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Santo de casa, de Stefano Volp | Resenha

A perda de um pai é, normalmente, um momento de tristeza e muita dor. Mas o que acontece quando as memórias do passado são carregadas de mágoa e conflitos? É isso que descobrimos ao acompanhar os rastros que a morte trágica de Zé Maria deixa para sua esposa, Rute, e seus três filhos. Todos retornam à cidade natal, onde ainda moravam os pais, para viver o luto e organizar o velório. Esse encontro, no entanto, vai reabrir feridas, permitir descobertas e despertar uma confusão de sentimentos. É possível amar e sofrer pela perda de quem nos fez mal?

Zé Maria foi por muito tempo uma presença que assombrava a família, exercida por um comportamento patriarcal e autoritário. A violência sofrida por Rute, e testemunhada pelos filhos, foi destruindo o amor heróico que se espera sentir pelo pai. A diferença dos tratamentos e a carência de afetos foi afastando os filhos daquela realidade, que deveria ser conhecida como lar. A mãe sofre com a falta, mas os filhos precisam viver suas vidas, cada um guiado por suas próprias motivações. E todos esse abismo criado nas relações envolve muito o leitor ao longo das páginas.

E apesar de tudo isso, a perda de Zé Maria representa a morte do pai. Isso mexe com os quatro que ainda escavam as memórias, e encontram poucas boas, enquanto preparam o velório. Por outro lado, os moradores da cidade, que conhecem um Zé Maria diferente, prestam homenagens diante de uma morte tão trágica, cometida por um assassino feroz. Porque o santo fora de casa não passava pela porta de entrada?

E todo esse enredado familiar é construído por Volp em uma estrutura peculiar, com múltiplas vozes.

Os capítulos alternam entre as visões dos filhos e da viúva, mas sempre a partir da voz do Alan, o caçula, que dialoga com os demais personagens. E apesar poder causar um certo estranhamento nos leitores, é um estilo interessantíssimo. Com uma escrita mais madura e carregada de um teor poético, o jovem autor toca em temas sensíveis e que são extremamente comuns: relacionamentos violentos, a falta do afeto, a fuga do seio familiar, o necessidade de guardar segredos e a dificuldade de lidar com o diferente. Recomendo!

Divórcio em Buda, de Sándor Márai | Resenha

Um dos mais importantes escritores húngaros, Sándor Márai constrói um personagem repleto de conflitos e com uma interessantíssima densidade psicológica. Na Budapeste da década de 30, pré Segunda Guerra Mundial, o juiz Kristóf Kömives se depara com o dever de homologar um divórcio de um homem e uma mulher que já cruzaram os seus caminhos. Imre Greiner foi seu colega de escola e Anna Fazekas teve um encontro marcante com Kömives alguns anos antes.

Essa sua tarefa desperta no protagonista diversas reflexões e dúvidas sobre o caráter moral do que precisa fazer como representando do Estado. Homologar um divórcio e destruir uma família seria o correto a fazer? A primeira parte do livro, que carrega um tom muito mais subjetivo e sem grandes acontecimentos, transporta o leitor justamente para os pensamentos conflituosos de Kömives. Ele se incomoda e sofre com o contraste entre o tradicional e o novo, entre o que o Estado lhe obriga a fazer e o que a religião entende como correto, entre o que é o moralmente correto e os desejos do ser humano.

Gostei muito de como o autor conseguiu construir os personagens de forma sólida, retomando a vida do protagonista, de sua esposa e do casal que estava prestes a oficializar o divórcio. Esse processo conseguiu explicar muito dos pensamentos de Kömives, que nasceu em uma família aristocrática, seguindo os passos dos homens que o antecederam, todos bem sucedidos na carreira de magistrado. Ou seja, o protagonista vive o lado que enxerga nas mudanças uma possível ameaça a sua própria condição.

Esse contraste entre progresso e tradição também é refletido na cidade que serve de cenário para a narrativa. Budapeste é dividida pelo rio Danúbio entre Buda, um local que preserva as construções mais antigas e serve de residência para a aristocracia, e Peste, um símbolo do progresso e da modernidade. Em janeiro, no mês da leitura para o clube Bookster pelo Mundo, visitei a capital húngara e pude vivenciar esse contraste. Senti como estivesse caminhando pelos mesmos trajetos seguidos pelo protagonista.
A segunda parte do livro toma um fôlego maior, uma vez que o leitor acompanhará os diálogos entre Kömives e um visitante que aparece em sua casa no meio da madrugada, com uma confissão surpreendente. Esse encontro revolverá o passado e lembranças marcantes do protagonista.

Eu gostei muito da leitura e das reflexões despertadas pelas contradições vividas por Kömives, mas reconheço que a obra mais lenta e introspectiva possa gerar um incômodo em certos leitores. Márai tem uma habilidade incrível de se aprofundar no psicológico dos personagens e de construir diálogos marcantes.

Angústia, de Graciliano Ramos | Resenha

Graciliano tem uma habilidade admirável de criar personagens com densidade psicológica, quase como se pudessem sair andando pelas páginas. Em “Angústia”, talvez o autor tenha conseguido criar o mais real deles, Luís Pereira da Silva, e isso justifica o título da obra, já que o leitor realmente compartilha esse sentimento atormentador com o protagonista.

Luís é um homem desiludido e que sofre não apenas pela sua vida solitária e frustrada de funcionário público, mas também por conta de uma paixão não correspondida. Ao intercalar presente e passado, esse personagem – que pode facilmente ser definido como detestável – nos conta desde o primeiro momento quando conheceu a sua vizinha, Marina, por quem passou a desenvolver uma verdadeira obsessão. E a forma como Graciliano narra toda essa ansia do personagem é impressionante, porque carrega o leitor fundo nos pensamentos de Luís.

É possível sentir toda essa ansiedade, angústia e desespero vivenciado nas páginas do livro, que acabam levando Luíz para um declínio. E se o leitor consegue sentir isso é porque Graciliano se valeu de uma escrita bem mais densa e lenta. Há uma dedicação no desenvolvimento psicológico do Luís, o que para alguns leitores pode ser desafiador. Mas, repito, é um processo necessário – ainda que talvez em excesso, no caso – para a criação de um personagem tão real e capaz de transmitir suas emoções. Graciliano também utiliza bastante da técnica do fluxo de consciência para expor o que se passa – de forma desordenada e ansiosa – na cabeça de Luís.

Além disso, como a obra se passa em uma época de repressão do governo de Getúlio Vargas, é muito interessante como o autor também insere críticas sociais a partir da visão do protagonista. Inclusive, a questão social e política extravasa as páginas de “Angústia”, já que Graciliano foi preso pouco tempo depois de finalizar a obra.

Gostei bastante, mas é um caminho lento e desafiador. Exige atenção e paciência do leitor, mas nas últimas páginas o ritmo aumenta e a experiência acaba valendo o esforço!

Amanhã tardará, de Pedro Jucá | Resenha

Em seu romance de estreia, o jovem autor brasileiro nos apresenta uma história forte sobre traumas, relações familiares e sexualidade. E tudo isso a partir de um retorno, da busca às origens: Marcelo, o protagonista, volta a sua cidade natal por conta da doença que acomete seu pai e se depara com resquícios – extremamente doloridos – de um passado conturbado.

Ao leitor, no entanto, a revelação vai se dando aos poucos. O protagonista se apega as suas primeiras memórias para construir os caminhos de sua infância e adolescência. Aos poucos, os demais integrantes da família são apresentados e toda a complexidade que sustenta a tensão dessas relações vai ficando mais clara para o leitor.

Um dos vínculos mais interessantes é o existnwte entre Marcelo e de sua irmã, Inês. O contraste entre o passado e o presente despertam a curiosidade no leitor sobre os motivos que teriam levado a uma mudança tão drástica no afeto e senso de proteção que era nutrido entre os irmãos. A questão da descoberta da sexualidade também foi abordada de forma muito interessante pelo autor, que por compartilhar a vivência de um homem gay, consegui transportar para o texto as angústias que conectam tantas histórias.

Apesar de bem fluida, a escrita tem uma intenção poética – às vezes passando a sensação de uma grande preocupação em escolher palavras certas e construir frases que pudessem transmitir esse tom. Terminei a leitura bem impactado, até por tratar de um tema comum a todos, ainda que com as devidas particularidades de cada um: a família. Mais uma obra que mostra a qualidade da literatura contemporânea que vem sendo produzida pela nova geração de escritores.

O crematório frio: um relato de Auschwitz, de József Debreczeni | Resenha

Por 70 anos, esse relato impressionante sobre a barbaridade dos campos de concentração ficou restrito aos leitores húngaros. Por conta das consequências da Guerra Fria e do antissemitismo, a obra não chegou a ser traduzida para outros idiomas, o que faz da sua publicação décadas depois de seu lançamento uma redescoberta necessária, uma denúncia sobre o horror do holocausto.

No Brasil, a edição, que conta com uma tradução direta do Húngaro, chega no 80° ano da libertação dos prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. E o relato de József consegue ficar ainda mais chocante quando se percebe como os acontecimentos são recentes e ainda sobrevivem na memória das gerações seguintes.

O autor foi uma jornalista húngaro, que passou meses preso em campos de concentração. A sua captura ocorreu em 1944, no ano anterior ao final da guerra, o que sem dúvidas assegurou que seu final não se assemelhasse a de tantas vítimas fatais do Holocausto. Mas isso não significa que por muitos momentos o autor não acreditou que fosse morrer nas mãos do exército nazista. Pelo contrário, a leitura deixa claro que ter resistido com vida até a libertação pelas tropas soviéticas foi um resultado milagroso (ainda que seja difícil utilizar o termo em uma circunstância tão brutal).

Lendo os relatos é até difícil de acreditar como o corpo humano consegue resistir (em alguns casos) a uma situação de tanta falta, medo e exaustão. Em seus últimos meses preso no campo, o autor foi mandado para o “crematório frio”, destino dos presos mais fracos e que eram deixados para morrer. Nunca tinha lido nada sobre esses locais e posso afirmar que essas páginas foram as mais inacreditáveis e doloridas de ler. É difícil de compreender o nível de desumanidade que alguém pode checar por conta do poder e do ódio ao diferente.

É a importância de conhecer e ler sobre o passado para que atrocidades como essa não se repitam, ainda que muitos tentem fechar os olhos para o que o ser humano já foi – e ainda é – capaz de fazer.

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Drácula, de Bram Stoker | Resenha

A expectativa pode ser um grande problema quando o assunto é leitura. “Frankenstein” é um dos meus livros favoritos da vida e, por enquadrar na lista de clássicos de terror mais famosos ao lado de “Drácula”, já achei que também seria muito impactado pela famosa história do Conde vampiro. Mas não foi bem assim e, para minha infeliz surpresa, quase desisti da leitura.

É inegável a importância de “Drácula” para a literatura de terror e o universo de vampiros. Publicada em 1897, pelo autor irlandês Bram Stroker, a obra é considerada a definidora do que conhecemos hoje por vampiro. Não foi o autor que inventou essa figura, mas foi “Drácula” que acabou estabelecendo muitas das características que vemos nas diferentes adaptações aos cinemas e no universo pop: o medo por crucifixos e alho, o costume de sugar o sangue das pessoas, a falta de reflexo no espelho…

A história do Conde Drácula não é contada como um romance comum, com capítulos que vão narrando o conflito entre o homem morcego e o ser humano. Bram Stoker escreveu um romance epistolar, utilizando cartas, recortes de jornais e diários dos personagens que compõem a obra. Isso, por si só, não seria um problema para mim. No entanto, apesar de ter devorado as 100 primeiras páginas, comecei a me incomodar com
o ritmo lento dos acontecimentos.

Os capítulos iam terminando, mas sentia que o enredo não evoluía. Pior que isso: não consegui me apegar aos personagens. Tive dificuldade em diferenciar a construção de cada um deles. Ainda que eu lesse uma carta ou um diário de Mina Harker ou do Dr. Van Helsing, eu não conseguia encontrar muitas características que definissem um ou outro.

Confesso que o que me prendeu até a última página foi o universo dos vampiros e a vontade de saber como seria a construção do final pelo autor (que acabou me decepcionando, pela velocidade que o ocorreu). Ou seja, para mim “Drácula” não foi um livro que marcou, muito embora eu reconheça a sua importância para a literatura de terror.

Monique se liberta, de Édouard Louis | Resenha

O jovem autor francês, de 32 anos anos, causou uma comoção em sua vinda ao Brasil no final do ano passado. Assisti a sua participação na FLIP e foi, sem dúvidas, umas das mesas mais impactantes que já presenciei. Já tendo lido dois de seus livros, foi muito marcante poder vê-lo pessoalmente falar dos temas que marcam suas obras: relações familiares, estrutura social e sexualidade. Para finalizar seu encontro com os leitores brasileiros, ainda tive o privilégio de participar da bancada do Roda Viva e fazer algumas perguntas ao fenômeno literário (você pode assistir à entrevista completa no canal do YouTube do programa).

“Monique se liberta” foi a última leitura que fiz, depois de já ter conhecido o autor. A personagem principal da obra é sua mãe, cujo nome está logo no título. No caso, essa é a sua segunda libertação. Em “Lutas e metamorfoses de uma mulher”, Édouard Louis narra as dificuldades da mãe de enfrentar um relacionamento violento e marcado por um cenário de pobreza e injustiças sociais.

Já em seu livro mais recente no Brasil, o autor descreve as tristezas vividas por sua mãe com um novo companheiro. Ou seja, mesmo tendo conseguido sair daquela cidade operária e de um casamento opressivo, Monique mais uma vez se encontra em uma situação de refém – tanto psicologica como financeiramente – de uma dominação masculina. Ela estava livre, mas o ciclo de violências a que está submetida a prende de novo.

A obra vai além e aborda os temas recorrentes do trabalho de Édouard Louis. O contraste da sua nova realidade com a de sua mãe, uma denuncia social e política e um certo acerto de contas com o seu passado.

Sou suspeito para falar do autor, mas recomendo muito todas as obras que já li. Leia sem medo, já que seus livros são acessíveis e tratam de sua própria vida, mas sem deixar de lado o impacto e a profundidade dos temas enfrentados.