Se Deus me chamar não vou, de Mariana Salomão Carrara | Resenha

Sou um grande fã de livros narrados por protagonistas infantis. Alguns autores realmente conseguem nos transportar para a visão ingênua e inteligente de um personagem que ainda está tentando entender o mundo a sua volta. No caso de “Se Deus me chamar não vou”, de Mariana Salomão Carrara, um dos principais nomes da jovem literatura contemporânea nacional consegue fazer isso de forma impactante e espirituosa, tocando em temas sensíveis que despertam a reflexão no leitor.

Maria Carmem tem apenas 11 anos. A garota se sente solitária, ajuda na loja de seus pais voltada para produtos para idosos, também conhecida como “loja de velhos” e é alvo de bullying pelos seus colegas de sala. O ambiente escolar nessa idade pode ser cruel: as crianças não costumam perdoar quem é diferente. E é a partir do diário da protagonista, que tem o desejo de se tornar escritora no futuro, que conseguimos acompanhar o desenvolvimento de suas reflexões. Ela deseja ser ouvida (e lida).

Não há dúvidas de que o sofrimento de Maria Carmem toca o leitor, criando uma conexão quase que instantânea com a nossa criança que se mantém dentro de nós pelas memórias. Quem já vivenciou de alguma forma episódios de bullying, vai se identificar ainda mais com a narrativa. No entanto, a inteligência da protagonista, misturada com sua ingenuidade diante dos aspectos mais complexos da vida, tornam a leitura instigante e até mesmo bem-humorada.

Também gostei de poder acompanhar a relação da garota com seus pais. Ela analisa detalhes da relação dos dois, mesmo com a tendência de simplificação típica das crianças, e acaba tendo que lidar com uma mudança peculiar com o surgimento de um novo personagem. Será que Maria Carmem terá espaço nessa casa cheia?

As poucas páginas da obra deixaram em minha a sensação de “quero mais”. Quero conhecer mais o universo de Maria Carmem, quero acompanhar sua adolescência e, acima de tudo, quero mostrar que ela não está sozinha. Leiam, leiam e leiam!

Na voz dela, de Alba de Céspedes | Resenha

A autora italiana, que inspirou Elena Ferrante, construiu narrativas que, mesmo decorrido mais de 70 anos, ainda dialogam com o leitor contemporâneo. Assim como no sucesso “Caderno proibido”, em seu novo romance publicado no Brasil a autora mergulha no universo feminino e constrói uma personagem que não se submete ao papel que a sociedade teria escrito para as mulheres de sua época. Alessandra Gorteggiani é uma jovem que deseja ter sua voz ouvida.

Na primeira parte do livro, Alba de Céspedes foca em uma interessantíssima relação entre mãe e filha. Alessandra tem como referência uma mulher que sai de casa para dar aulas de piano a uma família rica e acaba descobrindo uma vontade perturbadora de escrever o seu próprio roteiro – que aparentemente não tem nada de comum. Por outro lado, o pai aparece como a representação do homem conservador e machista da metade do século XX. Para ele, a mulher deve exercer o seu papel dentro de casa, cuidando da família e do que ele tenta enxergar como um lar.

Essa primeira parte, na minha opinião o ponto alto da obra, termina com um desfecho trágico da mãe de Alessandra. Com isso, ainda adolescente, a garota acaba se mudando de Roma e encontra novos personagens que insistem em criá-la para um destino sem muita independência. Aos poucos, a referência de sua mãe vai se fazendo cada vez mais presente e Alessandra acaba percebendo a impossibilidade de ficar calada. Ainda que muitas vezes ela não seja ouvida, a protagonista tem a certeza de que ao menos haverá voz.

A obra é escrita em um tom confessional, em primeira pessoa, o que nos aproxima de Alessandra. Essa característica permite que a paixão que a jovem alimenta por Francesco, um professor universitário, seja transmitida para o leitor. Para alguém que viveu tantas perdas e a falta de afeto, a relação surge como um sentimento de esperança. Nesse ponto, o contexto histórico ganha forças e a iminência da Segunda Guerra Mundial traz uma revelação de Francesco: ele é antifacista e não ficará parado diante do avanço de um poder autoritário.

A vida de Alessandra, no entanto, será diretamente transformada ao longo da guerra.

O livro é longo e, em poucos momentos, senti que precisava de um novo fôlego. Alternar com leituras mais curtas foi uma ótima opção, já que depois de um dia sem ler a obra eu sentia falta da voz de Alessandra. É impressionante como as reflexões que a autora desperta em relação ao universo feminino ainda se mostram atuais. E não como deixar de falar do final chocante, que confere um significado ainda mais forte para toda a trajetória que percorremos por mais de uma década na vida da protagonista.

Santo de casa, de Stefano Volp | Resenha

A perda de um pai é, normalmente, um momento de tristeza e muita dor. Mas o que acontece quando as memórias do passado são carregadas de mágoa e conflitos? É isso que descobrimos ao acompanhar os rastros que a morte trágica de Zé Maria deixa para sua esposa, Rute, e seus três filhos. Todos retornam à cidade natal, onde ainda moravam os pais, para viver o luto e organizar o velório. Esse encontro, no entanto, vai reabrir feridas, permitir descobertas e despertar uma confusão de sentimentos. É possível amar e sofrer pela perda de quem nos fez mal?

Zé Maria foi por muito tempo uma presença que assombrava a família, exercida por um comportamento patriarcal e autoritário. A violência sofrida por Rute, e testemunhada pelos filhos, foi destruindo o amor heróico que se espera sentir pelo pai. A diferença dos tratamentos e a carência de afetos foi afastando os filhos daquela realidade, que deveria ser conhecida como lar. A mãe sofre com a falta, mas os filhos precisam viver suas vidas, cada um guiado por suas próprias motivações. E todos esse abismo criado nas relações envolve muito o leitor ao longo das páginas.

E apesar de tudo isso, a perda de Zé Maria representa a morte do pai. Isso mexe com os quatro que ainda escavam as memórias, e encontram poucas boas, enquanto preparam o velório. Por outro lado, os moradores da cidade, que conhecem um Zé Maria diferente, prestam homenagens diante de uma morte tão trágica, cometida por um assassino feroz. Porque o santo fora de casa não passava pela porta de entrada?

E todo esse enredado familiar é construído por Volp em uma estrutura peculiar, com múltiplas vozes.

Os capítulos alternam entre as visões dos filhos e da viúva, mas sempre a partir da voz do Alan, o caçula, que dialoga com os demais personagens. E apesar poder causar um certo estranhamento nos leitores, é um estilo interessantíssimo. Com uma escrita mais madura e carregada de um teor poético, o jovem autor toca em temas sensíveis e que são extremamente comuns: relacionamentos violentos, a falta do afeto, a fuga do seio familiar, o necessidade de guardar segredos e a dificuldade de lidar com o diferente. Recomendo!

Angústia, de Graciliano Ramos | Resenha

Graciliano tem uma habilidade admirável de criar personagens com densidade psicológica, quase como se pudessem sair andando pelas páginas. Em “Angústia”, talvez o autor tenha conseguido criar o mais real deles, Luís Pereira da Silva, e isso justifica o título da obra, já que o leitor realmente compartilha esse sentimento atormentador com o protagonista.

Luís é um homem desiludido e que sofre não apenas pela sua vida solitária e frustrada de funcionário público, mas também por conta de uma paixão não correspondida. Ao intercalar presente e passado, esse personagem – que pode facilmente ser definido como detestável – nos conta desde o primeiro momento quando conheceu a sua vizinha, Marina, por quem passou a desenvolver uma verdadeira obsessão. E a forma como Graciliano narra toda essa ansia do personagem é impressionante, porque carrega o leitor fundo nos pensamentos de Luís.

É possível sentir toda essa ansiedade, angústia e desespero vivenciado nas páginas do livro, que acabam levando Luíz para um declínio. E se o leitor consegue sentir isso é porque Graciliano se valeu de uma escrita bem mais densa e lenta. Há uma dedicação no desenvolvimento psicológico do Luís, o que para alguns leitores pode ser desafiador. Mas, repito, é um processo necessário – ainda que talvez em excesso, no caso – para a criação de um personagem tão real e capaz de transmitir suas emoções. Graciliano também utiliza bastante da técnica do fluxo de consciência para expor o que se passa – de forma desordenada e ansiosa – na cabeça de Luís.

Além disso, como a obra se passa em uma época de repressão do governo de Getúlio Vargas, é muito interessante como o autor também insere críticas sociais a partir da visão do protagonista. Inclusive, a questão social e política extravasa as páginas de “Angústia”, já que Graciliano foi preso pouco tempo depois de finalizar a obra.

Gostei bastante, mas é um caminho lento e desafiador. Exige atenção e paciência do leitor, mas nas últimas páginas o ritmo aumenta e a experiência acaba valendo o esforço!

Amanhã tardará, de Pedro Jucá | Resenha

Em seu romance de estreia, o jovem autor brasileiro nos apresenta uma história forte sobre traumas, relações familiares e sexualidade. E tudo isso a partir de um retorno, da busca às origens: Marcelo, o protagonista, volta a sua cidade natal por conta da doença que acomete seu pai e se depara com resquícios – extremamente doloridos – de um passado conturbado.

Ao leitor, no entanto, a revelação vai se dando aos poucos. O protagonista se apega as suas primeiras memórias para construir os caminhos de sua infância e adolescência. Aos poucos, os demais integrantes da família são apresentados e toda a complexidade que sustenta a tensão dessas relações vai ficando mais clara para o leitor.

Um dos vínculos mais interessantes é o existnwte entre Marcelo e de sua irmã, Inês. O contraste entre o passado e o presente despertam a curiosidade no leitor sobre os motivos que teriam levado a uma mudança tão drástica no afeto e senso de proteção que era nutrido entre os irmãos. A questão da descoberta da sexualidade também foi abordada de forma muito interessante pelo autor, que por compartilhar a vivência de um homem gay, consegui transportar para o texto as angústias que conectam tantas histórias.

Apesar de bem fluida, a escrita tem uma intenção poética – às vezes passando a sensação de uma grande preocupação em escolher palavras certas e construir frases que pudessem transmitir esse tom. Terminei a leitura bem impactado, até por tratar de um tema comum a todos, ainda que com as devidas particularidades de cada um: a família. Mais uma obra que mostra a qualidade da literatura contemporânea que vem sendo produzida pela nova geração de escritores.

O crematório frio: um relato de Auschwitz, de József Debreczeni | Resenha

Por 70 anos, esse relato impressionante sobre a barbaridade dos campos de concentração ficou restrito aos leitores húngaros. Por conta das consequências da Guerra Fria e do antissemitismo, a obra não chegou a ser traduzida para outros idiomas, o que faz da sua publicação décadas depois de seu lançamento uma redescoberta necessária, uma denúncia sobre o horror do holocausto.

No Brasil, a edição, que conta com uma tradução direta do Húngaro, chega no 80° ano da libertação dos prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. E o relato de József consegue ficar ainda mais chocante quando se percebe como os acontecimentos são recentes e ainda sobrevivem na memória das gerações seguintes.

O autor foi uma jornalista húngaro, que passou meses preso em campos de concentração. A sua captura ocorreu em 1944, no ano anterior ao final da guerra, o que sem dúvidas assegurou que seu final não se assemelhasse a de tantas vítimas fatais do Holocausto. Mas isso não significa que por muitos momentos o autor não acreditou que fosse morrer nas mãos do exército nazista. Pelo contrário, a leitura deixa claro que ter resistido com vida até a libertação pelas tropas soviéticas foi um resultado milagroso (ainda que seja difícil utilizar o termo em uma circunstância tão brutal).

Lendo os relatos é até difícil de acreditar como o corpo humano consegue resistir (em alguns casos) a uma situação de tanta falta, medo e exaustão. Em seus últimos meses preso no campo, o autor foi mandado para o “crematório frio”, destino dos presos mais fracos e que eram deixados para morrer. Nunca tinha lido nada sobre esses locais e posso afirmar que essas páginas foram as mais inacreditáveis e doloridas de ler. É difícil de compreender o nível de desumanidade que alguém pode checar por conta do poder e do ódio ao diferente.

É a importância de conhecer e ler sobre o passado para que atrocidades como essa não se repitam, ainda que muitos tentem fechar os olhos para o que o ser humano já foi – e ainda é – capaz de fazer.

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Monique se liberta, de Édouard Louis | Resenha

O jovem autor francês, de 32 anos anos, causou uma comoção em sua vinda ao Brasil no final do ano passado. Assisti a sua participação na FLIP e foi, sem dúvidas, umas das mesas mais impactantes que já presenciei. Já tendo lido dois de seus livros, foi muito marcante poder vê-lo pessoalmente falar dos temas que marcam suas obras: relações familiares, estrutura social e sexualidade. Para finalizar seu encontro com os leitores brasileiros, ainda tive o privilégio de participar da bancada do Roda Viva e fazer algumas perguntas ao fenômeno literário (você pode assistir à entrevista completa no canal do YouTube do programa).

“Monique se liberta” foi a última leitura que fiz, depois de já ter conhecido o autor. A personagem principal da obra é sua mãe, cujo nome está logo no título. No caso, essa é a sua segunda libertação. Em “Lutas e metamorfoses de uma mulher”, Édouard Louis narra as dificuldades da mãe de enfrentar um relacionamento violento e marcado por um cenário de pobreza e injustiças sociais.

Já em seu livro mais recente no Brasil, o autor descreve as tristezas vividas por sua mãe com um novo companheiro. Ou seja, mesmo tendo conseguido sair daquela cidade operária e de um casamento opressivo, Monique mais uma vez se encontra em uma situação de refém – tanto psicologica como financeiramente – de uma dominação masculina. Ela estava livre, mas o ciclo de violências a que está submetida a prende de novo.

A obra vai além e aborda os temas recorrentes do trabalho de Édouard Louis. O contraste da sua nova realidade com a de sua mãe, uma denuncia social e política e um certo acerto de contas com o seu passado.

Sou suspeito para falar do autor, mas recomendo muito todas as obras que já li. Leia sem medo, já que seus livros são acessíveis e tratam de sua própria vida, mas sem deixar de lado o impacto e a profundidade dos temas enfrentados.