10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho, de Elif Şafak | Resenha

A premissa desse livro, da autora turca Elif Shafak, é incrível e afeta diretamente a estrutura da narrativa. A obra parte de um dado sobre o funcionamento do nosso corpo, com base em observações científicas: após o coração parar de bater, o nosso cérebro ainda apresentaria atividades por até 10 minutos e 38 segundos. E Elif Shafak se vale dessa informação para dar início a história de Leila Tequila, já que logo na primeira página nos deparamos com a informação que a protagonista teria sido assassinada.

Os motivos são desconhecidos e o leitor não sabe nada sobre essa mulher. No entanto, a autora utiliza os capítulos seguintes para, a cada minutos após a morte de Leila, retomar as suas memórias, desde a infância até esse triste e violento final. Na primeira parte do livro, cada capítulo é um minuto. E, na minha opinião, foi aí que a escrita da autora me ganhou. Ela consegue estimular uma compaixão do leitor com a protagonista, além de despertar a curiosidade por essa mulher que desafiou o ambiente em que vivia.

Elif Shafak também nos transporta para a Turquia, construindo um cenário que contempla a cultura e tradições desse país. Leila é uma prostituta que acabou sendo conduzida para o seu destino, sem ter muitas escolhas. Crescer em um ambiente conservador e machista não só lhe roubou oportunidades, mas manteve a protagonista em um caminho de sucessivas violências. As amizades que Leila foi construindo lhe fornecem um afeto e acolhimento para seguir em frente…

Também vale dizer que Istambul é uma das personagens da obra. Eu visitei a cidade durante a leitura, já que foi um dos destinos do Bookster pelo Mundo 2025, e poder passear pelos locais mencionados pela autora foi uma oportunidade marcante.

A partir da segunda parte da obra, passamos a acompanhar sua história a partir de uma nova perspectiva. Senti que a leitura perdeu um pouco o ritmo com essa mudança, se tornando mais apressada e com um desenvolvimento menos interessante dos personagens. Ainda assim, a experiência com “10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho” foi muito envolvente e terminei a obra com a certeza de que esse é um daqueles livros que posso sair indicando, já que as chances de agradar o leitor são altas. Leila Tequila vai permanecer com você por um bom tempo!

Nota 9/10

Da próxima vez que você cair do cavalo, de Panayotis Pascot | Resenha

Sexualidade, relações familiares e saúde mental. Três temas que despertam muito meu interesse e que marcam o fio narrativo da obra de estreia do francês Panayotis Pascot. Depois de conquistar sua fama nos palcos de stand-up comedy, o humorista mergulha em suas memórias para escrever um livro impactante e que dialoga com muitas das questões enfrentadas pelas gerações atuais.

O ponto de partida é a conturbada relação com seu pai, que lida com uma doença grave. A iminência da morte leva Panayotis a refletir sobre questões que nunca foram superadas no âmbito familiar e que o autor carrega para outras áreas de sua vida. Dentre elas temos a dificuldade da auto aceitação da sexualidade, que manchou muitos anos de sua juventude. Para quem viveu algo semelhante, não há como deixar de enxergar a coragem e a sinceridade nas palavras do autor.

E é com essa mesma coragem que Panayotis aborda os desafios com sua saúde mental. A depressão que paralisa e alimenta uma sensação insuportável de desesperança. São crises que refletem uma dor ainda tão pouco compreendida. Expor uma vulnerabilidade como essa é a certeza de que outros leitores poderão se identificar e se sentir acolhidos em um sofrimento que não precisa ser solitário.

Gostei muito da leitura, até por conseguir me conectar em vários momentos descritos pelo autor. A escrita é simples e fácil, mas isso não retira a densidade dos temas abordados. A sensação, para mim, é de que li um Édouard Louis, mas sem as discussões sociais e políticas, já que a proposta de Panayotis é mergulhar em dores subjetivas de difícil acesso. Recomendo!

Homem comum, de Philip Roth | Resenha

É comum encontrarmos na literatura a descrição de acontecimentos extraordinários e vidas marcadas por grandes momentos. No entanto, há grandes autores com a habilidade de construir histórias memoráveis sobre vidas comuns, rotinas insossas e partidas sem legados. Já li diferentes obras com essa abordagem e, quando bem feita, consegue me impactar de uma forma única.

Nesse curto romance de um dos principais autores norte-americanos, já sabemos pelo próprio título que o protagonista não tem uma vida digna de um filme de Hollywood. Logo nas primeiras páginas, nos deparamos com o seu fim e como as pessoas mais próximas dele reagem a esse destino inescapável. Aos poucos, vamos descobrindo as memórias de seu passado e o encontro desse homem comum com um futuro do qual ele não tem muito do que se orgulhar.

Esse “homem comum”, cujo nome permanece desconhecido, é um profissional de sucesso que vive em Nova York e enfrenta uma relação complicada com seus dois filhos do primeiro casamento. Ele não se deixa abalar pelo término e segue em suas aventuras por novas relações. Uma nova filha que lhe dá orgulho surge no cenário familiar, que ainda conta com um irmão que desperta sentimentos contraditórios em seu íntimo.

A sua vida é, ainda, marcada por perdas. Desde a infância, o protagonista vê a morte de perto e isso irá marcar a forma como enxerga a vida. Quando a idade avança, começa a notar o desgaste do corpo. Ele se torna uma verdadeira vítima de seu estado físico e de uma sucessão de doenças.

É uma leitura extremamente melancólica! Gosto muito de Roth e da sua capacidade de despertar no leitor reflexões sobre temas universais e, ao mesmo tempo, abordar aspectos contemporâneos. Impossível não se identificar com as angústias de seus personagens – ainda que, nesse caso, o protagonista seja bastante detestável. Mas a pergunta que fica é: será que há no final um verdadeiro arrependimento ao olhar para trás e se deparar com uma vida de pouco significado?

Orgulho e preconceito, de Jane Austen | Resenha

Há livros que carregam um peso quase insuportável de expectativa. Orgulho e preconceito, publicado em 1813, é um desses. Clássico incontornável, adaptado para todos os formatos possíveis, considerado por muitos o grande romance de Jane Austen. No entanto, a minha experiência não alcançou essa expectativa: em vários momentos, a leitura me pareceu arrastada, como se essa grande novela sobre a sociedade do final do século XIX não se tivesse me envolvido.

Mas, quero deixar bem claro, não dá para negar o brilhantismo de Austen (sobretudo considerando que a obra foi escrita há mais de 200 anos). A ironia ácida com que ela constrói Elizabeth Bennet é irresistível. Inteligente e sagaz, a protagonista encarna um espírito crítico raro para sua época. É através dela que a autora desmonta, com humor e lucidez, uma sociedade que reduz a vida das mulheres à busca por um bom casamento, preferencialmente vantajoso e financeiramente seguro. No interior inglês que serve de cenário, as aparências valem tanto quanto os sentimentos, e a reputação de uma família pode ruir com uma fofoca.

E é nesse contexto que surge Mr. Darcy, talvez um dos galãs mais célebres da literatura. Sua reserva e certo ar de superioridade despertam de imediato o desprezo de Elizabeth, mas a história mostra como as primeiras impressões podem ser enganosas (talvez daí venha o título do livro). E a partir disso, surge um jogo delicado de sentimentos.

Se a narrativa às vezes pareceu estagnada para mim, o mérito de Austen está em outra camada: tantos anos depois, o romance ainda soa atual. Ainda discutimos relações atravessadas por interesses, desigualdade de gênero e a pressão social pelo “modelo ideal” de vida.

No fim, não foi a leitura arrebatadora que imaginei, mas foi uma experiência interessante: me fez refletir sobre como certos clássicos sobrevivem não por agradar sempre, mas por continuarem a provocar.

As primas, de Aurora Venturini | Resenha

Extraordinário e peculiar. Dois adjetivos para descrever a leitura de “As primas”, um romance argentino que entrou para a lista das melhores leituras dos últimos tempos. A autora publicou a obra com mais de 80 anos, quando ganhou notoriedade pela sua escrita. Aliás, a vida de Aurora Venturini é bem excêntrica e curiosa e, conforme revelado em algumas entrevistas, esta obra conteria traços autobiográficos.

O leitor acompanha Yuna, uma jovem que nasceu em uma casa conturbada. Como acompanhamos os seus pensamentos, ela não precisa esconder o que vem à cabeça… não há filtros na hora de analisar o ambiente e as pessoas a sua volta. Yuna tem uma relação de pouco afeto com a mãe, uma professora que não acredita nos talentos da filha, e sente uma certa raiva de sua irmã, Betina, que é uma pessoa com deficiência. Mas o rol de personagens mulheres que povoam a narrativa é muito mais extenso: avó, tias, primas… cada um com suas esquisitices e chatices, na visão de Yuna. Os homens, por sua vez, têm o triste – mas não surpreendente – hábito de abandonar, deixar tudo para trás.

Esse ambiente caótico ganha uma possibilidade de saída quando a protagonista conhece o professor Camaleón, que acredita no seu potencial para a pintura. Seus quadros são a sua forma de comunicar todos os fantasmas que habitam sua mente e isso a jovem faz com muita habilidade.

Yuna é daquelas personagens tão bem construídas que deixam saudades no leitor. A gente se envolve e acompanha o seu amadurecimento ao longo das páginas. O contraste entre a Yuna do início e do final da obra é emocionante, tanto em relação à linguagem, como ao seu comportamento no ambiente conturbado em que cresceu. O papel da arte também é um aspecto que torna a leitura ainda mais interessante.

Por fim, um dos pontos altos é a escrita de Venturini. Um humor ácido e irônico, sem filtros e com alta capacidade de incomodar um leitor que não separe o que seria uma “opinião” de uma autora e a construção de seu personagem. E como disse a tradutora da obra, @holamarianasanchez, na conversa que tive com ela para o clube do livro, a literatura tem como um dos seus objetivos justamente causar incômodos no leitor. Um livraço!

Mudar: método, de Édouard Louis | Resenha

Édouard Louis foi impecável nessa obra, a minha favorita do autor até o momento (e olha que li praticamente tudo o que ele já escreveu). É claro que a vivência da sexualidade me aproximou da obra, e me fez enxergar muitos dos meus próprios sentimentos, mas não tenha dúvidas de que os processos de transformação narrados pelo autor vão deixar marcas em qualquer pessoa que tenha esse livro em mãos.

De um garoto nascido em uma família conservadora da classe operário em uma pequena cidade francesa para um autor gay de sucesso e com livros publicados em diversos países, o caminho foi marcado por muito medo, culpa, vergonha e raiva. Édouard não queria pertencer aquele ambiente em que havia nascido, sentia a urgência de ascender socialmente, deixar aquele lugar opressivo para trás.

Essa fuga, no entanto, exigiu muito daquele jovem. Era preciso negar a família, a sua forma de falar, de se comunicar e de se vestir. Era necessária uma transformação para uma nova pessoa. Até o próprio nome ele deixou para trás. E ao narrar toda essa luta interna contra quem se é e contra as pessoas a sua volta, o autor faz análises sociais e políticas na tentativa de compreender um pouco do que o levou até aquelas circunstâncias. Como ele se viu inserido em um círculo de violências, em que não é possível identificar o que o iniciou. Édouard conseguiu sair, mas muitas das pessoas que ele amava não foram atrás de uma saída…

A escrita é direta e muito lúcida, com parágrafos que revelam um profundo entendimento do autor sobre o seu passado. Ele consegue colocar em palavras sentimentos complexos, revelando um verdadeiro mergulho no seu passado. Édouard conseguiu transmitir de forma muito consciente o que viveu – ainda que muitas vezes não tenha respostas. Leiam esse livro, é maravilhoso e vai permanecer em você por um bom tempo…

10/10

Meu nome é Emilia del Valle, de Isabel Allende | Resenha

A autora chilena é um fenômeno de vendas há anos e continua publicando novos romances em um ritmo impressionante. Embora nada se compare ao inesquecível “A casa dos espíritos”, Isabel Allende tem a habilidade de mesclar narrativas cativantes e um interessante contexto histórico.

Em seu mais recente romance, “Meu nome é Emilia Del Valle”, a autora repete o seu estilo narrativo e nos apresenta uma protagonista corajosa no final do século XIX. Emilia nasce na Califórnia e é criada pela mãe e pelo padrasto, já que seu pai abandonou a família e voltou para o Chile, seu país natal. Apaixonada pela escrita, e com o objetivo de se tornar uma autora de sucesso, a protagonista desafia as convenções sociais da época, que tentam manter a mulher cuidando do lar, e acaba sendo contratada por um jornal.

As aventuras de verdade começam quando ela é alocada para cobrir uma guerra civil no Chile, o que acaba sendo não apenas uma viagem tumultuada e com um pano histórico intenso, mas também uma busca pelo seu passado. Emilia desembarca no país que é berço da família aristocrática de seu pai e poderá desvendar essa lado da sua história que sempre permaneceu obscuro.

Gostei da leitura, ela é envolvente e, como costumam ser os romances de Allende, bem fluida. O ponto alto para mim foi a descrição e ambientação da guerra civil chilena do final do século XIX, um tema que eu conhecia muito pouco. A narrativa nos transporta para os dois lados desse conflito, a partir da visão de Emilia e de um homem por quem ela acaba se apaixonando. Ainda que eu tenha sentido falta de um maior desenvolvimento da personagem, sobretudo na parte final, fica a minha dica para quem gosta do estilo da autora e busca uma leitura gostosa.

8/10