A cachorra, de Pilar Quintana | Resenha

Depois de terminar esse curto romance da autora colombiana Pilar Quintana, fiquei com a sensação de que meu nível de tolerância para livros com temáticas perturbadoras está bem alto, rs – ou os temas aqui tratados não me tocaram de forma tão profunda. Isso porque quando decidir ler “A cachorra”, recebi diversas mensagens de leitores me alertando sobre o impacto da narrativa e do enredo, algo que se assemelharia a “A vegetariana”. No entanto, confesso que me decepcionei com a leitura…

Em menos de 100 páginas, Pilar Quintana nos apresenta uma protagonista que vive um relacionamento conturbado e repleto de frustrações. Rogelio e Damaris não conseguem ter filhos. E essa “incapacidade” acaba sendo injustamente atribuída à protagonista pelos moradores da comunidade em que vivem, como se ela não prestasse para desempenhar o papel de uma mulher.

Essa vontade de ser mãe acaba sendo acalmada com uma decisão não planejada: adotar um filhote de cachorro que cruza o seu caminho. Damaris enfrenta a solidão, imposta pela natureza ao seu redor, por um marido que não basta e por um trabalho sem tanto sentido – ela cuida de uma casa de veraneio de proprietários que nunca aparecem. Assim, a cachorra surge como uma companhia, ajudando messe sentimento de solidão até nos traumas que Damaris carrega. A protagonista direciona suas frustadas àquele filhote que agora precisa de tantos cuidados.

No entanto, a complexidade dessa relação aumenta e a cachorra, Chirli, acaba despertando sentimentos extremos na protagonista. Há raiva, possessividade, desgosto, amor, rejeição… mas a questão que surge é, novamente, a frustração que uma relação como aquela pode despertar em quem colocou tantas expectativas.

Ao final, senti que não consegui mergulhar em todas as camadas que a autora pretendeu inserir em sua narrativa. A leitura ficou rasa e senti falta de um mergulho naquele ambiente interior de Damaris. Talvez uma segunda leitura me ajude a compreender melhor a dimensão dessas relações…

6/10

Sob o olhar do leão, de Maaza Mengiste | Resenha

Quantos livros você já leu de autores etíopes? Aposto que a resposta da maioria é nenhum. Foi justamente com o objetivo de trazer obras das mais diferentes partes do mundo, e que muitas vezes sequer estão publicadas no Brasil, que eu criei o meu clube do livro (Bookster pelo Mundo). E para o mês de fevereiro, lemos um romance histórico que se passa em um período extremamente conturbado da Etiópia.

Maaza Mengiste decidiu retornar para a sua terra natal por meio da literatura, fazendo uma denúncia sobre a violência que fez milhares de vítimas na década de 70. Até então o país, que vivia uma crise de pobreza e fome, era comandado pelo imperador Hailé Selassié. No entanto, em 1974 um comitê militar deu um golpe de Estado e assumiu o poder. O que aparentava ser uma alternativa para mudanças positivas, contando inclusive com o apoio do movimento estudantil, se revelou um período sangrento para o país.

E é nesse cenário que acompanhamos a história de uma família e os impactos que essas mudanças causam, de forma distinta, em cada um dos seus membros. Hailu, a figura paterna, é médico e acaba ficando viúvo logo no início da narrativa. Diante disso, cabe ao personagem lidar com as diferenças que marcam seus dois filhos: Dawit e Yonas. Há fortes contrastes de pensamentos e comportamentos, que são acentuados. Há, também, outros personagens bem interessantes que circundam esse núcleo familiar, como a esposa de Yonas.

Também é muito interessante a forma como a autora vai construindo as mudanças nos personagens. A reação de cada um é única diante da busca pela sobrevivência e da proteção das pessoas que amadas. O único ponto que senti um pouco de falta foi o aprofundamento no psicológico de alguns personagens, já que não consegui me conectar tanto (o principal, para mim, ficou com a parte histórica).
A escrita é bem fluida, com capítulos curtos, mas já adianto que há cenas muito fortes, servindo como uma verdadeira denúncia do período brutal vivido pela Etiópia.

Em mensagem enviada pela autora aos membros do clube, Maaza nos contou que não tinha como ser diferente e ignorar o grau de maldade e de sofrimento que o regime causou para milhares de pessoas. Um ótimo romance histórico!

Nota 9/10

Se Deus me chamar não vou, de Mariana Salomão Carrara | Resenha

Sou um grande fã de livros narrados por protagonistas infantis. Alguns autores realmente conseguem nos transportar para a visão ingênua e inteligente de um personagem que ainda está tentando entender o mundo a sua volta. No caso de “Se Deus me chamar não vou”, de Mariana Salomão Carrara, um dos principais nomes da jovem literatura contemporânea nacional consegue fazer isso de forma impactante e espirituosa, tocando em temas sensíveis que despertam a reflexão no leitor.

Maria Carmem tem apenas 11 anos. A garota se sente solitária, ajuda na loja de seus pais voltada para produtos para idosos, também conhecida como “loja de velhos” e é alvo de bullying pelos seus colegas de sala. O ambiente escolar nessa idade pode ser cruel: as crianças não costumam perdoar quem é diferente. E é a partir do diário da protagonista, que tem o desejo de se tornar escritora no futuro, que conseguimos acompanhar o desenvolvimento de suas reflexões. Ela deseja ser ouvida (e lida).

Não há dúvidas de que o sofrimento de Maria Carmem toca o leitor, criando uma conexão quase que instantânea com a nossa criança que se mantém dentro de nós pelas memórias. Quem já vivenciou de alguma forma episódios de bullying, vai se identificar ainda mais com a narrativa. No entanto, a inteligência da protagonista, misturada com sua ingenuidade diante dos aspectos mais complexos da vida, tornam a leitura instigante e até mesmo bem-humorada.

Também gostei de poder acompanhar a relação da garota com seus pais. Ela analisa detalhes da relação dos dois, mesmo com a tendência de simplificação típica das crianças, e acaba tendo que lidar com uma mudança peculiar com o surgimento de um novo personagem. Será que Maria Carmem terá espaço nessa casa cheia?

As poucas páginas da obra deixaram em minha a sensação de “quero mais”. Quero conhecer mais o universo de Maria Carmem, quero acompanhar sua adolescência e, acima de tudo, quero mostrar que ela não está sozinha. Leiam, leiam e leiam!

Santo de casa, de Stefano Volp | Resenha

A perda de um pai é, normalmente, um momento de tristeza e muita dor. Mas o que acontece quando as memórias do passado são carregadas de mágoa e conflitos? É isso que descobrimos ao acompanhar os rastros que a morte trágica de Zé Maria deixa para sua esposa, Rute, e seus três filhos. Todos retornam à cidade natal, onde ainda moravam os pais, para viver o luto e organizar o velório. Esse encontro, no entanto, vai reabrir feridas, permitir descobertas e despertar uma confusão de sentimentos. É possível amar e sofrer pela perda de quem nos fez mal?

Zé Maria foi por muito tempo uma presença que assombrava a família, exercida por um comportamento patriarcal e autoritário. A violência sofrida por Rute, e testemunhada pelos filhos, foi destruindo o amor heróico que se espera sentir pelo pai. A diferença dos tratamentos e a carência de afetos foi afastando os filhos daquela realidade, que deveria ser conhecida como lar. A mãe sofre com a falta, mas os filhos precisam viver suas vidas, cada um guiado por suas próprias motivações. E todos esse abismo criado nas relações envolve muito o leitor ao longo das páginas.

E apesar de tudo isso, a perda de Zé Maria representa a morte do pai. Isso mexe com os quatro que ainda escavam as memórias, e encontram poucas boas, enquanto preparam o velório. Por outro lado, os moradores da cidade, que conhecem um Zé Maria diferente, prestam homenagens diante de uma morte tão trágica, cometida por um assassino feroz. Porque o santo fora de casa não passava pela porta de entrada?

E todo esse enredado familiar é construído por Volp em uma estrutura peculiar, com múltiplas vozes.

Os capítulos alternam entre as visões dos filhos e da viúva, mas sempre a partir da voz do Alan, o caçula, que dialoga com os demais personagens. E apesar poder causar um certo estranhamento nos leitores, é um estilo interessantíssimo. Com uma escrita mais madura e carregada de um teor poético, o jovem autor toca em temas sensíveis e que são extremamente comuns: relacionamentos violentos, a falta do afeto, a fuga do seio familiar, o necessidade de guardar segredos e a dificuldade de lidar com o diferente. Recomendo!

De onde eles vêm, de Jeferson Tenório | Resenha

Radicado em Porto Alegra, Jeferson Tenório é, hoje, um dos exemplos do alcance que a literatura nacional contemporânea vem atingindo. O sucesso “O avesso da pele”, vencedor do Prêmio Jabuti, vendeu milhares de cópias no Brasil – e fora dele -, confirmando a importância de valorizamos o que vem sendo produzido pelos nossos autores.

Por outro lado, o seu livro também é exemplo de como o conservadorismo e a polarização podem ser uma ameaça para a cultura e diversidade. No início desse ano, “O avesso da pele” foi vítima de uma triste tentativa de censura, com o seu banimento em escolas estaduais. O medo do diferente é real e os temas tratados por Jeferson, ao contrário de serem uma ameaça, apenas revelam a necessidade de incluirmos as mais diversas formas discriminação – tão recorrentes – no centro do debate.

Em seu mais novo romance, “De onde eles vêm”, o autor toca mais uma vez em um tema sensível e de extrema relevância: as cotas raciais em universidades. Jeferson insere a discussão a partir da perspectiva o jovem Joaquim, por volta dos anos 2000, quando ingressaram os primeiros estudantes nas instituições brasileiras. É a denúncia de que se um primeiro obstáculo foi superado, muitos outros ainda teriam que ser enfrentados.

Joaquim é órfão, de família pobre e precisa cuidar de sua avó, uma senhora doente e que demanda muita atenção. Desempregado, e com pouquíssimos recursos, o protagonista precisa dividir seu tempo entre os estudos, a sua avó e a juventude. Ele tem direito ao amor, às amizades e à diversão, apesar de a sociedade tentar tirar isso dele. Não bastassem as dificuldades no seu dia a dia, Joaquim também enfrenta o preconceito no ambiente universitário por ser um aluno cotista. As diferenças que tentam impor ao estudante escancaram a desigualdade e o racismo em nosso país.

A escrita é muito acessível e o desenvolvimento da história acontece de uma maneira muito fluida. Ao mesmo tempo que Jeferson enfrenta temas importantes, constrói uma narrativa que provavelmente vai agradar os mais diferentes leitores.

Narciso e Goldmund, de Hermann Hesse | Resenha

O vencedor do Nobel de 1946 tem uma extensa produção literária e, em seus romances, abordar questões filosóficas e existenciais. “Sidarta”, “O lobo da estepe” e “Demian” são alguns dos que li e que me despertaram o interesse no autor. Com “Narciso e Goldmund”, que estava esgotada há anos no Brasil, o autor repete a sua forma de escrever e cria uma narrativa sobre dois amigos, repleta de boas reflexões. É um romance sobre opostos.

De um lado, o jovem e belo Goldmund, que chega a um convento na Alemanha medieval a pedido do pai, com o objetivo de se tornar um homem da religião. De outro lado, Narciso é um monge, vive no convento e leva uma vida dedicada à fé e aos estudos. Com o tempo, surge uma relação de mestre e pupilo entre os dois, regada de um sentimento de admiração recíproco. As diferenças entre os dois amigos não é um impeditivo para essa forte união.

Incomodado pelos conflitos internos que o afligem, Goldmund resolve deixar o convento e seguir um caminho de busca pela felicidade e pela memória de sua mãe. É uma vida de andarilho, sem planos traçados e sem um destino certo. E o interessante é perceber como o prazer sentido pelo personagem acaba se desprendendo de objetos ou de sentimentos que, para muitos de nós, estão atrelados à felicidade. Ainda que o tema seja atualmente clichê, já em 1930 Hesse se debruçava sobre a importância de fruir o momento e de não se conformar com os valores estabelecidos. Mas será que Goldmund consegue se manter fiel a esse desprendimento?

O início do livro é lento, como se o autor quisesse nos mostrar o ritmo daquele convento, em que a dedicação pela fé e o estudo são a regra principal. A leitura ganha força com a saída de Goldmund e com as dificuldades e paixões que o andarilho encontra. Não foi o livro que mais gostei do autor e, na verdade, depois de já ter lido algumas de suas obras, comecei a sentir que os temas se repetem, como se seguisse uma fórmula. De todo modo, terminei envolvido com os personagens e satisfeito com a leitura. Se você vencer o começo mais parado, provavelmente vai gostar!

Cupim, de Layla Martinez | Resenha

Um terror feminista. Perturbador e Misterioso. A jovem autora espanhola vem sendo estaque na Espanha com seu romance de estreia. Uma avó e sua neta habitam uma casa mal assombrada. Mas não pense em monstros ou bruxas. A casa também é lar para a sombra dos antepassados, sobretudo os homens da família – responsáveis por anos de violência contra quem ousou nascer mulher.

Nesse romance, a casa é um dos principais personagens. Ela reage aos acontecimentos e, em seu interior, coisas estranhas acontecem. As sombras se confundem com a mobília. E, acostumadas com aqueles que não conseguem deixar aquela casa, a avó e a neta parecem não se incomodar. O que realmente é motivo de medo para uma mulher?

A relação entre as duas é marcada por um rancor, sobretudo em virtude de um acontecimento envolvendo uma família rica para quem a neta trabalhava naquele vilarejo do interior da Espanha. A desigualdade social é, portanto, outro tema que surge no ambiente e que desperta a raiva em quem sequer consegue garantir o mínimo.

Os capítulos intercalam a perspectiva de cada uma das duas personagens e, aos poucos, o leitor vai conhecendo um pouco mais sobre o passado daquela casa – e de quem já a habitou -, assim como da verdadeira história por trás do episódio fez com que avó e neta se tornassem figuras indesejadas naquele vilarejo.

Enfim, apesar de fluido e curto, “Cupim” é uma leitura diferente, perturbadora e que pode não agradar todo leitor. O início causa certa estranheza, mas aos poucos o leitor vai se acostumando com a escrita de Layla Martinez. Para mim, uma das melhores leituras do ano!

A obra foi escolhida para o #DesafioBookster2024 no mês de setembro para o sentimento Raiva. No meu canal do YouTube você encontra o bate-papo sobre o livro com Andréa del Fuego.