De onde eles vêm, de Jeferson Tenório | Resenha

Radicado em Porto Alegra, Jeferson Tenório é, hoje, um dos exemplos do alcance que a literatura nacional contemporânea vem atingindo. O sucesso “O avesso da pele”, vencedor do Prêmio Jabuti, vendeu milhares de cópias no Brasil – e fora dele -, confirmando a importância de valorizamos o que vem sendo produzido pelos nossos autores.

Por outro lado, o seu livro também é exemplo de como o conservadorismo e a polarização podem ser uma ameaça para a cultura e diversidade. No início desse ano, “O avesso da pele” foi vítima de uma triste tentativa de censura, com o seu banimento em escolas estaduais. O medo do diferente é real e os temas tratados por Jeferson, ao contrário de serem uma ameaça, apenas revelam a necessidade de incluirmos as mais diversas formas discriminação – tão recorrentes – no centro do debate.

Em seu mais novo romance, “De onde eles vêm”, o autor toca mais uma vez em um tema sensível e de extrema relevância: as cotas raciais em universidades. Jeferson insere a discussão a partir da perspectiva o jovem Joaquim, por volta dos anos 2000, quando ingressaram os primeiros estudantes nas instituições brasileiras. É a denúncia de que se um primeiro obstáculo foi superado, muitos outros ainda teriam que ser enfrentados.

Joaquim é órfão, de família pobre e precisa cuidar de sua avó, uma senhora doente e que demanda muita atenção. Desempregado, e com pouquíssimos recursos, o protagonista precisa dividir seu tempo entre os estudos, a sua avó e a juventude. Ele tem direito ao amor, às amizades e à diversão, apesar de a sociedade tentar tirar isso dele. Não bastassem as dificuldades no seu dia a dia, Joaquim também enfrenta o preconceito no ambiente universitário por ser um aluno cotista. As diferenças que tentam impor ao estudante escancaram a desigualdade e o racismo em nosso país.

A escrita é muito acessível e o desenvolvimento da história acontece de uma maneira muito fluida. Ao mesmo tempo que Jeferson enfrenta temas importantes, constrói uma narrativa que provavelmente vai agradar os mais diferentes leitores.

O avesso da pele, de Jeferson Tenório | Resenha

Começar o #DesafioBookster2022 com uma leitura tão impactante como essa é com certeza um sinal de quanto a literatura nacional contemporânea pode ser surpreendente!

Pedro, o protagonista da narrativa é um homem negro que vive em Porto Alegre. Por viver em um país racista e desigual, Pedro sofre diariamente com agressões motivadas unicamente pela sua cor de pele. Pedro vive em um sistema agressor, mas o que fica claro ao longo do livro é que as vítimas desse preconceito são infindáveis, inclusive os seus próprios antepassados. E é justamente com um deles que Pedro vai conversando ao longo da obra: Henrique, seu Pai, morto recentemente.

Escrito em segunda pessoa, o protagonista vai reconstruindo a sua memória e a daqueles que vieram antes dele. É difícil atravessar essa leitura sem sentir momentos de aperto pelo sofrimento cotidiano de tantos que sobrevivem a uma realidade que os considera inferiores. Esse livro deixa muito claro o poder que a literatura tem de nos ensinar sobre a realidade do outro, sobre o que nos é diferente. Não há como terminar “O avesso da pele” e ainda assim defender que a ficção é perda de tempo!

Ao mesmo tempo que desperta reflexões tão importantes sobre o racismo estrutural em nossa sociedade, o autor também consegue adentrar nos nós e embaraços que constituem a relação de pai e filho. São as memórias usadas como ferramenta de enfrentamento do luto, da perda.

A escrita de Jeferson Tenório é gostosa de ler, flui bem e a forma com que optou por fazer Pedro dirigir as palavras ao próprio pai com certeza deu um aspecto único para o livro. Para quem quiser saber mais, o autor participou de um episódio do @dariaumlivropodcast. É só correr no Spotify para conferir!