Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez | Resenha

Que eu sou fã de carteirinha do Gabo, vocês já sabem. Mas eu tenho uma história de infância envolvendo essa obra. Nunca vou esquecer de, em uma viagem de navio que fiz com meus avós paternos, ver minha avó lendo um mesmo livro em vários momentos daquelas férias. Eu devia ter uns 10 anos e, como um bom curioso, resolvi fuçar para saber o título que ela tinha em mãos. Fiquei em choque quando eu vi: minha avó estava lendo uma obra sobre putas tristes? A minha imaginação foi longe para tentar descobrir qual seria a história naquelas páginas.

E foi só depois de cerca de 20 anos que resolvi dar a chance para a obra, que foi o último romance publicado pelo autor. Com um tema bem polêmico – e de difícil digestão – narra os dias de um homem que acaba de completar 90 anos. Enquanto relembra seu passado como jornalista e filho de uma família aristocrata em decadência, o personagem tentar encontrar o seu presente de aniversário: uma prostituta virgem.

Apesar de ser um frequentador costumeiro de prostíbulos, a experiência com uma virgem seria inédita. A situação fica ainda mais incômoda para o leitor quando se descobre que a mulher ofertada seria uma adolescente. Para um homem que nunca teve um amor em toda sua vida, a situação parece sair do controle depois que ele conhece a jovem.

É, acima de tudo, um relato de um velho decadente, que viveu uma vida solitária e mimada. Aos 90 anos, decide fazer um acerto de contas com seu passado enquanto percorre por suas memórias. Gosto muito da escrita do Gabo e de sua habilidade em contar histórias, e, apesar da polêmica de temas tratados, gostei muito da leitura. Na minha visão, não há uma romantização da relação do velho com a adolescente, mas sim o retrato melancólico da decadência humana. E a repulsa sentida pelo leitor é inevitável.

O parque das irmãs magníficas, de Camila Sosa Villada | Resenha

Já antecipo para vocês que esse livro de apenas 200 páginas conseguiu me emocionar e despertar tanta compaixão pelas personagens que, sem dúvidas, foi uma das melhores leituras de 2022.

E é engraçado que, para mim, é mais difícil escrever sobre livros que me impactam muito do que sobre as leituras que não deixam tantas marcas. Talvez porque o que mais conquista o leitor não são os aspectos mais objetivos de uma narrativa, mas os sentimentos que compartilhamos. E é essa parte subjetiva da experiência que exige mais de mim na hora de escrever uma resenha para vocês.

Nessa obra com fortes traços autobiográficos, Camila Villada, uma mulher trans, nos leva para a cidade argentina de Córdoba, para um parque que dá nome ao livro. Não bastasse as angústias de crescer em conflito com o próprio corpo, a protagonista enfrenta a rejeição da sociedade. E é nesse parque que um grupo de travestis que compartilham de suas doares a acolhem.

A realidade desse grupo, comandado por Tia Encarna, uma figura forte e amorosa, é marcada por violências. Marginalizadas pela sociedade, as travestis precisam se submeter a uma violência de seus corpos para conseguir sobreviver. Não bastasse isso, elas são vistas com repulsa por quem cruza seu caminho, em um constante sofrimento psicológico. E nessa realidade brutal, as irmãs magníficas são tudo o que lhes resta. Uma irmandade que ameniza o sofrimento.

Além de escrever de forma cativante e poética, a autora tempera a narrativa com uma mágica que desafia a realidade. Uma personagem se transforma em pássaro, outra vive muito mais de cem anos e tantos outros detalhes que deixam a leitura ainda mais impressionante. Talvez toda essa mágica seja uma forma de apaziguar tanta dor que as personagens sentem, uma tentativa de escapar por alguns segundos da triste realidade que não fica presa às páginas do livro, mas que toma conta de tantos outros parques, casas e corpos pelo mundo. Livro maravilhoso, triste, sensível, que merece a leitura de todos!