé Maria foi por muito tempo uma presença que assombrava a família, exercida por um comportamento patriarcal e autoritário. A violência sofrida por Rute, e testemunhada pelos filhos, foi destruindo o amor heróico que se espera sentir pelo pai. A diferença dos tratamentos e a carência de afetos foi afastando os filhos daquela realidade, que deveria ser conhecida como lar. A mãe sofre com a falta, mas os filhos precisam viver suas vidas, cada um guiado por suas próprias motivações. E todos esse abismo criado nas relações envolve muito o leitor ao longo das páginas.

E apesar de tudo isso, a perda de Zé Maria representa a morte do pai. Isso mexe com os quatro que ainda escavam as memórias, e encontram poucas boas, enquanto preparam o velório. Por outro lado, os moradores da cidade, que conhecem um Zé Maria diferente, prestam homenagens diante de uma morte tão trágica, cometida por um assassino feroz. Porque o santo fora de casa não passava pela porta de entrada?

E todo esse enredado familiar é construído por Volp em uma estrutura peculiar, com múltiplas vozes.

Os capítulos alternam entre as visões dos filhos e da viúva, mas sempre a partir da voz do Alan, o caçula, que dialoga com os demais personagens. E apesar poder causar um certo estranhamento nos leitores, é um estilo interessantíssimo. Com uma escrita mais madura e carregada de um teor poético, o jovem autor toca em temas sensíveis e que são extremamente comuns: relacionamentos violentos, a falta do afeto, a fuga do seio familiar, o necessidade de guardar segredos e a dificuldade de lidar com o diferente. Recomendo!

Angústia, de Graciliano Ramos | Resenha

Graciliano tem uma habilidade admirável de criar personagens com densidade psicológica, quase como se pudessem sair andando pelas páginas. Em “Angústia”, talvez o autor tenha conseguido criar o mais real deles, Luís Pereira da Silva, e isso justifica o título da obra, já que o leitor realmente compartilha esse sentimento atormentador com o protagonista.

Luís é um homem desiludido e que sofre não apenas pela sua vida solitária e frustrada de funcionário público, mas também por conta de uma paixão não correspondida. Ao intercalar presente e passado, esse personagem – que pode facilmente ser definido como detestável – nos conta desde o primeiro momento quando conheceu a sua vizinha, Marina, por quem passou a desenvolver uma verdadeira obsessão. E a forma como Graciliano narra toda essa ansia do personagem é impressionante, porque carrega o leitor fundo nos pensamentos de Luís.

É possível sentir toda essa ansiedade, angústia e desespero vivenciado nas páginas do livro, que acabam levando Luíz para um declínio. E se o leitor consegue sentir isso é porque Graciliano se valeu de uma escrita bem mais densa e lenta. Há uma dedicação no desenvolvimento psicológico do Luís, o que para alguns leitores pode ser desafiador. Mas, repito, é um processo necessário – ainda que talvez em excesso, no caso – para a criação de um personagem tão real e capaz de transmitir suas emoções. Graciliano também utiliza bastante da técnica do fluxo de consciência para expor o que se passa – de forma desordenada e ansiosa – na cabeça de Luís.

Além disso, como a obra se passa em uma época de repressão do governo de Getúlio Vargas, é muito interessante como o autor também insere críticas sociais a partir da visão do protagonista. Inclusive, a questão social e política extravasa as páginas de “Angústia”, já que Graciliano foi preso pouco tempo depois de finalizar a obra.

Gostei bastante, mas é um caminho lento e desafiador. Exige atenção e paciência do leitor, mas nas últimas páginas o ritmo aumenta e a experiência acaba valendo o esforço!

Amanhã tardará, de Pedro Jucá | Resenha

Em seu romance de estreia, o jovem autor brasileiro nos apresenta uma história forte sobre traumas, relações familiares e sexualidade. E tudo isso a partir de um retorno, da busca às origens: Marcelo, o protagonista, volta a sua cidade natal por conta da doença que acomete seu pai e se depara com resquícios – extremamente doloridos – de um passado conturbado.

Ao leitor, no entanto, a revelação vai se dando aos poucos. O protagonista se apega as suas primeiras memórias para construir os caminhos de sua infância e adolescência. Aos poucos, os demais integrantes da família são apresentados e toda a complexidade que sustenta a tensão dessas relações vai ficando mais clara para o leitor.

Um dos vínculos mais interessantes é o existnwte entre Marcelo e de sua irmã, Inês. O contraste entre o passado e o presente despertam a curiosidade no leitor sobre os motivos que teriam levado a uma mudança tão drástica no afeto e senso de proteção que era nutrido entre os irmãos. A questão da descoberta da sexualidade também foi abordada de forma muito interessante pelo autor, que por compartilhar a vivência de um homem gay, consegui transportar para o texto as angústias que conectam tantas histórias.

Apesar de bem fluida, a escrita tem uma intenção poética – às vezes passando a sensação de uma grande preocupação em escolher palavras certas e construir frases que pudessem transmitir esse tom. Terminei a leitura bem impactado, até por tratar de um tema comum a todos, ainda que com as devidas particularidades de cada um: a família. Mais uma obra que mostra a qualidade da literatura contemporânea que vem sendo produzida pela nova geração de escritores.