Na voz dela, de Alba de Céspedes | Resenha

A autora italiana, que inspirou Elena Ferrante, construiu narrativas que, mesmo decorrido mais de 70 anos, ainda dialogam com o leitor contemporâneo. Assim como no sucesso “Caderno proibido”, em seu novo romance publicado no Brasil a autora mergulha no universo feminino e constrói uma personagem que não se submete ao papel que a sociedade teria escrito para as mulheres de sua época. Alessandra Gorteggiani é uma jovem que deseja ter sua voz ouvida.

Na primeira parte do livro, Alba de Céspedes foca em uma interessantíssima relação entre mãe e filha. Alessandra tem como referência uma mulher que sai de casa para dar aulas de piano a uma família rica e acaba descobrindo uma vontade perturbadora de escrever o seu próprio roteiro – que aparentemente não tem nada de comum. Por outro lado, o pai aparece como a representação do homem conservador e machista da metade do século XX. Para ele, a mulher deve exercer o seu papel dentro de casa, cuidando da família e do que ele tenta enxergar como um lar.

Essa primeira parte, na minha opinião o ponto alto da obra, termina com um desfecho trágico da mãe de Alessandra. Com isso, ainda adolescente, a garota acaba se mudando de Roma e encontra novos personagens que insistem em criá-la para um destino sem muita independência. Aos poucos, a referência de sua mãe vai se fazendo cada vez mais presente e Alessandra acaba percebendo a impossibilidade de ficar calada. Ainda que muitas vezes ela não seja ouvida, a protagonista tem a certeza de que ao menos haverá voz.

A obra é escrita em um tom confessional, em primeira pessoa, o que nos aproxima de Alessandra. Essa característica permite que a paixão que a jovem alimenta por Francesco, um professor universitário, seja transmitida para o leitor. Para alguém que viveu tantas perdas e a falta de afeto, a relação surge como um sentimento de esperança. Nesse ponto, o contexto histórico ganha forças e a iminência da Segunda Guerra Mundial traz uma revelação de Francesco: ele é antifacista e não ficará parado diante do avanço de um poder autoritário.

A vida de Alessandra, no entanto, será diretamente transformada ao longo da guerra.

O livro é longo e, em poucos momentos, senti que precisava de um novo fôlego. Alternar com leituras mais curtas foi uma ótima opção, já que depois de um dia sem ler a obra eu sentia falta da voz de Alessandra. É impressionante como as reflexões que a autora desperta em relação ao universo feminino ainda se mostram atuais. E não como deixar de falar do final chocante, que confere um significado ainda mais forte para toda a trajetória que percorremos por mais de uma década na vida da protagonista.

O deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati | Resenha

Paciência. Tédio. Espera. Um dos maiores clássicos da literatura italiano, publicado em 1940, é um romance sobre a passagem do tempo. O jovem Giovanni Drogo é enviado para atuar como oficial do exército no Forte Bastiani. A notícia é recebida com grande entusiasmo, já que finalmente ele dará o primeiro passo no glorioso trabalho de defender o seu país.

O que Drogo não esperava é que no Forte Bastiani o dia a dia não oferece tantas emoções. O lugar é isolado, com vista para um imenso deserto e sem vida no seu entorno. Os oficiais que lá vivem cumprem funções repetitivas, oferecem proteção a um perigo que aparentemente não existe e aguardam o dia seguinte. O inimigo nunca vem… e o desespero logo toma conta do protagonista: ele precisa sair de lá.

Como vocês podem imaginar, essa não é uma leitura para quem gosta de enredos com grandes acontecimentos. É uma escrita mais densa, que envolve apreciar a construção daquele cenário isolado, a descrição do comportamento dos personagens e a esperança constante do que pode acontecer. Mas e se os
inimigos nunca aparecerem, seria a nossa vida um total desperdício?

Para quem vive em uma sociedade como a atual, em que o tempo de espera não é mais aceitável e o tédio se tornou um sentimento com o qual não sabemos mais lidar, a leitura se torna ainda mais interessante. São várias as reflexões despertadas no texto de Buzzati. Gostei muito, mas pode não agradar a todos!