Gosto de biografias romanceadas, que revelam não datas, nomes e lugares do protagonista daquela vida que está sendo lida, mas que se aprofunda em um lugar mais íntimo, um lado pouco conhecido. Eu já havia lido “Só garotos”, de Patti Smith, e fiquei totalmente envolvido por aquela atmosfera descrita e pela vida caótica e vibrante daqueles jovens. E se naquela obra a autora nos apresentou um recorte específico de sua vida, em seu mais novo livro ela nos convida a acompanhar toda a sua trajetória, passando por momentos simples e extremamente pessoais.
A parte da sua infância foi, para mim, o momento mais envolvente da leitura. Uma garota que precisou ficar semanas e semanas acamada para combater diferentes doenças, que guardava tesouros especiais em um esconderijo secreto e que aos poucos foi descobrindo a sua paixão pela arte. A forma como Patti nos apresenta os seus primeiros anos é singular e emocionante. A relação com os pais, o nascimento de seus irmãos e as diversas mudanças que ditaram os rumos da sua infância são contadas como uma tarefa gostosa – e por vezes dolorida – relacionada ao ato de lembrar.
É verdade que o momento em que a autora foca na evolução de sua carreira pode imprimir um ritmo mais lento para o leitor que conhece menos o seu passado musical, mas a narrativa já retoma o fôlego quando passamos a conhecer detalhes sobre o seu relacionamento com Fred. Talvez seja a primeira vez que Patti tenha aberto esse capítulo de sua vida e é muito emocionante acompanhar todos esses momentos, passando pela morte do seu companheiro e entrando em temas como luto e sua reconstrução criativa. O amor e a perda estão presentes de forma constante nessas páginas.
Terminei a leitura com a sensação de ter lido uma história deliciosa, não sobre uma cantora famosa, mas sobre uma filha, uma irmã, uma amiga, uma mãe e uma companheira. Uma vida atravessada por pequenos gestos de bondade.