A vegetariana, de Han Kang | Resenha

Perturbador. Se me pedissem para descrever o fenômenos sul-coreano, que vendeu milhões de exemplares pelo mundo, em apenas uma palavra, não teria dúvidas na resposta. E se para muito leitores o livro foi longe demais, causando um incômodo que prejudicou a experiência, para mim “A Vegetariana” foi uma leitura excelente.

Nos últimos meses, o livro voltou às prateleiras de mais vendidos depois do anúncio do Prémio Nobel de Literatura de 2024 à autora Han Kang. O resultado causou certa surpresa no mercado literário, já que a Academia Sueca não costuma escolher autores tão jovens e que costumam vender tantos livros, como se o aspecto comercial fosse uma chancela – negativa – da qualidade literária das obras. Na minha opinião, nada mais injusto do que esse pensamento.

Sobre o enredo, não espere uma leitura relacionada ao título. Há, sim, uma personagem que de um dia para o outro decide parar de comer carne. Mas isso é só o início de um comportamento peculiar e sem muitas explicações que acaba tumultuando todos aos seu redor. O que se sabe é que Yeonghye tem sonhos misteriosos, que acabam conduzindo as suas decisões e o seu afastamento social gradativo.

E o mistério é reforçados pelas distintas vozes que nos apresentam a narrativa – nenhuma delas de Yeonghye. Em um primeiro momento temos a perspectiva do seu marido e o espanto gerado pela abrupta mudança da personagem. Na segunda parte, a história passa a ser contada pelo cunhado de Yeonghye, que passa a trazer um aspecto erótico e mais perturbador para as páginas. E, por fim, é a irmã da vegetariana que finaliza a obra.

Por trás de uma decisão aparentemente inocente, temos uma família problemática, uma infância delicada e uma denúncia da opressão feminina e uma reflexão sobre a nossa concepção de loucura – até porque não temos o ponto de vista de Yeonghye.

Em diversos momentos fiquei com o estômago embrulhado e, ao mesmo tempo, com dificuldade de largar aquelas páginas. Se você não se importa com um romance perturbador, “A vegetariana” é uma escolha certeira e que te deixará pensando por muitos dias

A cegueira do rio, de Mia Couto | Resenha

A importância da memória coletiva. É sobre esse tema que o autor moçambicano Mia Couto constrói o seu mais recente romance. Os seus personagens nascem para impedir que um acontecimento histórico brutal tenha uma única versão, comandada pelo colonizador branco.

Em 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, diversos soldados africanos e um militar português são assassinados pelo exército alemão. Mais uma triste mancha na História de Moçambique, que revela a luta da população local contra o invasor. E é a partir desse acontecimento verídico que Mia Couto utiliza a sua escrita poética e o realismo mágico característico de sua obra para recontar a tragédia. É relembrar para impedir o esquecimento.

Os personagens que conduzem a narrativa são diversos. Uma portuguesa que vai para Moçambique em busca da salvação de sua filha. Um padre que pretende reescrever a bíblia. Um sicário moçambicano se vê obrigado a se misturar aos brancos e lutar ao lado deles. Um oficial e médico alemão responsável por dar ordens brutais. Aos poucos, essas vidas se cruzam nas páginas e eles precisam lidar com um acontecimento inédito: a cegueira do rio.

Os brancos esquecem como ler e escrever. As letras se tornam borrões e eles precisam recorrer a ajuda do povo africano. A arma da escrita muda de mãos, em uma verdadeira inversão da sistemática do colonialismo.

Além de um enredo interessante, a construção do texto é muito peculiar. O autor se vale não apenas de uma narrativa tradicional, mas utiliza diversos provérbios africanos e relatos em primeira pessoa dos personagens para dar prosseguimento à história. O começo pode parecer um pouco confuso, pois há uma alternância entre as vozes, mas aos poucos fui me acostumando.

Vencedor do Prémio Camões de Literatura, terminei a leitura ainda mais impressionado com a habilidade do autor com as palavras e com a língua portuguesa. Ele nos conta a história de uma forma profunda e sem deixar as críticas sociais e políticas de lado. Mia Couto deve ser lido sem moderação.

O animal social, de Elliot Aronson | Resenha

Não é segredo que sou fã de ficção e que a maioria das minhas leituras está inserida nesse gênero. Mas a verdade é que frequentemente sou surpreendido – de forma positiva – quando me aventuro em obras mais técnicas e que buscam aproximar o leitor de temas relevantes. E foi esse o caso de “O animal social”, uma referência na área da psicologia social, publicado em 1972.

Sou totalmente leigo na área e a verdade é que o próprio termo “psicologia social” não era tão conhecido por mim. E foi nesse ponto que me surpreendi, porque percebi o quanto esse tema é amplo e interessantíssimo, ao buscar explicações sobre o comportamento humano e nossa interação em uma sociedade cada vez mais complexa. Dentre os assuntos que mais me interessaram está a análise do preconceito, das relações amorosas e da nossa tendência de buscar pertencer a algum grupo. Por que agimos como agimos?

E apesar de o livro ter sido publicado há mais de 50 anos, essa edição da @editoragoya foi recentemente atualizada pelo autor, com a ajuda do seu filho. Várias teorias foram revistas e debates contemporâneos, como redes sociais e seu impacto nas relações, foram incluídos. Ou seja, o texto continua dialogando com o leitor jovem e é impossível não se enxergar em vários dos exemplos explorados pelo autor.

Também não há como negar que a leitura é densa. São várias as teorias apresentadas e o texto tem um cunho técnico e informativo, o que me fez levar um tempo maior para concluir a leitura (leia junto com um livro de ficção). Mas a leitura é acessível e repleta de exemplos que permitem uma aproximação do leitor com os assuntos discutidos. É um texto que demanda atenção, sobretudo pela quantidade de informação, embora não se apresente como um desafio para quem é leigo.

Ou seja, se você se interessa pelo tema e pelas discussões propostas pelo autor, recomendo demais. “O animal social” continua sendo uma relevantíssima referência sobre a psicologia social e que, sem dúvidas, mudou a minha compreensão sobre muitos assuntos que enfrento no meu dia a dia.

O vício dos livros, de Afonso Cruz | Resenha

Livros sobre livros me encantam – talvez isso explique o motivo de eu ter escrito um. Gosto muito de entender como a literatura é uma experiência individual e como os livros desempenham diferentes papéis na vida de um leitor. Quando soube que o autor português tinha uma coletânea de textos sobre o tema, logo coloquei “O vício dos livros” na minha lista de próximas leituras. O título já gerou uma identificação imediata: assim como Afonso Cruz, eu também dependo da literatura para conseguir estar no meu estado de “normalidade” (entre muitas aspas).

O autor me conquistou com sua inteligentíssima obra “Vamos comprar um poeta”, que eu nunca me canso de indicar. E foi muito interessante ver mais de sua inteligência, misturada com um bom humor, nos seus textos sobre os livros. A obra é curtinha e os textos funcionam como pequenos ensaios ou relatos pessoais da relação de Afonso Cruz com a leitura.

Não espere encontrar textos acadêmicos ou intelectuais. “O vício dos livros” cativa o leitor pela simplicidade das histórias e reflexões ali contidas. É um leitor falando para outro leitor – algo que tento trazer diariamente para as redes sociais. Por outro lado, e considerando o impacto que “Vamos comprar um poeta” deixou em mim, cheguei com muita expectativa nessa leitura. Não é uma obra que me marcou, mas também nem acredito que essa tenha sido a intenção do autor. O que ele deixou em mim é a vontade de continuar lendo tudo o que ele produz – sou doido para ler “Para onde vão os guarda-chuvas”.

Enfim, Afonso Cruz faz uma gostosa e bonita homenagem à literatura!

E trazendo a citação de Jules Renard, “Quando penso em todos os livros que tenho para ler, tenho a certeza de ainda ser feliz”.

Literatura infantil: Cartas ao filho, de Alejandro Zambra | Resenha

Literatura infantil: Cartas ao filho, de Alejandro Zambra

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“Com você no colo, vejo pela primeira vez, na parede, a sombra que formamos juntos. Você tem vinte minutos de vida”. É com emocionante a experiência do primeiro contato de pai e filho que o leitor inicia o texto de “Literatura infantil”. E não se deixe enganar pelo título, já que a obra não é voltada para crianças, mas sim um convite para que os adultos mergulhem como espectadores na experiência inédita da paternidade.

Se vários são os livros escritos para os pais, seja em homenagens ou até em um acerto de contas, o autor chileno decidiu inovar e escrever “cartas ao filho”. “Narrar o mundo de que uma criança se esquecerá – tornamo-nos correspondentes de nosso filhos – é um desafio enorme”. E para o leitor, essa aventura é acolhedora e chega a esquentar o coração. Ao longo dos dias que sucedem o nascimento, acompanhamos as vivências e as descobertas de Zambra ao se encontrar na figura de pai pela primeira vez. É o aprendizado dessa “tarefa” que nasce sem manual de instruções, mas que vem junto com medos, descobertas, muita alegria e também frustrações.

Superada essa primeira parte, a obra nos revela os mais diferentes gêneros de textos, em que a paternidade é o tema que os une. Contos, crônicas, ensaios e mais relatos pessoais. E na escrita autobiográfica, o ponto alto do livro para mim, também encontramos a relação do Zambra como filho e a presença da literatura em toda a sua vida. Mesmo não sendo pai, a identificação com diferentes trechos da leitura foi inevitável.

Misturando um diário de paternidade com textos de ficção, o autor se vale de uma escrita fácil e simples, o que é, inclusive, uma característica das suas obras, mas sem nunca deixar a sensibilidade de lado.

“Literatura infantil” é uma leitura aconchegante, leve e, sobretudo, uma declaração de amor aos filhos.

FUP, de Jim Dodge  | Resenha

“Fup” é um livro nada convencional, daqueles que tem uma história que fica até difícil de explicar para outros leitores. Como um senhor, uma criança e uma pata de estimação – sim, você leu direito – podem, em pouco mais de 120 páginas, construir uma narrativa gostosa e, ao mesmo tempo, inteligente? Talvez seja essa peculiaridade que faz de “Fup” um queridinho de muitos, desde a sua publicação, em 1983.

Com o falecimento de sua filha, Jake assume, prestes a completar 100 anos, a tarefa de criar o seu neto. O personagem tem pensamentos excêntricos e acredita que descobriu o segredo para a imortalidade: um whisky fortíssimo que ele mesmo produz. Cabe ao leitor decidir se acredita naquele senhor ou se ignora a desculpa utilizada pelo personagem para justificar a sua paixão pela bebida.

E quando Fup, a pata, chega para participar das aventuras do neto e de seu avô, todos se mobilizam para caçar um porco selvagem gigante que destrói as cercas da propriedade onde moram. Aliás, Miúdo, o neto, é ficcionado por construir cercas. Toda essa descrição deixa claro que essa é uma fábula que precisa ser lida, já fica difícil convencer o leitor com a mera descrição dos acontecimentos.

E a impressão que fica é que a história tem um significado maior, ainda que essa compreensão não seja tão evidente ao leitor. Amizade, morte e paciência são temas abordados, de forma sútil e bem humorada, ao longo das páginas. Terminei a leitura com uma sensação boa, sem conseguir entender exatamente o que da narrativa mais me agradou. E, no final, é isso que mais importa ao leitor: os bons sentimentos que os livros deixam em nós. Uma fábula original e cheia de magia nos pequenos detalhes.

Nota 9/10

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Sr. Loverman, de Bernardine Evaristo | Resenha

Barry, o protagonista deste romance, é um personagem peculiar e que tem tudo para ser um anti-herói. Nascido em uma ilha caribenha, Barry vive há muitos anos em Londres, onde leva uma vida boêmia e aparentemente comum. Aos 74 anos, o personagem é casado, bem sucedido, tem duas filhas e um neto. No entanto, esconde um segredo há décadas: tem um relacionamento com Morris, o seu melhor amigo de infância.

Mas apesar da sensibilidade do tema, por viver um amor escondido e mascarar a sua sexualidade, Barry tem comportamentos e opiniões polêmicas, que podem gerar uma certa antipatia do leitor. O protagonista é machista, deixa a esposa de lado e destila preconceitos – o que, para mim, soa como até mesmo uma defesa por não se aceitar como um homem gay.

E além de misturar temas e personagens pouco convencionais, o sucesso Bernardine Evaristo coloca um forte tom bem humorado e sarcástico ao seu texto. Na minha opinião, o resultado deu muito certo. A autora nos mostra que podemos falar de assuntos delicados, mas sem necessariamente mergulhar em um tom melancólico e de difícil digestão.

Ao longo dos capítulos, vamos conhecendo um pouco do passado dos principais personagens que fazem parte da vida de Barry. E é muito interessante perceber como as escolhas do protagonista acabam impactando a vida de sua família e de Morris, a sua verdadeira paixão. O seu egoísmo deixa marcas.

O livro foi escolhido para o sentimento CULPA do #DesafioBookster2024 e tem vídeo com o querido @fcustodio sobre essa leitura no meu canal do YouTube. Entre no Telegram do Desafio Bookster para ficar por dentro (link na bio).